Quarta, 24 Outubro 2018

haddaeunicio

Esta semana tivemos a oportunidade de observar como a burguesia manipula o processo eleitoral especificamente no que diz respeito à divulgação de pesquisas de intenção de voto.

Como se fossem as instituições mais idôneas da face da terra, vão lançando o resultado das pesquisas e martelando como campanha na grande imprensa para formar a opinião da pessoa comum.

A ciranda das pesquisas eleitorais

As pesquisas, obviamente, estão orientadas a responder aos interesses de classe dos capitalistas. Isso tem que ter claro, não podemos ser ingênuos. No capitalismo sempre há dois pesos e duas medidas.  

Segunda-feira, 17/09/2018, madrugada. É divulgada a pesquisa BTG Pactual com a seguinte medição: Bolsonaro 33%, Haddad 16% e Ciro Gomes 14%.

Segunda-feira, 17/09/2018, 11h. É divulgada a pesquisa CNT/MDA, que afirmava: Bolsonaro 28,2%, Haddad 17,6% e Ciro Gomes 10,8%.

Terça-feira, 18/09/2018, noite. Pesquisa IBOPE com os seguintes números: Bolsonaro 28%, Haddad 19% e Ciro Gomes 11%.

Quinta-feira, 20/09/2018, madrugada. Pesquisa DATAFOLHA: Bolsonaro 28%, Haddad 16% e Ciro Gomes 13%.

Todas transmitem a mensagem de que Bolsonaro já está no 2º turno com folga. Também, todas afirmam que Haddad está recebendo os votos de Lula e provavelmente chegará no 2º turno.

Então, esta é a intenção da burguesia: com Lula fora da disputa, uma vitória de Bolsonaro sobre o PT e de preferência sobre o PT coligado com Centrão e sua periferia (PDT e PSDB). Para, assim, dar uma vitória avassaladora de um candidato sem partido, ou sem partido tradicional, sobre o conjunto dos principais partidos que conformam o atual regime político do país.

Esse fato redundaria na destruição do regime democrático-burguês surgido após a queda da ditadura militar no início da década de 1980. Isso seria um importante passo adiante do golpe de Estado que está em pleno andamento nesse momento no nosso país, preparando para evoluir para um golpe abertamente militar.

O ajuste fino dessa tática burguesa fica por conta da manipulação para que Haddad passe para o 2º turno, mas com o mínimo da pontuação necessária, ou não na certeza absoluta das pessoas de que possa vencer o pleito.

Essa manobra ficou descarada com a divulgação apressada da pesquisa DATAFOLHA às 0h01min, ou seja, no primeiro minuto desta quinta-feira, 20 de setembro. Jogando água fria nos ânimos mais exaltados do eleitorado anti Bolsonaro que estava exultante com os 19% de Haddad do IBOPE. Tentando controlar e manipular afirmando de pés juntos que Haddad está empatado tecnicamente com Ciro Gomes. E assim eles vão construindo o senso comum.

As eleições estão inseridas no processo golpista

As pesquisas consolidam Bolsonaro em 1º lugar, mas quem era para estar consolidado no 1º lugar era Lula. A esquerda faz festa porque Haddad está em 2º lugar, mas ela deixa de considerar a conjuntura político social mais ampla em que se dá esse embate eleitoral. Principalmente no que diz respeito às movimentações da burguesia no campo extra eleitoral.

O conjunto da esquerda esquece que estamos vivendo uma conjuntura de golpe de Estado e esse golpe está em aprofundamento. Não é que as eleições sejam normais e que a democracia está garantida, muito pelo contrário, e há sinais claros de fechamento do regime político:

  1. a) A declaração do general Mourão (vice na chapa de Bolsonaro) que defende que uma nova Constituição seja feita por um grupo de notáveis e que depois será referendada por consulta popular, sem a participação do Congresso Nacional num processo Constituinte, é típico de ditaduras;
  2. b) O general Villas Bôas, comandante do Exército, afirmou que, em função do atentado à Bolsonaro, 0 resultado das eleições poderá ser questionado;
  3. c) O próprio atentado à Bolsonaro foi muito suspeito, com cheiro de armação. E foi o que manteve Bolsonaro em 1º lugar nas pesquisas;
  4. d) A indicação feita pelo general Villas Bôas de um outro general para assessor do gabinete do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), acatado piamente pelo ministro Dias Toffoli;
  5. e) O mesmo general Villas Bôas já tinha chantageado o STF quando da votação do habeas corpus de Lula;
  6. f) Bolsonaro, do seu leito de dor, afirmou que se Haddad vencer as eleições será por conta de fraude nas urnas eletrônicas, preparando desde já o questionamento de um resultado eleitoral adverso;
  7. g) O general Mourão foi para a TV pregar a possibilidade de autogolpe do presidente com apoio das Forças Armadas, em caso de anarquia. Há, ainda, muitos outros impropérios regurgitados pela boca do general Mourão, que demandaria muito tempo citar, pois a lista é grande.

Essas declarações são um tipo de preparação de um golpe militar que está em andamento no país.

A polarização eleitoral reflete a polarização da luta de classes

Os maiores interessados, que seriam os partidos da chamada esquerda, se negam de combater o golpe. Participam das eleições como se nada estivesse acontecendo em vez de denunciá-las como eleições golpistas, manipuladas e que servem para justificar o golpe.

É o cúmulo do eleitoralismo oportunista de uma esquerda covarde, burocratizada até a medula, que dá mais valor aos privilégios materiais obtidos através dos cargos nos parlamentos e no Estado burguês, do que na luta dos trabalhadores. Essa política da esquerda leva ilusão à classe de que é possível reverter o avanço golpista e os ataques aos direito dos trabalhadores com o voto na urna.

As eleições acontecem num momento de muita polarização social. O que acontece na superestrutura jurídico-política é reflexo da situação de confronto que há na estrutura social, na luta entre as classes. Nos últimos anos, com o incremento da crise econômica mundial em todo o mundo, a burguesia começou a estimular o crescimento de partidos de extrema direita, como prevenção à resposta dos trabalhadores aos ataques ao seu nível de vida.

Em contrapartida, a resistência operária, que é contida, na prática, pelas direções burocráticas, se manifesta claramente no campo eleitoral. Pois é para este campo que a burocracia desvia a luta real dos trabalhadores. Por exemplo, a vitória de Lopez Obrador, no México, em julho deste ano, com 53% dos votos. Outro exemplo seria a vitória de Lula, talvez até no 1º turno, se fossem eleições normais. Este ano a esquerda venceria nos dois principais países da América Latina.

Mas sempre tem o outro lado, a patronal não brinca em serviço. No México, a frente popular de Obrador irá ceder às pressões dos EUA e vai aplicar o plano de ajuste. Já prometeu convidar Donald Trump para a sua posse em 1º de dezembro e também avalizou junto com Peña Nieto e Trump o novo Nafta (Tratado de livre comércio da América do Norte), que ataca os trabalhadores mexicanos.

No Brasil, o imperialismo já conseguiu inviabilizar a candidatura Lula e joga todas as suas forças para avançar no golpe de Estado elegendo o seu candidato de extrema direita. Então, essa polarização na campanha eleitoral reflete de uma forma distorcida a polarização da luta de classes. A polarização entre Bolsonaro e Haddad tem a ver com a polarização entre patrões e trabalhadores.

E por que de forma distorcida? Porque a disputa não se dá no campo da luta de classes e sim no campo institucional burguês, justamente porque a direção burocrática do movimento desvia as lutas para a ação parlamentar. Essa é a principal crítica à direção do PT e da CUT, que controlam o movimento operário no país há 40 anos.

A esquerda não é consequente no combate ao golpe

E o que acontece na campanha eleitoral? O imperialismo prepara um governo de Bolsonaro, mas na verdade o governo não estará nas mãos do “capitão reformado”, este será apenas um fantoche.

Quem vai dar a dinâmica da aplicação da linha ditada pelos EUA será o responsável pela área econômica, o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro, o megaespeculador Paulo Guedes, que vai entregar o que resta das empresas públicas para as multinacionais e arrochar ainda mais os salários. E sempre terão o general Mourão, teleguiado pelo general Villas Bôas, como reserva de força para descer a lenha nos descontentes.

Em resposta, o PT orienta Haddad a fazer uma campanha light, tentando se afirmar como candidato de bom senso, conciliador e de centro. Tentando aparecer como o mocinho da história, e se aproximando do eleitorado do PDT, do PSDB, da REDE  e  assim, conquistar a confiança do mercado, em vez de optar pelo caminho da luta dos trabalhadores, colocando milhares desses protestando na rua contra o arrocho e contra o desemprego, além de  contra o golpe e contra Bolsonaro.

Temos que ter claro que para o imperialismo as eleições são táticas. Para este o estratégico é aprofundar o golpe de Estado, avançando por fora das instituições democráticas e se apoiando no Judiciário, na Polícia e no Exército.

Mas para a esquerda as eleições são estratégicas. Os partidos da esquerda pretendem compor uma aliança com a patronal para formar um governo de conciliação de classes, que avance na aplicação dos planos de austeridade de uma forma mais branda. Na verdade o que deveria ser estratégico para a esquerda seria a mobilização dos trabalhadores, pois só a força de sua mobilização na rua pode derrotar todo e qualquer intento golpista.

Essa realidade demonstra claramente a crise de direção revolucionária da classe trabalhadora, pois a condução atual só vai levar os trabalhadores à derrotas. Mais do que nunca é necessário avançar na construção do partido operário revolucionário que tenha a política correta para conduzir a mobilização dos trabalhadores à vitória sobre a burguesia, de uma forma definitiva.

Sobre o voto útil

Num primeiro momento o voto útil é uma reação à polarização eleitoral. Quem o advoga são Alckmin e Ciro Gomes, principalmente, numa tentativa de se impor como centro para ganhar os votos de quem não é eleitor de Bolsonaro e nem do PT, principalmente, ao mesmo tempo em que batem na direta e na esquerda, contra a “radicalização das posições”.

Alckmin se apresenta como centro-direita para ganhar os votos de direita que não são de extrema direita, do eleitor de Meireles, Amoedo, Álvaro Dias e até de Bolsonaro, com o discurso de que combateria melhor o PT.

Ciro Gomes se apresenta como “pseudo” centro esquerda, porque ele é mais centro direita do que esquerda, para ganhar os votos de “esquerda” argumentando que é o único que poderá vencer Bolsonaro no 2º turno, e, também, para ganhar votos da direita que não quer ver o PT no 2º turno. Ciro Gomes tem esperança de surgir como uma “terceira via”.

O problema é que este tipo de voto útil em Alckmin e Ciro Gomes corre o risco de virar um voto inútil, porque há uma polarização e os extremos é que dão a dinâmica. O centro tende a ficar pelo meio do caminho.

Ao que tudo indica, o verdadeiro voto útil é em Bolsonaro ou em Haddad. Bolsonaro prega o voto útil antipetista, na intenção de amealhar os votos dos outros candidatos de direita, do PSDB e do Centrão, com a intenção de vencer já no 1º turno. Haddad faz um movimento em direção ao centro, se aproximando do PDT, do PSDB, do Centrão e do empresariado, e terá que fazer ataques mais fortes ao capitão para desconstruí-lo e aparecer como alternativa viável.

Escalada do golpe em 2019

Seja qual for o novo governo, este sairá de uma votação dividida. A tendência é que haverá um equilíbrio de 50% a 50% no 2º turno. No entanto, independente de quem ganhar as eleições, não será enfrentado o problema do golpe de Estado, que tenderá a avançar para um golpe militar.

Se subir um governo Bolsonaro, é o caminho natural do golpe. No primeiro revés mais forte com o Movimento de Massas, pode dar um autogolpe. O que é muito arriscado, pois se não der certo, cai o governo, e a crise será maior ainda. Mas é o autogolpe que se está gestando.

Se for Haddad, este formará um governo tipicamente social democrata e estará imprensado entre o Movimento de Massas e a extrema direita e os militares. Haddad sofrerá resistência dos trabalhadores, quando aplicar o plano de ajuste. Da extrema direita e de todos os golpistas sofrerá pressão por ser do PT.

Os golpistas tentarão derrubar o governo para impor uma agenda mais dura e a escalada do golpe estará garantida.

A única força capaz de derrotar o golpe é a força dos trabalhadores mobilizados. O Movimento de Massas, no Brasil, não sofreu nenhuma derrota definitiva depois da queda da ditadura militar no início dos anos 1980. Foi, sim, amortecido e desviado de suas lutas por uma burocracia que tomou conta dos sindicatos e de todos os movimentos sociais e até gerenciou o país por 13 anos. Mas a resistência dos trabalhadores se transformará num grande ascenso de massas, na defesa de seus direitos. A última palavra ainda está por ser proferida.

Voto Nulo contra o teatro eleitoral golpista!
Mobilizar os trabalhadores para derrotar o golpe!
Fora imperialismo do Brasil e da América Latina
!

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