Quarta, 21 Novembro 2018

lutaeduca


Termina a greve dos educadores de Minas Gerais

 

No dia 18 de abril de 2018, com uma assembleia lotada, mas menor que as anteriores, foi aprovado o fim da greve de mais de 40 dias e o início do estado de greve por uma diferença estreita. Dos dez inscritos para fazer intervenção, oito defenderam o fim da greve com argumentos esdrúxulos do tipo "que a proposta de se fazer uma PEC já era uma grande vitória" e, até com mentiras "de que em Contagem, município da grande BH, haviam apenas três escolas paradas".

 Mas vamos aos fatos. Na penúltima assembleia realizada no dia 11 de abril a diretoria do SindUte levou o maior susto com a rebelião das bases que foram contra o indicativo levado à assembleia de retorno às aulas, fez a votação por duas vezes mas não teve jeito, tiveram que engolir a continuidade da greve. Imediatamente se articularam e marcaram para o dia seguinte e nos dias posteriores assembleias regionais para jogar água fria nos grevistas. Durante toda semana trabalharam imensamente com sua rede de estafetas atuando nas redes sociais para mostrar que a greve não podia continuar, que a PEC que estava sendo articulada era o suficiente. Medindo e calculando as dificuldades que encontrariam para por fim ao movimento partiram para táticas mais rasteiras, mas não incomuns no movimento sindical burocratizado, e administrativas no sentido de esvaziar a assembleia dos recalcitrantes, mapearam a base e dificultaram a ida de educadores à assembleia em Belo Horizonte. Não foi por acaso que na penúltima reunião do comando geral votaram 54 representantes dos comandos locais e nesta apenas 22 comandos locais foram a favor do fim da greve, 6 comandos não se posicionaram e três foram favoráveis à continuidade da greve. Portanto um número muito menor de representantes de comandos locais.

Assim retrata a situação um professor do Norte de Minas:

“Você não sabe da maior, no município aqui onde eu leciono, no Vale do Jequitinhonha, tem uns três dias que estamos brigando com a subsede em Salinas e você acredita que não vai ter ônibus? Depois da última assembleia não houve nenhum tipo de mobilização por parte do movimento sindical para disponibilizar ônibus para levar o pessoal da forma como eles faziam, como sempre fez, de quando querem eles vão buscar inclusive em outras localidades. Então não fizeram nada para ter ônibus, nosso coletivo estava empenhado em ir à assembleia em BH amanhã, mas infelizmente não poderemos ir porque é muito longe e o custo é alto e a gente não teria condições de ir se não por via do sindicato. Eles estão alegando que a quantidade de pessoas em Salinas é insuficiente para fretar um ônibus, mas isso na verdade é uma grande balela porque quando eles querem eles mobilizam, então infelizmente não vamos participar da assembleia em BH, não porque não queremos, mas porque não temos condições. Mas para você ter uma ideia, para a manifestação que vai ter em Ouro Preto, dia 21, já tem ônibus lotado. Inclusive, me parece que vai ter até mais de um ônibus da Sub sede de Salinas em direção à Ouro Preto, mas para nossa assembleia eles não podem colocar por incrível que pareça.”

Em outra mensagem de Whatsapp, uma educadora de Governador Valadares diz:

“G., bom dia eu estou recebendo aqui denúncias de todo jeito é do Sul de Minas que não abriram caravana para a assembleia de hoje, denúncia daqui de Valadares que o pessoal tá muito preocupado dessa greve ter continuidade, então é preciso que vocês estejam atentos a isso aí, até se necessário fazer denúncia, porque há todo um controle sindical no Estado pra que a greve termine hoje”.

No dia anterior um servidor de Varginha passa a seguinte mensagem para o SindUte estadual e divulga pelo Whatsapp:

“A/c Beatriz Cerqueira

Estamos tentando garantir o transporte de trabalhadores e trabalhadoras da educação do sul de Minas.

Alguns trabalhadores e trabalhadoras de Varginha, de Campos Gerais etc, tentaram ligar para a subsede Varginha e não conseguiram vaga para irem manifestar o apoio necessário a nossa greve na assembleia geral de amanhã (18/04/2018).

Peço a diretoria do sindUTE que entre em contato com o coordenador da subsede Varginha e garanta o transporte dos trabalhadores e trabalhadoras para a assembleia de amanhã.

Já tentamos dialogar com o Bidu e ele se nega a abrir mais vagas para a caravana do sul de Minas. Sabemos publicamente do entendimento do coordenador Bidu para o fim da greve e os trabalhadores e trabalhadoras que não conseguiram as vagas são declaradamente trabalhadores a favor da greve.

Peço cordialmente a intercessão da diretoria do sindicato.

Cordialmente,

Professor Pyramides”

Essas e tantas outras mensagens dão conta do esforço da burocracia para dar fim à greve e cantar vitória. No dito popular seria o caso do comedor de arroz com ovo arrotar caviar. No caso arrotam uma Proposta de Emenda Constitucional - PEC (à Constituição do Estado de Minas Gerais) para obrigar o governo a cumprir uma lei federal (do piso salarial).

Os trabalhadores da educação entraram em greve no dia 8 de março de 2018 reivindicando:

Pagamento do piso salarial conforme acordo assinado, conseguiram? Fim do parcelamento dos salários e do 13º, conseguiram? Cumprimento dos acordos assinados, conseguiram? Atendimento de qualidade pelo IPSEMG, conseguiram? Nomeação do concurso público, conseguiram?   Então por que cantar vitória? Com que objetivo?                                

O movimento foi derrotado pela intransigência do governador Fernando Pimentel e pela burocracia petista incrustada no aparato sindical há anos.

 

 


Uma burocracia fraca

Muitos pensam que essa burocracia sindical é forte, que ela manobra como quer e quando quer, mas não é a verdade. Essa greve demonstrou que essa burocracia não é forte como parece e apresenta rachaduras. Perdeu uma assembleia onde propôs claramente o fim da greve, fez das tripas coração para aprovar e, por margem de votos apertada, conseguiu o fim da greve. Isso com todo o aparato do Sindicato na mão, o que não é pouco. Mobilizou todos seus correspondentes, fez intervenções arrebatadoras diante de uma claque instruída durante oito dias para gritar: “suspensão, suspensão, suspensão...”.  “Trouxe até o Boulos!” [candidato a candidato a presidente pelo PSOL] conforme comentou uma educadora no canto da assembleia. Sobre a participação de Boulos houve muitas conversas de que era uma aparição oportunista ainda mais depois que um professor do sul de Minas entoou a palavra de ordem, no final de sua intervenção pelo fim da greve: “Brasil urgente! Boulos presidente!” Também não faltaram comentários de que aquilo ali estava virando um palanque eleitoral e de que a luta dos educadores seria canalizada para uma possível candidatura à deputada estadual da presidente do Sindicato fazendo dobradinha com outro candidato do PT, ex-professor.

Devemos convidar todas as categorias a apoiar nossa luta, porque é uma luta da classe trabalhadora, convocar as lideranças para que façam atos, greves e movimentos de solidariedade, o que aconteceu muito pouco nesta greve que ficou isolada. Nossa greve poderia ter ganhado muito mais força se nos juntássemos aos servidores municipais se estes tivessem aprovado a greve na assembleia que fizeram na semana anterior. Poderíamos também manter a greve e nos unir aos educadores das escolas privadas que paralisam as atividades a partir de hoje, 19 de abril.

Seria mais digno fechar a greve, se é isso que tanto queriam, com um chamado do tipo “perdemos uma batalha, mas não perdemos a guerra!” Mas não, prefeririam repetir como um mantra que a greve "saia vitoriosa com uma proposta de PEC", contradizendo mesmo o que a presidente do Sindicato tinha dito na sua intervenção, no início da assembleia:

“O debate feito no comando, que a minha tarefa é socializar com vocês, que as propostas que estão sendo apresentadas nesse momento, não se balizam, primeiro, por confiar no governo do Estado, porque o governo do Estado já nos deu provas que ele descumpre aquilo que ele se compromete, então o debate que a gente tá fazendo não é de confiar que vai cumprir, que dessa vez vai dar certo, não é esse o debate que nós estamos trazendo aqui, segundo, a PEC, ela foi um caminho importante que não veio pelo poder do Estado, veio porque há bastante tempo nós estabelecemos, enquanto categoria uma relação política com a Assembleia Legislativa e desde 2015 pra cá é a quarta iniciativa da assembleia de questões que se relacionam a gente, nós não fizemos greve por PEC, todos nós temos clareza disso, nós não iniciamos uma greve para suspendê-la quando tivéssemos uma PEC, então não há nenhum debate diferente disso, de de repente achar que a PEC é a última Coca-Cola gelada que nós encontramos, vamos fazer um debate franco entre nós, sob pena da gente se iludir e fragilizar o alicerce das lutas que precisam ser feitas. Então, o debate no comando hoje, partiu dessas discussões...” (grifos nossos)

 

Qual "relação política" de proximidade que a categoria tem com a Assembleia Legislativa? O governo estadual tem maioria na base parlamentar, então, por que essa maioria não obriga o governo a pagar o piso e cumprir os acordos?

Segundo o Jornal o Estado de Minas de hoje:

"O pagamento do piso nacional da Educação em Minas Gerais, prometido pelo governador Fernando Pimentel (PT) no início do seu governo, pode passar a ser definido na Constituição do Estado. A medida, que já consta de lei sancionada em 2015, agora está prevista em Proposta de Emenda à Constituição (PEC 49/18), assinada por 72 dos 77 deputados estaduais, que começou a tramitar nesta quinta-feira (19)). 
O texto foi apresentado para acalmar os ânimos dos servidores da educação e encerrar a greve da categoria, que ainda está em mobilização pelo não pagamento do piso em Minas."   https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2018/04/19/interna_politica,952850/deputados-propoem-para-educacao-lei-que-ja-existe-em-mg.shtml?utm_source=whatsapp

Interessante, para não dizer estranha, foi a atitude da Unidade Classista (PCB) que distribuiu um boletim falando da necessidade e importância de continuidade da greve e na sua intervenção diante do plenário, aprumou um “discurso competente” e chamou à responsabilidade da consciência para defender que a greve já havia chegado ao esgotamento. Lamentável a posição deste agrupamento.

A burocracia sindical, como toda burocracia, não suporta movimentos crescentes de trabalhadores porque tem um medo terrível de perder o controle. O controle do movimento e o controle dos aparatos, seja do Sindicato, seja de um mandato parlamentar; esse é seu meio de vida e vai fazer toda a sorte de manobras para não voltar ao trabalho duro do dia a dia e com a chefia no cangote, ao qual os trabalhadores estão sujeitos cotidianamente. A burocracia quer manter seus privilégios e por isso não forma novos ativistas que possam substituí-la nos cargos de direção. Será sempre ela a mais preparada para continuar por tempo indefinido, liberada do trabalho junto à base, recebendo altos salários, sem horário a cumprir no dia a dia, com viagens pelo país e pelo mundo pagas pelas entidades que representa, etc. Todos os burocratas reclamam que trabalham muito, que são perseguidos, que levantam de madrugada, mas você já viu quantos efetivamente voltam para a base, para o trabalho? Pelo contrário, eles querem ascender em outros cargos dentro do aparato ou arranjar algo melhor como deputado, prefeito, vereador...

A derrota da greve tem dois responsáveis: o governo estadual e a burocracia sindical. Estes têm dois objetivos de fundo: as eleições e o controle dos aparatos.

A greve, como toda luta dos trabalhadores, tem um saldo positivo que é o de elevar o nível de consciência dos trabalhadores, de fazer com que esses distingam os grupos políticos dentro de sua própria categoria e na classe trabalhadora, mesmo os que se dizem apolíticos, de identificar de que lado o patrão e o governo estão, de perceber as manobras da burocracia dirigente e de começar a se posicionar politicamente no processo da luta de classes.

Diante desse aprendizado é necessário continuar nos organizando nas escolas, discutindo e preparando para derrotar esse governo intransigente e as manobras de bastidores da burocracia sindical. Eles serão derrotados quando a classe trabalhadora de conjunto se levantar. Foi assim em vários momentos da história. Vamos construir uma nova unidade dos explorados, passando por cima destes feudos burocráticos que dividem a classe trabalhadora. Hoje, no Brasil, são 14 centrais sindicais! Um completo absurdo: cada um montando seu pequeno aparado e fragmentando as lutas.

Sobre a manifestação no dia 21, em Ouro Preto, é importante que todos saibam, desde que foi instituído o evento, na época de Juscelino Kubitschek (1952), nunca, mas nunca mesmo, a entrega das medalhas da Inconfidência (a cerimônia) foi feita a portas fechadas. Pois bem, sábado, 21 de abril, a cerimônia será feita no Centro de Convenções da UFOP. Na Praça mesmo somente o depósito da coroa de flores junto à estátua de Tiradentes. Mais uma do Pimencano, ele não quer ouvir a balburdia da gentalha, a não ser que o Centro de Convenções seja ocupado.

ABAIXO A DIREÇAO TRAIDORA E O GOVERNO PIMENTEL!
NENHUMA ILUSÃO NA PEC!
PELA CONTINUIDADE DA LUTA PARA ALCANÇAR NOSSAS REIVINDICAÇÕES!

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