Quarta, 24 Outubro 2018

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Entrou em vigor, no dia 20 de agosto, o pacote de medidas econômicas adotas pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. A medida de maior impacto foi o corte de cinco zeros na moeda local, que passará a ser chamada “bolívar soberano”. A nova moeda terá sua cotação atrelada ao petros, uma criptomoeda que tem seu valor ancorado ao preço do barril de petróleo com valor inicial fixado em 3.600 bolívares soberanos. Hoje, um petro equivaleria a aproximadamente US$ 60 ou R$ 250.

O salário mínimo e as pensões serão aumentados para 1.800 bolívares soberanos ou a metade de um petro. O chamado “Carnê da Pátria” para racionamento social será de 600 bolívares soberanos, para os setores mais pobres da população comprarem produtos essenciais.

Esse aumento no salário mínimo equivalerá a 35 vezes o salário anterior e será obrigatório em todo o território nacional para trabalhadores públicos e privados. O governo se comprometeu a assumir o pagamento da diferença entre o salário mínimo novo e o antigo durante três meses para pequenas e médias empresas privadas.

O novo sistema de preços, ancorado no valor do petro, pode incluir o tabelamento dos preços, que não foi anunciado, mas é previsto.  E será estabelecido um novo câmbio flutuante fixo baseado no petro, e o fim dos câmbios paralelos, turismo, etc.

O controle contra a especulação financeira será rigoroso. O Banco Central vai entrar vendendo dólares para derrubar os preços do dólar, como política. No início vai fazer isso três vezes por semana e depois cinco vezes por semana. Com os Leilões de dólares do Banco Central, irão aumentar os impostos, essencialmente o imposto sobre o consumo de 12% para 16%, principalmente para os produtos não essenciais à população.  

O imposto de renda terá um aumento na fonte até 2%, ainda, irá aumentar os impostos das empresas de 1% para 2%. No caso das seguradoras e bancos, vão aumentar a frequência da arrecadação que passará de quinzenal para semanal, aumentarão, também, o imposto sobre operações financeiras até 2% isentando a produção, principalmente a produção Fabril.

Criar-se-á um novo sistema de controle da venda de combustíveis por meio do “Carnê da Pátria” para minimizar a questão do roubo de combustíveis.

Um ajuste para avançar em medidas pró-capital

 O Plano de Maduro, chamado de “Plano de Recuperação Econômica”, foi detalhado no dia 21 de agosto pela área da economia do governo que justificou o aumento da carga tributária afirmando que hoje é uma das menores do mundo, 21%.  Também confirmou os dados que já temos mostrado várias vezes de que 60% do orçamento do governo estavam sendo gastos com programas sociais chamados Missiones e com subsídios.

Se avaliarmos a essência dessas medidas, temos um grande ajuste, um grande ataque contra a população, com o aumento dos preços, principalmente com a derrubada de uma série de subsídios no setor da energia, no setor do petróleo, para tentar estabilizar a economia.

 Esse plano deriva das políticas que o governo tenta aplicar para poder avançar na privatização da PDVSA (Petróleos da Venezuela), estatal venezuelana que explora, comercializa e transporta petróleo. É uma operação que o governo está tentando fazer há um bom tempo, visualizando principalmente o petróleo, mas que a própria constituição proíbe.

São medidas que tentam desentravar a economia sem romper os laços com o imperialismo e com o capitalismo mundial, que é uma política do ‘chavismo’ desde os primórdios. Porém, hoje, devido à sua total decadência, faz isso de uma maneira mais abertamente pró-capital.

 O “chavismo” com Hugo Chaves

Aqui deveríamos pontuar algumas questões para entender a etapa atual que o "chavismo" se encontra e depois voltar à questão da análise de como o "chavismo" surge com a vitória eleitoral de 1998, como uma espécie de solução da crise que tinha sido aberta com o "Caracazo", em 1989.

O "Caracazo" foi uma explosão social espontânea que evoluiu para enormes protestos populares contra o "pacotaço" do governo Carlos André Peres, em Caracas, capital de Venezuela, em fevereiro de 1989. Foi a primeira grande reação de massas contra a política neoliberal.

É em cima desse enorme grau de radicalização da população que acontece a vitória de Hugo Chaves, que levou à adoção de uma série de medidas no marco de uma radicalização da luta de classes.

chaves

Em abril de 2002 acontece uma tentativa de golpe de Estado organizado sob a direção do imperialismo norte-americano.  O presidente Hugo Chaves é detido, o Legislativo e o Judiciário dissolvidos e a Constituição revogada. Mas essa movimentação não dura mais do que 47 horas, pois o movimento de massas sai às ruas e derrota o golpe e Chaves é reempossado como presidente.

 A partir de dezembro de 2002 é desencadeada uma greve patronal do PDVSA, que segue por vários meses de 2003. Esses movimentos da direita são derrotados e o chavismo se radicaliza enormemente, só que agora essa radicalização se dá sobre a pressão do movimento de massas, que pressiona no sentido da adoção de uma série de medidas bastante radicais para a situação que imperava na América Latina na década anterior.

Nessa linha, o governo venezuelano nacionaliza 50 grandes empresas e institui as Missiones, que destina para os programas sociais 40% do orçamento nacional proveniente da exportação de petróleo.

O Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV) substituiu o partido militar de Hugo Chávez e agrupou quase toda a esquerda, defendendo o programa chamado “socialismo do século XXI”, que não decolou.

Em relação a essas 50 grandes empresas que foram nacionalizadas, elas nunca estiveram, de fato, nas mãos dos trabalhadores e do movimento de massas. Inclusive, todos os patrões foram compensados com indenizações, algumas delas muito fartas, como por exemplo, empresas controladas por elementos do kirchnerismo argentino.

O “chavismo” com Nicolás Maduro

Essa política começa a entrar em grande decadência a partir de 2012 em função da crise do capitalismo mundial e da consequente redução dos preços do petróleo a partir de 2013. A partir daí o chavismo avança rapidamente de governo de tipo plebiscitário, com muitas consultas populares, referendos, etc., para um governo cada vez mais de caráter bonapartista.

O governo de Nicolás Maduro tem muito mais de bonapartismo do que o governo Chávez. Por isso, mesmo derrotado de forma vergonhosa nas eleições legislativas de 6 dezembro de 2015, onde a direita ganhou de lavada, o governo chavista conseguiu se manter no poder.

O grande ponto é o enorme medo que a direita e o imperialismo têm das massas de trabalhadores venezuelanos. Neste país, uma parte da população está armada, desde a derrota do golpe de Estado contra o governo Chávez. Isso é um problema enorme para o imperialismo. Pois uma guerra civil na Venezuela pode levar a consequências imprevisíveis.


maduro

O chavismo tem vários setores da direita que estão integrados em seu entorno, que disputam em três grandes setores. Há um setor do chavismo ligado a grupos sociais e sindicais bastante cooptadas, por exemplo os trabalhadores do setor do petróleo. Há outro setor mais ligado a Maduro, que é uma espécie de Lula, que se posiciona como aglutinador das várias alas do chavismo, principalmente setores ligados aos governadores, alguns setores ligados ao exército, etc. Ainda há setores do chavismo ligados aos empresários, que buscam um acordo com o imperialismo.

A direita venezuelana tem figuras como Henrique Capriles, líder da oposição de direita, duas vezes candidato a presidente, que se encontra, atualmente, impedido de disputar cargos políticos por 15 anos devido a supostas irregularidades no seu mandato como governador do estado de Miranda. Outro líder da direita é Leopoldo López, presidente do partido Vontade Popular (VP), preso desde fevereiro de 2014 e que agora está em prisão domiciliar. Os partidos da direita também buscam esse tipo de acordo com o imperialismo, só que estão numa brutal crise.

Os ataques do imperialismo

A política do imperialismo norte-americano é de atacar a Venezuela, mas com cuidado, para evitar uma explosão social e perder de vez o controle, inclusive com reflexos em toda a América Latina. Existem movimentações em cima do plano Colômbia, fundamentalmente contra a Venezuela, mas não só contra Venezuela, contra qualquer mobilização revolucionária na América Latina.

Temos que considerar que uma invasão contra a Venezuela não é tão simples. O imperialismo tem vários planos, mas não é tão simples. Você tem uma boa parte da população armada, tem as milícias, tem a guarda civil bolivariana e tem os movimentos sociais. Então, tem uma situação que é um caldeirão, que explica justamente porque o imperialismo está indo com tanto medo, pisando em ovos na Venezuela.

Outro dado muito importante, é que foram impostas ao governo de Maduro, por meio de várias decisões judiciais, o pagamento de alguns bilhões de dólares para várias empresas petrolíferas, que poderia redundar na penhora e em busca e apreensão de navios de exportação de petróleo venezuelano e, também, da “Citgo”, empresa venezuelana responsável pela distribuição do petróleo nos EUA.


yankee

Mas o governo Maduro tem avançado com uma série de acordos com essas petrolíferas. Por exemplo, com a empresa ConocoPhillips, que, em cima de uma decisão judicial, tem a possibilidade de obter US$ 2 bilhões, do governo Maduro, o que é muito considerando que as reservas soberanas cambiais na Venezuela não superam os US$ 8,5 bilhões. Outras empresas tiveram decisões favoráveis, mas nenhuma chegou a arrestar nem parte dos ativos da PDVSA, que poderiam levar ao colapso do governo Maduro.

Todos esses acordos têm como pano de fundo o medo que a direita do chavismo e o imperialismo têm do movimento de massas, este sim é o grande problema. E essa última movimentação do chavismo deve ser vista como fazendo parte de um plano para estabilizar a economia venezuelana, que estava indo para uma explosão a qualquer momento.

Um “plano” de ataques aos trabalhadores

É importante caracterizar que esse novo Plano Econômico do governo Maduro é firmado numa grande frente única para aplicar um verdadeiro ataque contra os trabalhadores, em larga escala, com apoio do imperialismo norte-americano. Mas, também conta com o apoio da Rússia e da China e de setores que controlam o governo Maduro, até o próprio Maduro, obviamente.

Inclusive, porque ou é isso ou é ir para um colapso que poderia acontecer a qualquer momento. A situação é tão crítica que o que vem mantendo o governo chavista nos últimos anos, a partir de 2012, aproximadamente, são os empréstimos chineses e russos feitos em troca de participações na PDVSA. Só que os russos e os chineses impõem, para continuar suportando este governo, que a PDVSA possa ser entregue de mão beijada. Não somente um ou outro ativo, mas toda a empresa.

O que é muito importante nesse Pacote Econômico é que está embutida a possibilidade da privatização da PDVSA. Avançando na política de entrega dos ativos nacionais aos estrangeiros, principalmente aos russos e aos chineses, mas também aos monopólios imperialistas do setor do petróleo.

Outro aspecto é que Pacote de Maduro é um grande ataque contra os programas sociais e principalmente contra os subsídios, que não são cortados de vez, mas são enquadrados de maneira tal que não vai ser tão difícil aumentar os preços da gasolina, por exemplo, tendo em vista que o aumento do preço do combustível é condição para poder aumentar os ativos da Venezuela e privatizar a PDVSA, que tem as maiores reservas mundiais de petróleo.

O governo tenta, com essas medidas, estabilizar a economia sob o ponto de vista capitalista e a partir dessa base procura avançar para acordos com o imperialismo e com o Fundo Monetário Internacional, FMI. Em resumo, temos na Venezuela uma economia completamente falida, as contas não fecham e as reservas soberanas estão muito baixas, cerca de 8,5 bilhões de dólares.

Perigo de explosão social

Em relação aos ataques do imperialismo, que ainda está com luvas de pelica, se forem aplicadas apenas as decisões judiciais, a Venezuela quebra. A rolagem da dívida está muito prejudicada, por isso querem privatizar a PDVSA. O endividamento com os chineses é enorme e supera os 50 bilhões de dólares, tem dívidas com os russos também, isso tudo nas barbas do imperialismo norte-americano.

Os russos e chineses tentam ganhar posições, mas o imperialismo é o grande importador de petróleo da Venezuela. Porém, qualquer intervenção do imperialismo na Venezuela seria um desastre, por isso esses países têm muito medo e não pretendem brincar com fogo, como os próprios setores da direita venezuelana e do chavismo. Todos sabem que os setores existentes que estão à esquerda do chavismo podem levar à uma convulsão social incontrolável.

imperialism

Levantamentos feitos por instituições da direita apontavam que a Venezuela precisaria de 50 bilhões de dólares, no mínimo, para estabilizar a economia, o que exigiria um pacto como o que está sendo implantado, eliminando os subsídios, que neste momento estavam consumindo 20% do orçamento estatal, controlando e reduzindo as Missiones, para onde estavam indo mais 40% do orçamento do Estado, apertando os salários e colocando o país dentro da concorrência mundial, permitindo que os chineses e russos pudessem continuar lucrando.

O chavismo não é uma ruptura com o capital

O chavismo é um governo de conciliação de classes, da mesma forma que o governo Lula e o petismo, porém com o nome bonito de “socialismo do século XXI”, que em nenhum momento se propõe a expropriar o capital e, muito menos, a organizar os trabalhadores para a tomada do poder. O chavismo tem suas bases no movimento militar, é um setor da pequena burguesia radicalizada em um determinado momento. Agora existe um arrefecimento desta radicalização.

A pequena burguesia não consegue lutar pelo socialismo, ou seja, pela expropriação do grande capital, dos grandes bancos e das grandes empresas, destruir o governo burocrático burguês e substituí-lo por um governo de Conselho dos Trabalhadores. Quem pode fazer isso é só a classe operária, que precisa organizar o seu próprio partido. Não seria um grupo de militares ocupando a burocracia estatal que decretaria o socialismo.

A Venezuela é mais um exemplo de que isso não dá certo, ainda mais com este choque econômico que está sendo aplicado. É o mesmo que está sendo aplicado na Argentina e o que está para ser aplicado com mais força no Brasil e em toda a América Latina, no mínimo.

Então o que está sendo feito na Venezuela é uma forma de integrar o país ao mercado mundial que é controlado pelo imperialismo, para salvar os lucros do grande capital com os trabalhadores pagando o pato. Se fosse para fazer medidas radicais, de fato, na Venezuela, deveriam colocar as empresas sob o controle dos trabalhadores.

Mas isso é impossível com o chavismo, que é uma burocracia que não consegue nem mesmo tirar do papel as Missiones. O que fazem é controlar os movimentos sociais, da mesma forma que o PT faz no Brasil, mas com um grau de radicalização muito maior.

Aqueles que colocam o chavismo como um bloco não percebem que há contradições internas, com alas que apresentam diferenças bastante radicais, onde podem surgir setores revolucionários e podem se levantar os trabalhadores da PDVSA, que no momento estão muito contidos.

O que fica claro é que nem na Venezuela, nem na Namíbia, nem nos governos militares, como no Peru, por exemplo, o nacionalismo militar conseguiu lutar pelo socialismo de verdade. Pois esses governos são compostos por setores da pequena burguesia, que é contrarrevolucionária, que luta contra o grande capital cada vez menos e que busca mais acordos para manter seus privilégios. E que hoje discute como modelo de socialismo a pequena propriedade e as cooperativas, ou seja, outros tipos de propriedades já ultrapassadas.

Somente a luta operária pode favorecer a situação dos explorados

A única maneira de lutar contra o capitalismo é que os trabalhadores estejam organizados em torno do programa da revolução operária mundial. O agente da revolução é a classe operária, a única que não tem nada a perder a não ser seus próprios grilhões.

A ideia disseminada nos corredores acadêmicos, de que a classe operária não existe mais, é completamente ridícula. Só na China há meio bilhão de operários, no mínimo, e na Índia deve ter outro tanto. Na Coréia do Sul, na Malásia, nas Filipinas, nesta região da Ásia, tem um bilhão de operários, no mínimo. No Brasil provavelmente o número de operários deve estar próximo a 40 milhões.

E o socialismo é tão simples [obviamente é uma metáfora], que basicamente se resumiria na expropriação dessas cerca de 150 famílias capitalistas, que são donas de quase tudo no mundo. As grandes empresas, todas, têm que ser expropriadas.

E quem vai gerir isso? É a pequena burguesia? Serão os professores universitários que professam um monte de ideologias ridículas? Ou os militares? Não. Somente pode ser a classe operária que trabalha nestas empresas. Essa era a visão de Marx e de todos os marxistas reais.

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E se hoje a classe operária se encontra semiparalisada, certamente não vai continuar assim para sempre. Até nos regimes mais estáveis que existiram na história, nas dinastias Ming na China ou na dinastia Edo no Japão, em vários períodos ocorriam grandes movimentos de camponeses para eliminar um governo de crise e desse processo se levantava um novo imperador. Mas aqui não se trata da dinastia Ming do ano de 1300, e sim de um capitalismo globalizado com um grau de tensão muito alto e de uma classe operária mundial. Tudo que levou à crise de 2008 está sendo “repetido” num grau ainda mais exacerbado.

O que está colocado para o próximo período é um grande colapso capitalista mundial que inevitavelmente vai colocar a classe operária em movimento. Obviamente, haverá contrarreações, fascismos, ditaduras militares, que irão varrer esses setores da pequena burguesia que atuam como colchão social. Podem surgir outras lideranças contrarrevolucionárias, mas o certo é que o capital não consegue apresentar alternativa que não seja mais neoliberalismo.

O futuro pertence à classe operária, que promoverá a expropriação da propriedade privada do bando de parasitas. O futuro pertence ao socialismo com o controle dos trabalhadores sobre a produção e distribuição de bens.

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