Sábado, 18 Agosto 2018

trump e kin


Para entender a crise geral que está aberta é preciso entender a evolução política mundial como reflexo da crise da econômica capitalista. Por exemplo, terminou no dia 12 de junho a cúpula entre os presidentes dos EUA Donald Trump e da Coreia do Norte Kim Jong-un, em Cingapura. Essa reunião de cúpula deve ser entendida como uma espécie de cereja do bolo da crise. Vimos algumas análises que apareceram, inclusive de grupos ditos de esquerda, que consideram que essa reunião é um grande ataque ao Estado operário e começam a filosofar quanto a isso.

No mesmo caminho do Vietnã

O problema que nós temos nesse momento é de um plano muito mais amplo, não é somente um ataque contra o Estado Operário burocrático da Coreia do Norte, porque esse ataque já vem de 25 anos atrás. O pai de Kim Jong-un, o anterior presidente Kim Jong-il, também tentou abrir o país e avançou nesse sentido, inclusive com reuniões com Bill Clinton. A proposta era a mesma de hoje, ou seja, abrir mão do programa nuclear, que a Coreia do Norte permitisse investimentos estrangeiros, recebesse ajuda econômica e que pagasse um preço por isso, abrindo a economia.

O objetivo é o mesmo dos demais dirigentes dos Estados operários burocráticos e que foi seguida no Vietnã, por exemplo, com praticamente a abertura total da economia. Nesse país não existe mais a aposentadoria, que é um direito elementar, a saúde é cada vez mais privada e a educação a mesma coisa. É um país totalmente aberto ao sistema capitalista mundial, onde se tem uma burocracia burguesa interna que é quem governa o país por meio de um partido único.

O mesmo modelo de dominação aplicado na China e que estão agora querendo impor na Coreia do Norte. Tanto assim é que a aproximação que o regime da Coreia do Norte busca com a Coreia do Sul é a união dos regimes confederados onde os privilégios dessa cúpula burocrática sejam mantidos.

Sem dúvida que é um ataque ao Estado Operário burocrático, mas essa é uma parte do problema, que é mais amplo, porque essa política de integração ao sistema imperialista mundial está sendo colocada de maneira mais abrangente a partir da China e da Rússia.

A China e a Rússia são os alvos principais

No centro das contradições entre a China e a Rússia por um lado, e os EUA por outro, temos uma disputa entre as duas alas da burguesia, a burguesia imperialista e a burguesia das potências regionais, que não são imperialistas, no sentido de quem vai integrar esses países ao regime capitalista mundial.

Ainda é preciso ver se isso é possível porque o que vemos na China, e em menor escala na Rússia, é que há ataques contra os próprios ricos desses países. Na China, é necessário implantar uma política para controlar a nova burguesia porque, devido à crise e devido a esse desespero próprio dos capitalistas que atuam como uma personificação do capital, estes querem salvar e aumentar os lucros e fazem loucuras que podem implodir o próprio país.

Um bom exemplo disso foi o ocorrido em 2015 quando as bolsas de Xangai caíram violentamente, provocadas em parte pela pressão externa imperialista, mas principalmente pela fuga brutal de capital interno para o exterior que, na ânsia de salvar os lucros, esses capitalistas retiraram volumes enormes de capital interno e os enviaram para países mais baratos como Vietnã, Camboja, Mianmar, Indonésia, Tailândia e outros países da Ásia.

O objetivo da reunião entre Donald Trump e Kim Jong-un foi também de acabar com o Estado Operário burocrático mas não que a Coreia do Norte  seja um grande problema para o sistema capitalista mundial porque é um país super pobre, onde existe uma burocracia que impõe um regime policial, mas que ainda é obrigada a manter uma série de privilégios em programas sociais devido à pressão do movimento de massas.

O problema é que a crise nesse país é tão grande que a situação se tornou insustentável, pois a economia está engasgada e a pressão do imperialismo é muito forte. São obrigados a despender enormes gastos militares além dos gastos com os programas sociais. O que essa burocracia gostaria de fazer é o que todas as burocracias dos Estados Operários têm feito, ou seja, tentar abrir os países e implementar regimes ao estilo do Vietnã. Até em Cuba há um esforço nesse sentido, mas ali a situação é muito mais delicada devido à própria história da revolução cubana.

O acordo a que se chegou nessa cúpula foi muito vago. Basicamente a Coreia do norte "promete" parar com o programa nuclear e os EUA suspenderão os exercícios militares com a Coreia do Sul. Um acordo que vai ser trabalhado em cima das discussões entre o secretário de Estado Mike Pompeo, que é um general da ala mais reacionária da política norte americana, ex-diretor da CIA e altas autoridades da Coreia do Norte.

Por trás do jogo político há um problema muito maior em que a Coreia do Norte acaba sendo a ponta de lança e que é todo o problema relacionado com a China e a Rússia: a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e o problema das disputas da região do Pacífico da Ásia.

Nesse caso, a disputa é de como que essa unidade coreana vai ser estabelecida, sob o controle de quem? O imperialismo norte americano gostaria de fundir as duas Coreias e de ele mesmo controlar a península coreana contra a China e contra a Rússia. Sem entender essas disputas fica bastante difícil caracterizar o problema simplesmente dizendo que é um ataque contra o Estado operário norte coreano. Qual Estado operário em último caso? Não é o Estado operário norte coreano que importa aos EUA nesse momento porque é pouco representativo. O que importa é a China.

A China tem usado a Coreia do Norte como ponta de lança, por outro lado, para se opor à presença norte americana na região. Não esquecer que os norte americanos têm quase 30 mil soldados na Coreia do Sul, mais 50 mil no Japão, além de muitas bases militares espalhadas pela região. Há alguns meses atrás moveram para lá os chamados sistemas antimísseis de grande altitude THAAD, que possuem radares superpoderosos, com capacidade de 3 mil quilômetros e que, portanto, chegariam até Pequim. Ou seja, é um problema enorme para a segurança chinesa. Essa disputa na região envolve a luta pelo controle do mercado e do sistema político mundial.

O Irã no Novo Caminho da Seda

Deveríamos nos perguntar por que os EUA estão tratando tão suavemente a Coreia do Norte e, por outro lado, apertando tanto o Irã? Por que estão concentrando esforços contra o Irã com a ajuda de Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes? Porque o Irã é um país chave que faz parte da política da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), junto com a China e a Rússia.

Aí reside a grande disputa no Oriente Médio pelo controle geopolítico da região. O Irã faz parte, com um papel importantíssimo, do Novo Caminho da Seda, que é a política chinesa para driblar o controle dos EUA no fornecimento de energia à Europa. Os EUA controlam o estreito de Malaca que fica entre a Malásia e a Indonésia e que na parte principal tem 30 quilômetros de largura e por aí trafegam os porta-aviões norte americanos.

Temos de entender bem essa questão da destruição do Estado operário como parte de uma questão maior, que é a destruição dos avanços da onda de revoluções abertas pela Revolução Bolchevique de 1917. Portanto, é um problema muito maior. Como fazer para que a Rússia e a China se integrem ao mercado mundial vendendo suas empresas públicas, para dar mais um fôlego para o grande capital monopolista? O problema é que a China, apesar de ser uma potência regional, tem muita influência na economia global e que, devido à crise mundial, o bolo está se reduzindo.

O que aconteceu na reunião do chamado G7, realizada no Canadá, deveria ser motivo de uma profunda reflexão. Donald Trump abandonou a reunião das 7 maiores potências e, inclusive, insultou o primeiro-ministro canadense e todos os demais países. Aí não se trata da Coreia do Norte nem do Irã, mas estamos falando do Canadá, da Alemanha, da França. Chegou a chamar o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, de “desonesto e fraco”, quase como se fosse um traidor, etc.

Isso significa que há uma luta, e esse é o ponto principal, para controlar o mercado mundial porque o bolo ficou menor. E, também, que são políticas diversas que os monopólios estão buscando implantar para controlar justamente a queda da taxa de lucro. Isso implica também que, como se trata de um bolo só que está diminuindo, tiram um pedaço da fatia dos aliados.

Disputa inter-imperialista 

A guerra de tarifas contra a China tem a ver com isso e agora se transformou em guerra de tarifas contra a Europa. Aplicando tarifas contra o aço alemão, contra o aço do Japão. Essa crise abriu com nada menos que o Canadá com quem os EUA mantêm um comércio de mais ou menos US$ 600 bilhões por ano.

Portanto, o que nós temos é que os organismos colocados em pé em 1989, no chamado Consenso de Washington, que precisava estabilizar a queda da taxa de lucro de 1974, com a crise mundial do petróleo, esses organismos estão em falência apesar de serem muito turbulentos como a Organização Mundial do Comércio, como a Lei de Responsabilidade Fiscal e várias outros. Isso já não é suficiente para impor a política hegemônica do imperialismo norte americano em escala mundial. Se trata de uma crise generalizada em escala mundial.

Na Itália, por exemplo, essa crise ficou evidente com o resultado das últimas eleições. Na Espanha caiu o primeiro-ministro. Na Inglaterra tem o Brexit, o abandono da União Europeia. A França está numa crise enorme onde Macron, que foi imposto pelas 148 famílias que dominam o mundo, entre essas os Rothschild da qual é descendente, faz um governo muito fraco. A Alemanha está numa situação cada vez mais complexa devido à crise generalizada.

Enquanto a crise no imperialismo se acentua, temos que as potências regionais, especialmente a China e a Rússia, têm se movimentado e têm procurado aumentar a aliança e o controle do mercado mundial. Essa movimentação só pode avançar não por meio de “conversinhas”, mas, em algum momento, essa disputa tem de levar a grandes guerras além das que já existem. Não esquecer que Lenin já caracterizava no livro de 1916 “O Imperialismo Etapa Superior do Capitalismo”, que essa etapa é de enormes crises, guerras, revoluções e contrarrevoluções.

Aconteceu recentemente a reunião de Organização de Cooperação de Xangai, onde Paquistão e China são membros e o Irã está a caminho de se tornar membro. Isso significa que há toda uma situação aí de crise gigantesca entre potências regionais e potências imperialistas, numa situação de enorme disputa pelo mercado mundial.

Houve também o que seria o Davos dos russos onde participaram partes importantes do imperialismo europeu e chinês, que foi a Organização do Fórum Econômico de São Petersburgo e do Fórum Econômico da Organização de Cooperação de Xangai, em cima do Novo Caminho da Seda, que aconteceu em Astana, a capital do Cazaquistão.

Temos uma situação de crise gigantesca geral no mundo, onde as disputas internas entre as potências imperialistas começam a aparecer, o caminho centrípeto, ou seja, que começa a se afastar do controle do imperialismo, se acentua principalmente em cima da aliança China e Rússia e tudo isso está num bolo generalizado do aprofundamento da crise capitalista mundial.

Tudo isso faz parte do aprofundamento da crise, que tende a um novo colapso capitalista mundial que deverá acontecer inevitavelmente no próximo período.

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