Domingo, 22 Abril 2018

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Após a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre querer mudar a embaixada da capital de Israel, Tel Aviv, para Jerusalém, houve um grande descontentamento entre os palestinos e os povos árabes em geral. A pergunta é por que isso não deu lugar a uma grande movimentação de massas, à chamada Terceira Intifada? Intifada é um grande movimento de massas dos palestinos.

A declaração de Trump aconteceu no dia 9 de dezembro, quando fazia 30 anos da primeira Intifada de 1987. O Hamas, que é o grupo palestino ligado à Irmandade Muçulmana que governa a Faixa de Gaza, chamou formalmente à Terceira Intifada. Mas o Hamas está com uma política de contenção e na busca por evitar o confronto aberto com os sionistas israelenses. O chamado à Intifada pelo Hamas ainda seria para acontecer na Cisjordânia, no chamado  Westbank, em inglês, que é governado pela Autoridade Palestina, e em Jerusalém Oriental, e não na Faixa de Gaza onde ele próprio se encontra no poder. Os protestos têm continuado nos últimos dias, mas estão muito longe de terem a intensidade da Primeira e da Segunda Intifada.

O que foi a Primeira Intifada?

A Primeira Intifada estourou em dezembro de 1987 e foi um grande movimento de massas dos palestinos, espontâneo, em primeiro lugar, que atingiu em cheio a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e, em parte, também a região oriental de Jerusalém. Foi uma reação à pressão que os sionistas israelenses e o imperialismo, principalmente o imperialismo norte-americano, tinham colocado contra os palestinos após a Guerra dos Seis Dias, de 1967, onde importantes territórios da Palestina foram tomados pelos sionistas, e depois com a Guerra do Yom Kippur, em 1971, onde os árabes voltaram a ser derrotados.

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A movimentação dos palestinos que começou em 1987 foi um movimento de massas grande, com protestos que além de atirar pedras contra o Exército israelense, aplicou atentados contra alvos militares sionistas. Durou seis anos, até 1993. Somente foi contido pelos chamados acordos de Oslo, que contaram com o apoio da OLP (Organização da Libertação da Palestina), que é a atual Autoridade Palestina, que era a principal organização palestina naquele momento, dirigida por Yasser Arafat, que na época se encontrava no exílio.

A resposta de Israel foi muita truculência militar, na tentativa de contê-la a ferro e fogo. Mas essa política somente jogava mais lenha na fogueira. A contenção aconteceu a partir da política geral do imperialismo que se fortaleceu com a queda do Muro de Berlim, em 1989. As altas doses demagógicas da propaganda do “neoliberalismo” tomou como corpo nos chamados acordos de Oslo, onde se deu alguma autonomia formal aos palestinos por parte dos sionistas como, por exemplo, o autogoverno na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. No fundamental, não foram resolvidos os problemas mais importantes. Mas a Primeira Intifada deixou “sequelas”.

Pouco meses após o estouro da Primeira Intifada, nasceu o Hamas, que é o grupo que hoje controla a Faixa de Gaza. Ele foi criado diretamente pela Irmandade Muçulmana. Esse fato foi fruto do aprofundamento das contradições com os sionistas israelenses. A tentativa de impor a política do “Grande Israel” contra os povos árabes tinha levado à invasão do Líbano, que, por sua vez, levou ao surgimento, em 1980, do Hizbollah, a poderosa milícia libanesa. O Hamas é um movimento sunita e o Hizbollah é um movimento xiita. Este foi criado pelo Irã, à luz da força da Revolução Iraniana que aconteceu em 1979, como produto da crise de 1974. Hoje ambos são estreitos aliados, o que também representa um fator de crise do controle do Oriente Médio por parte do imperialismo.

O que foi a Segunda Intifada?

A Segunda Intifada foi diferente da Primeira. Ela ainda mantinha uma alta dose de espontaneidade popular. Em princípio, estourou pela visita do então primeiro ministro, Ariel Sharon, ao Monte do Templo, em Jerusalém, que é um local sagrado para os palestinos. Dessa vez, as organizações palestinas, como a Autoridade Palestina, o Hamas, a Jihad Islâmica, que é mais ligada ao Irã, e outras desempenaram um papel importante e havia a disputa entre elas. Apareceram técnicas de ataque armados, como os homens bomba, que atingiram civis na chamada Linha Verde dos sionistas israelenses.


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A Segunda Intifada aconteceu no ano 2000, apenas sete anos depois dos acordos de Oslo terem sido assinados. Foi uma amostra de que os palestinos perceberam que não havia ganhos para eles pela via diplomática, que tudo tinha sido controlado pelo imperialismo e pelos sionistas israelenses.

O então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, tentou colocar em pé os acordos de Camp David, com a participação de Yasser Arafat, pela OLP, Ehud Barak, o primeiro ministro israelense e Bill Clinton, em julho de 2000.  Mas não houve avanços. Com a visita de Sharon ao Monte do Templo, em Jerusalém (Al-Aqsa para os árabes), em setembro de 2000, aconteceu a explosão da Segunda Intifada. O número ataques armados e de atentados de homens-bomba aumentou muito e Israel acabou recuando. Desmantelou todos os assentamentos sionistas na Faixa de Gaza. Mas os palestinos continuaram divididos, basicamente, entre o Hamas, que acabou governando a Faixa de Gaza, e a Autoridade Palestina, a Cisjordânia. Os dois territórios se encontram desconectados, um e outro.

As movimentações entre o ano 2000 e 2015

Nesse período, do ano de 2000 até praticamente 2015, houveram grandes manifestações de luta e de confronto dos palestinos, dos quais quatro foram os principais. Apesar da morte de milhares de palestinos, o movimento não avançou nem na Cisjordânia, nem em Jerusalém Oriental e acabou ficando restrito à Faixa de Gaza que foi tornada uma cadeia a céu aberto pelos sionistas israelense.

Em setembro de 2015, houve uma onda importante de confrontos com carros-bomba e atentados em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia mas que não conseguiram avançar, não houve um acúmulo importante. Em julho desse ano, foi a semana onde aconteceram grandes protestos quando a polícia israelense bloqueou a entrada ao Monte do Templo em Jerusalém Oriental, mas, basicamente, eles foram rapidamente controlados.

Por que não aconteceu uma terceira Intifada?

Por que não aconteceu, em cima dessas declarações incendiárias de Donald Trump uma Terceira Intifada? Em outras palavras, se trata da velha pergunta: por que as massas não se levantaram?

Um aspecto é que, ultimamente, o número de protestos não aumentou, inclusive diminuiu. Até houveram mortos, mas não houve um movimento em ascenso. Há a divisão entre Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental e o papel de alta contenção das organizações palestinas, da mesma maneira que isso acontece em todos os aspectos no mundo inteiro. O imperialismo ainda avança com um certo cuidado nos ataques contra as massas, de maneira razoavelmente gradual e não ainda com os métodos de guerra civil.

A incorporação das organizações que representam as massas à chamada "democracia imperialista", que no caso da Palestina poderia se denominar "democracia sionista", é enorme. Em Gaza, a crise é muito grande e a população como um todo está vendo, depois de quase uma década de enorme crise econômica, que uma eventual saída poderia ser a conciliação entre o Hamas e a Autoridade Palestina, que se encontra em andamento, com a promessa de alívio do Egito. A fronteira é totalmente controlada e não há passagens para fora. Nesses dias, por exemplo, o Egito abriu pela primeira vez em muito tempo a fronteira por três dias, o que deu um certo alívio ao fornecimento de produtos etc.


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No caso do Hamas, há uma capitulação grande por causa das limitações da sua política. Chegou a assinar um acordo com a Autoridade Palestina para entrega-lhe o controle do governo e das fronteiras e recentemente há denuncias de que tem prendido e torturados membros de outras organizações na tentativa de evitar que sejam lançados mísseis contra Israel. Mas conforme o Hamas continuar capitulando e conforme a crise não for superada, o que irá acontecer? Obviamente os grupos mais radicais irão se fortalecer e as massas tenderão a se movimentar.

No caso da Cisjordânia, a coordenação do controle da população entre a Autoridade Palestina, liderada por Mahmud Abbas, e os sionistas israelenses é total. No caso de Jerusalém Oriental, a principal reivindicação dos palestinos é pelos mesmos direitos dos israelenses já que eles vivem em Jerusalém sem sequer ter o direito à própria cidadania.

Uma nova Intifada na Cisjordânia elevaria a crise a um grau enorme porque implicaria que a Autoridade Palestina sumiria do mapa. O  ponto fundamental é a base material do controle da Autoridade Palestina. Dezenas de milhares de palestinos vivem como funcionários públicos e para a Autoridade Palestina manter essa situação de controle, ela mantém os acordos com os sionistas israelenses. Foi criado um colchão social de controle na Cisjordânia e, inclusive, o que tem contribuído, em grande medida, a manter os palestinos da Faixa de Gaza totalmente isolados.

Sionistas menos truculentos?

Um ponto fundamental para manter a relativa calmaria é que as manobras de Israel têm acontecido no sentido de ir com um certo cuidado. O exército e a polícia israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental têm tentado atuar com um pouco mais de cuidado, diminuindo o número de assassinatos. A ausência de grandes funerais com manifestações de massas, com mártires etc., tem contribuído para que o sentimento inflamado dos palestinos tenha diminuído no último período.

 

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Israel tem colocado um outro fator de contenção dos palestinos por meio da permissão de 50 mil palestinos da Cisjordânia para trabalhar em Israel. Portanto, somando estes 50 mil palestinos a algumas dezenas de milhares que trabalham como funcionários públicos, foi criado um mecanismo de contenção dos palestinos, mesmo que seja provisório. Pelo menos 50% da população palestina da Cisjordânia se encontra em alguma medida mediatizada e controlada pelos sionistas. Há a ameaça de diminuir o fluxo de recursos para a Autoridade Palestina e, com isso, vários milhões de burocratas deixariam de receber salário, ou proibir os 50 mil trabalhadores palestinos de trabalhar em Israel com a ameaça de importar trabalhadores estrangeiros.

Neste momento, para os palestinos, uma nova Intifada parece ser um preço muito alto a pagar em uma situação em que ainda há uma certa margem de sobrevivência. Mas essa margem tende cada vez mais a diminuir da mesma maneira que a margem geral do capitalismo no mundo tende a diminuir.

Até quando?

Os sionistas pisam em casca de ovos. Qualquer movimentação mais ousada ameaça botar fogo na região, mas a política atual, no contexto mundial, têm conseguido fazer com que a temperatura social tenha aumentado, mas não tenha explodido. O mesmo acontece na América Latina e no mundo a temperatura tem aumentado, mas a panela de pressão ainda não explodiu. Não aparece um sentimento de grande desespero, de ódio mortal contra o regime, a perda de todas as ilusões no governo, no capitalismo e a perda das ilusões nos mecanismos de negociação mais diplomáticos etc. No caso dos palestinos, implica na percepção de que a única saída é o fim do sionismo, o fim da ocupação e a luta por um Estado único na região, onde israelenses, judeus e palestinos, de todas as nacionalidades, consigam viver num único Estado, sob liberdades democráticas que consigam valer para todos. Neste momento, a política dos dois Estados é uma política que só interessa aos sionistas israelenses, à monarquia ultra obscurantista saudita e ao imperialismo norte-americano porque quem controla a situação nas finanças, na distribuição dos tributos e no controle militar, naval, aéreo etc., são os sionistas israelenses. E ainda 85% dos territórios são controlados pelos sionistas. A força maior está nas mãos dos sionistas, os aparatos de Estado nas mãos dos sionistas e o capital nas mãos dos sionistas. Então, é impossível nessas condições, se falar em dois Estados como solução para o problema palestino.

Para o próximo período, o aprofundamento da crise capitalista mundial só pode e tende a aumentar. Isso irá colocar em movimento novamente a classe operária mundial. O papel dos revolucionários é se agrupar, elaborar a política para o movimento de massas, não para trabalhar entre 4 ou 5 amigos, como seitas. E divulgá-la por meio de uma imprensa operária independente, por meio de um jornal político central, dos boletins etc. Isso é o que nós do Gazeta Revolucionária estamos buscando fazer.

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