Segunda, 24 Setembro 2018

Por: Alan Ribeiro e Alejandro Acosta

curdos luta

O imperialismo norte-americano se viu enfraquecido durante o governo Obama e perante a impossibilidade de repetir a política que tinha sido aplicada com sucesso no caso da invasão do Iraque em 2003 e da Líbia em 2011, se voltou a buscar uma saída com os “aliados não tradicionais”, a Rússia e o Irã. Esta política escalou as contradições com os aliados tradicionais, principalmente os sionistas israelenses e a obscurantista monarquia saudita. A tentativa fracassada de se fortalecer por meio da derrubada do governo turco encabeçado por Ergodan, enfraqueceu ainda mais o imperialismo que viu os turcos, que são membros da OTAN (Organização do Atlântico Norte), se aproximarem da Rússia, que representa o principal pivô do chamado Novo Caminho da Seda chinês no sentido de integrar a Europa.

Na década de 1980, a esquerda mundial se defrontou com a agressiva política neoliberal que escalou após a queda do Muro de Berlim em 1989. Praticamente toda a esquerda acabou se integrando a essa política, em diversos graus.

A luta nacionalista dos curdos ficou na encruzilha da pressão das potências regionais e imperialistas que passaram a disputar o controle da região, principalmente por meio de grupos guerrilheiros que foram impulsionados como intermediários.

Com a derrota dos grupos guerrilheiros muçulmanos que atuavam como intermediários do imperialismo e com a impossibilidade de entrar numa nova aventura de invadir diretamente a região, os Estados Unidos miraram o movimento curdo com o objetivo de torná-lo uma ponta de lança para manter o controle da região. Várias bases militares norte-americanas foram instaladas em Rojava (o Curdistão Sírio), proliferam os “assessores militares” que, conforme sempre aconteceu, têm como objetivo impor a política do imperialismo. O Curdistão Iraquiano, sob o qual, em boa medida, os curdos turcos e sírios acabam se colocando numa capitulação vergonhosa, se transformou num instrumento dos norte-americanos e dos sionistas israelenses.

Os marxistas, como representantes dos interesses do proletariado revolucionário, reconhecemos o direito à autodeterminação dos povos. Mas isso não significa que devemos incentivar a divisão entre os povos e, principalmente, deixá-los à mercê das manobras do imperialismo. A nossa política para os povos do Oriente Médio é pela Federação das Repúblicas Socialistas do Oriente Médio, que implica numa enorme autonomia nacional sob a base do internacionalismo proletário.

O aumento da agressividade do imperialismo

 

Com o aperto da crise capitalista no início da década passada, o imperialismo, principalmente o imperialismo norte-americano, apertou a política de expansão do controle direto dos recursos naturais do Oriente Médio, do Cáucaso e da Ásia. Essa política se tornou ainda mais agressiva após os atentados de 11 de setembro de 2001, com a invasão ao Iraque e ao Afeganistão. Era a aplicação da política de 2001 denominada pelo Pentágono Full Spectrum Dominance (ou domínio geral do espectro mundial, por terra, água, ar espaço e ciber-espaço). A cereja do bolo desta política era controlar diretamente as potências regionais que acabaram se fortalecendo em cima do fracasso dessa política na década passada, com as derrotas nas guerras do Afeganistão e do Iraque que acabaram acelerando o colapso capitalista de 2008.

Por meio da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), o imperialismo aperta a Rússia a partir das regiões naturais de influência, que vai desde os Países Bálticos até a Turquia, cercando-a dentro de suas fronteiras e ainda aumentando a ameaça nuclear, conforme ficou claro a partir do golpe de estado fascista na Ucrânia de 2013 que deixava os mísseis nucleares imperialistas a apenas 400 quilômetros de Moscou. Os russos reagiram apoiando o separatismo das minorias russas, ou pró russas, no leste na Ucrânia, na Crimeia, na Transnítria (leste da Moldávia), nas regiões separatistas da Armênia e da Geórgia.

Na Síria, o imperialismo, as monarquias do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico), encabeçada pela obscurantista monarquia da Arábia Saudita, e os sionistas israelenses buscaram esquartejar o País com o objetivo de controlar a passagem de corredores dos dutos de gás e oleodutos sem passar pela Rússia, principalmente os provenientes do Turcomenistão e do Catar, para abastecer a Europa. Com esse objetivo, o controle da Euro-Ásia tem de ser absoluto, o que aumenta as contradições com a Rússia, que se vê obrigada, como potência regional, a fortalecer a sua política defensiva.

Essa política imperialista é uma continuidade da política colocada em pé na década de 1980 pelo todo-poderoso ex Secretário do Departamento de Estado Henry Kissinger e o Conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski, que se valeram das chamadas “revoluções coloridas” para aplica-la, incentivando o separatismo na região, da mesma maneira que os imperialistas franceses e ingleses a tinham aplicado nos séculos anteriores.

Um componente central da política do imperialismo norte-americano, passa pela tentativa de implodir o fortalecimento da aliança entre a China e a Rússia, que é um produto da crise do imperialismo que se abriu em 2008, e que tem como componente uma ameaça ainda maior que é a aproximação com a Europa Ocidental, em primeiro lugar, a Alemanha. Estes e outros países, como o Irã que é um componente fundamental desta política sino-russa, buscam negociar o petróleo e o gás por fora da ditadura do dólar.

Desde a queda do Império Otomano, a luta pelo direito à autodeterminação do povo curdo tem sido usado e manipulado pelos interesses das potências imperialistas. A questão da auto determinação dos povos tem que ser avaliada na atual etapa política, sob as ameaças impostas pelo imperialismo visto que tem impulsionado tais tendências às minorias étnicas, religiosas etc., com o objetivo de potencializar sua política do “caos”, separatismo e “balcanização” de países e regiões, para levar adiante a versão moderna da espoliação imperialista.

Nós, marxistas, reconhecemos o direito à autodeterminação dos povos, mas não o incentivamos. Nós denunciamos as manobras da burguesia e chamamos à unidade da classe operária, inclusive mundial. Temos de aplicar o método da Revolução Permanente.

 

Sobre o oportunismo nas fileiras militantes curdas

Os combates para a tomada de Raqqa, a dita capital do Estado Islâmico, foram travados principalmente pelo SDF (as chamadas Forças Democráticas Sírias, integradas principalmente pelos curdos, mas que tem o imperialismo norte-americano por trás), viram a brutalidade dos bombardeios da aviação norte-americana que tiveram como objetivo mostrar uma política de força. Os assessores norte-americanos chegaram a impor ao PYD (Partido de União Democrática sírio) a retirada dos símbolos de Ocalan (o principal líder curdo, preso desde 1999) em Raqqa.

O movimento das massas curdas que possibilitaram a tomada de Kobane e até o Curdistão autônomo se vêm, desta maneira, cooptados pelos interesses do imperialismo.

O PKK (Partido dos Trabalhadores na Turquia) e o PYD (da Síria) conseguiram manter a luta nacionalista dos curdos, mas, como praticamente toda a esquerda, aderiram a ideologias reformistas e pós modernas, impulsionadas pela pressão do imperialismo. Isso aconteceu independentemente de entenderem o papel contrarrevolucionário do imperialismo. De uma ideologia “marxista leninista”, calcada em cima do modelo estalinista da União Soviética, passaram a praticar um pseudo anarquismo, mas na prática o que se fez, em vez de um anarquismo (com autogestão excessivamente descentralizada) foi um pseudo “marxismo de conselho” (autogestão centralizada), onde os conselhos populares foram burocratizados, e contam com o apoio do imperialismo. Essa experiência mostrou os perigos da luta revolucionária quando a direção se encontra nas mãos de grupos oportunistas, principalmente quando eles são influenciados pelo nacionalismo burguês. Como a luta política é real, um fenômeno material, a evolução natural é na direção de quem materialmente detém o controle dessa força material que, no presente, apesar das contradições e fraquezas é o imperialismo.

O imperialismo norte-americano fracassou na política de 2011 de controlar o Iraque, o Irã e o Afeganistão, e não conseguiu balcanizar a Síria, esquartejá-la em pedaços menores para controlar o petróleo e o gás. Agora manobra com os curdos na tentativa de manter e expandir as bases militares no Rojava para usá-lo como mais uma ponta de lança contra os povos árabes, da mesma maneira que acontece com Israel e, em grande medida, com o Curdistão Iraquiano.

Os curdos, que lutam pelo legítimo direito à autodeterminação, pelo direto a ter o próprio estado nacional, acabam sendo usados como “carne de canhão” a serviço de uma política muito reacionária a serviço do imperialismo decadente, no Oriente Médio.

Sobre o referendo de independência no Curdistão Iraquiano

Em abril de 2017, os dois maiores partidos curdos iraquianos acordaram a criação de uma comissão conjunta para impulsionar um referendo de independência na região, que foi realizado em 25 de setembro. Como resultado o governo de Iraque, Irã e Turquia juntaram suas forças e em 16 de Outubro invadiram a cidade de Kirkut controlada pelo curdos do PKK , peshermergas e o PUK  (fruto das vitorias dos curdos contra o Estado Islâmico no Iraque) . No mesmo dia, os curdos bateram em retirada. A desmoralização acabou provocando dissidências entre partes dos peshermegas, o PUK e os curdos do Iraque. O aumento das contradições e a impossibilidade de fechá-las em cima da política do nacionalismo burguês, que se encontra a reboque do imperialismo, revela que a verdadeira solução dos problemas nacionais somente será possível em cima da política operária revolucionária, que está ligada à luta contra o capitalismo, pela revolução socialista.

mulheres curdas

Os curdos na atual situação de aprofundamento da crise política, como reflexo da crise econômica, aparecem como um povo traído pela luta desesperadas das potências imperialistas e regionais de se salvar da crise mantendo o controle do Oriente Médio, e também pelas limitações inerentes ao nacionalismo burguês na atual etapa de decomposição do regime burguês de conjunto e em escala mundial. Os movimentos de massas também têm sido sufocados pelas traições da esquerda mundial.

Os revolucionários devem denunciar todas as capitulações das direções curdas ao imperialismo, em primeiro lugar, assim como denunciar as claras limitações do nacionalismo burguês na etapa de decadência imperialista. As denúncias devem ser extensivas às políticas e ideologias pós moderna e à esquerda integrada ao neoliberalismo, como instrumentos a serviço do grande capital e como inimigos mortais dos interesses dos trabalhadores e das minorias nacionais.

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