Quarta, 24 Outubro 2018

crisismundi

Quando analisamos a crise no Brasil é muito importante que lembremos, por incrível que pareça, que o Brasil se encontra no planeta Terra e que o aprofundamento da crise mundial se reflete no aprofundamento da crise brasileira. Porque o país está interligado no mercado mundial, seja pelas exportações para a China, Estados Unidos, Europa, Argentina, etc., seja pelos investimentos estrangeiros, na maior parte especulação financeira com um alto grau de espoliação do país. E principalmente por uma coisa que a esquerda já não mais menciona há muito tempo, que o Brasil é parte do quintal traseiro do imperialismo norte-americano.

A queda na taxa de lucros está na base da crise mundial

O grande capital corresponde às 150 famílias que controlam o mundo através de 28 grandes grupos financeiros como o City Group, o Alpha Group da família real britânica e outros. Esses 28 grandes grupos financeiros controlam as 1100 maiores empresas do mundo que, por sua vez, controlam as 30 mil grandes empresas mundiais. Portanto controlam o mundo, conforme estudo realizado pelo Instituto Federal de Zurique, Suíça, publicado na internet em 2011.

Para a esquerda não existe imperialismo, não existe o grande capital, não existe queda da taxa de lucros, não existe nada. Existe salvar os próprios cargos e privilégios. E o que nós estamos vendo, que é o mais importante e o mais grave na análise mundial, é que há uma diminuição da riqueza socialmente produzida e há uma disputa para, justamente, se salvar da crise. A queda da taxa de lucros mundial tinha caído entre 2012 e 2017, 25%, conforme publicado em janeiro de 2017 na revista The Economist, um dos porta-vozes oficial do capital financeiro mundial, e continua caindo. No Brasil a queda se deu nos últimos dois anos e foi de 30%.

Essa disputa tem como forma de expressão principal a guerra de tarifas entre os Estados Unidos e a China, mas não somente entre esses dois países, pois se estende também para a Europa e Japão. Há uma guerra entre todas as nações, devido aos acordos entre os principais países, porque o sistema capitalista mundial é um sistema que busca os lucros. Se a riqueza social diminui é óbvio que vai haver uma luta para salvar esses lucros.

Essa luta está levando a cada vez mais guerras comerciais que acabam originando guerras políticas. Essas sanções dos Estados Unidos contra a Rússia, contra o Irã, contra a Coreia do Norte, contra a China, contra a Turquia, contra a Europa; em cima do aço, do alumínio, dos automóveis e de uma série de outras coisas, acabam levando à reformulação dos blocos mundiais de maneira muito clara.

A China e a Rússia buscam espaço no mercado mundial

A aproximação da China com a Rússia é um fenômeno novo que se dá a partir da crise de 2008. Antes disso havia grandes contradições entre os dois países a partir da ruptura devido à Revolução Cultural de Mao Tsé Tung, que aumentou a tensão ao longo dos 4380 km da fronteira comum e onde ocorreu um confronto militar em 1969 em que ambos os lados se prepararam para uma guerra nuclear.

 Com a visita de Richard Nixon à China em 1972, em que este adotou uma postura de neutralidade em caso de guerra, a controvérsia foi suspensa, mas não resolvida até que, em 1991 após a queda da União Soviética e a assinatura de um acordo sino-soviético de fronteiras, houve uma aproximação dos dois países.

Isso perdurou até a crise capitalista mundial de 2008 que acabou levando a China a adotar duas políticas principais que estão na base dessas contradições e que são "O Novo Caminho da Seda" e a política "Made in China 2025".

Significa que a China cresceu muito como potência regional, mas ainda não é uma potência imperialista porque não domina o mercado mundial e se encontra em processo de transição para atingir essa meta, o que preocupa muito o imperialismo mundial europeu, japonês e, principalmente, norte-americano. A guerra de tarifas tem a ver com essa situação.

O plano "Made in China 2025"

A política chamada "Made in China 2025" implica em passar o controle dos setores manufatureiros de média tecnologia para a alta tecnologia, o que significa ultrapassar a competência do imperialismo nos setores de ponta que fazem parte do controle do mundo.

A China está passando a dominar a robótica em larga escala, desenvolvendo a bioquímica, desenvolvendo a química fina, desenvolvendo alta tecnologia para construção em terreno pantanoso para a via do trem-bala entre Pequim e Tibet, algo que nunca tinha sido feito antes. Está investindo muito no 5G que é tecnologia de celulares e isto levou os Estados Unidos aos ataques contra a ZTE e a Huawei  que são duas grandes empresas de tecnologia de telecomunicações.

A China comprou toda uma série de empresas de alta tecnologia na Europa. Comprou da Alemanha a empresa de alta tecnologia em robótica KUKA, extremamente importante. Muitos “startups” em Israel que, se os Estados Unidos barram, começam a criar problemas internos. Várias "startups" nos próprios Estados Unidos e assim sucessivamente.

Em cima dessa questão do deslanche da China como potência imperialista temos o Novo Caminho da Seda que é o fortalecimento das vias de fornecimento de mercadorias para a Europa, por meio do trem-bala, das vias marítimas, da via do oceano Ártico, etc.

Escalada militar

A Rússia é uma potência que também se encontra participando dessa negociação. Temos então, o aumento da pressão militar por meio da OTAN, por meio do armamento militar americano que já está em mais de 50% da região Ásia-Pacífico, etc.

Há toda uma luta porque são vários jogadores disputando. Isso levou os Estados Unidos a aumentarem as tarifas para os produtos chineses em cima de toda uma série de questões. Além dos chineses terem respondido com contratarifas sobre automóveis, sobre soja, sobre milho, etc. Ainda, uma coisa que tem passado quase que despercebida é que o Yuane foi desvalorizado em 8%. Isso compensa o movimento dessa questão da pressão tarifária. A Rússia está abandonando o dólar e a China também, em grande medida.

A China está pressionando outros países como, por exemplo, o Paquistão, onde apoiou Imran Khan, que foi eleito com a campanha anticorrupção, desbancando famílias tradicionais como a de Benazir Bhutto. Está investindo quase US$ 60 milhões para transportar gás a partir do porto paquistanez de Gwadar ,na fronteira com o Irã, para levar gás e outros produtos energéticos para a China, driblando o gargalo do Estreito de Malacca que fica entre a Indonésia e a Malásia.

Essas contradições todas se refletem cada vez mais nos armamentos militares. Isso explica o amplo investimento na tecnologia de mísseis em parceria da China e da Rússia. A China desenvolveu um novo submarino, um grande porta-aviões com tecnologia nacional e, principalmente, está fortalecendo as bases militares no exterior como já acontece em Djibouti onde construiu sua única base naval no continente africano, e que a partir daí, controla a entrada do canal de Suez para o mar Vermelho.

Expansão da influência chinesa e russa

Por meio do Irã controla o Estreito de Ormuz onde trafegam 30 por cento do petróleo mundial. Tem bases importantíssimas no Sri Lanka, nas barbas da Índia, no Miamnar, e na Grécia.  Tem uma grande influência sobre a Malásia apesar de que o novo ministro Mahathir Mohamad, esse personagem de 92 anos, que foi eleito em cima da campanha contra a corrupção do governo anterior e contra a influência exagerada da China, tem a tarefa de renegociar os acordos entre os dois países.

A influência chinesa na região é grande, e os Estados Unidos tentam manobrar aumentando a pressão sobre a Coreia do Norte para que se una com a Coreia do Sul, contrapondo essa Coreia unificada à China. Esse foi o motivo da construção dos mísseis Thaad de grande altitude, que de fato não era contra a Coreia, mas contra a China e a Rússia porque, sob o comando de satélites, têm um raio de abrangência de 3 mil quilômetros.

Temos aqui o aumento das contradições mundiais que se expressam de várias maneiras e, lembrando Clauzewitz, o grande estrategista alemão da época de Bismark, dizemos que "a guerra é simplesmente a expressão da política por outros meios".

Lembrando Lenin em 1916 no seu célebre livro "Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo", que a época de domínio do grande capital e dos monopólios é uma época de guerras pelo controle do mercado mundial que leva a revoluções e contrarrevoluções.

O recente acordo parcial do mar Cáspio, que tem grandes reservas de petróleo e de gás, entre Rússia, Azerbaijão, Irã, Turcomenistão e Cazaquistão, mostra que quem controla esse mar de enorme importância são esses cinco países, com uma soberania de 15 milhas náuticas, 25 milhas para pesca e o restante é do controle desses países que deixa de fora o imperialismo.

Esses países fazem parte da União Euro-Asiática em cima da influência do Novo Caminho da Seda chinês que tem por trás o Made in China 2025.

A crise atinge em cheio a América Latina

Por último, sobre a América Latina. Essa crise atual na Turquia, desvalorização da lira, contas que não fecham, pressão das agências reguladoras, etc., é a mesma crise que acontece na Argentina, para a qual o Fundo Monetário Internacional (FMI) deu um empréstimo de 50 bilhões de dólares e agora encontra-se neste país para cobrar a fatura, desfechando grandes ataques contra os trabalhadores.

O que acontece na Turquia e na Argentina não está muito longe do que acontece no Brasil, que tem uma crise monumental. As finanças públicas implodem e o imperialismo vai apresentar a conta também para fechá-las. Em grande medida a ajuda do imperialismo está direcionada para manter a espoliação financeira no Brasil.

Aqui temos a principal tese. No sistema globalizado do capital mundial, o imperialismo, o grande capital, será obrigado a aprofundar as contradições com os demais imperialismos, com as potências regionais, com os chamados “países emergentes” e com as demais semicolônias para jogar a conta nas costas dos trabalhadores.

Essa crise se expressa de diversas maneiras, inclusive recentemente foi assinado o Foreign Investiments Risc Review Modernization Act (FIRRMA) pelo governo Trump, que seria o controle dos investimentos estrangeiros nos Estados Unidos, principalmente os chineses, para que estes não avancem na compra de empresas estratégicas norte-americanas. A ideia do livre comércio, da liberdade da propriedade privada, é tudo mentira. Não tem liberdade nenhuma, é tudo controlado em todos os países e está-se impedindo a expansão chinesa.

A classe operária se levantará para resistir aos ataques do capital

Toda essa disputa leva ao surgimento de pontos de incêndio. Estourou na Turquia hoje, estourou ontem na Argentina. Estourou no Oriente Médio. Em qualquer momento estoura no Brasil, na Venezuela, no México. Estoura em qualquer país da Europa como a Grécia, novamente. Se controla uma crise aqui, se controla outra lá. Mas para apagar esses incêndios se gasta recursos. 

Cada vez mais a situação se complica e cada vez mais o mundo está se direcionando para uma grande explosão, e o imperialismo cada vez mais vai ser obrigado a passar a conta para os trabalhadores pagarem. Essa política do “sapo”, de passar a conta gradualmente, vai ficar cada vez mais difícil. O imperialismo terá que promover guerras cada vez de maiores dimensões e passará a conta aos trabalhadores de todo o planeta.

Esse ataque do capital está na base da mobilização operária! A mobilização independente da classe tende a colocar em pé novas direções revolucionárias, que se enfrentarão com essa esquerda contrarrevolucionária que hoje controla os aparatos sindicais. O imperialismo vai tentar implodir a organização e a mobilização operária por meio de movimentos fascistas a partir das camadas médias da população desesperada pela crise. É a luta que sempre foi colocada, pelo menos, nos últimos 130 anos, entre a revolução e a contrarrevolução.

Temos que acompanhar a dinâmica desse processo. Com a economia decadente, o imperialismo vai ser obrigado a fascistizar a sociedade para ir à guerra em maior escala. E a classe operária, em uma economia cada vez mais arrebentada e tendo de pagar a conta, vai ficar numa situação em que será obrigada a lutar porque, se bem que o fascismo pode ser uma solução do ponto de vista da burguesia durante um período, isso exacerba todas as contradições sociais em escala mundial.

Seja como for, o que está colocado para o próximo período são grandes desestabilizações, grandes crises, grandes guerras em escala mundial, a contrarrevolução atuando e dando vazão à revolução.

A defesa de Lula não exclui a crítica da política de conciliação de classes do PT

No Brasil, o papel dos revolucionários não pode ser focar 80% dos esforços na liberdade de Lula, na candidatura do PT, etc. Lula tem de ser libertado com certeza, tem de ter essa campanha em 20%. Tem de ter também a campanha pela candidatura de Lula em 20%, mas 80% do esforço tem de ser para organizar a mobilização dos trabalhadores, na medida das nossas forças, contra o golpe, contra todos os ataques. 

Nesse processo não podemos nos abster de promover as denúncias necessárias, inclusive, da política contrarrevolucionária de Lula. Política esta de fazer acordos com o imperialismo e com a direita, desviando tudo para a via eleitoral, sendo que o imperialismo está jogando em outro campo, que é a luta contrarrevolucionária fora do parlamento, fora das eleições, com a pressão do Judiciário, com a pressão dos militares, etc. Temos de jogar no campo correto, que é o dos trabalhadores mobilizados na rua.

Como a esquerda que controla os organismos de organização da classe é cada vez mais cretina, mais contrarrevolucionária e mais parlamentarista, enquanto que o imperialismo joga por fora do parlamento, temos de jogar dentro de nossas limitações com a propaganda e a agitação política.

Quando a classe operária começar a se movimentar precisaremos ajudar na sua organização em escala mundial, inclusive. Está colocado para o próximo período a luta aberta entre a classe operária mundial e a burguesia mundial.

Nacional

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