Quarta, 18 Julho 2018

Market Data (18)

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Vivamus quis nisl magna. Duis ultricies fringilla tellus et malesuada. Fusce id justo id erat pellentesque cursus. Sed dignissim urna quis arcu dictum quis venenatis orci bibendum. Phasellus sollicitudin urna nec dolor consequat et volutpat ante ullamcorper.

ornitorrinco

Seria importante, neste momento, que a esquerda pudesse evitar fazer a repetição da história como tragédia, as lições do golpe de estado na França em 1851 tão bem descrito por Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, seria uma ótima leitura para tal. O que temos encontrado são elaborações obscuras que não trabalham com as contradições do real, ora exagera nas forças da burguesia, do imperialismo, da direita, ora exagera na paralisia e refluxo do movimento operário ou no seu ascenso. Existem enormes contradições que se aprofundam conforme aprofunda a crise do capitalismo principalmente no centro do imperialismo e das principais potências mundiais. Existe uma tendência principal que é a de endurecimento dos regimes políticos no mundo inteiro para impor governos capazes de infligir a retirada de direitos dos trabalhadores e impor o crescimento da mais-valia absoluta para repor ou estabilizar a taxa de lucros. Muitas explicações se perdem nas firulas da superestrutura e perdem a noção de predominância da infraestrutura econômica e o ponto de vista da totalidade. Por outra parte isso não pode deixar que percamos a compreensão da luta de classes como intermediação entre as determinações da infraestrutura sobre as formas de pensar.

As eleições são a saída para a classe operária? A eleição de outubro em particular é a saída pra o Brasil? Essa é uma eleição diferente de todas que aconteceram na história do Brasil, ela é bastante atípica. Ela acontece em um processo de golpe de Estado, que se iniciou antes da derrubada de Dilma Rousseff sob o argumento das pedaladas fiscais. A “normalidade” da democracia burguesa foi rompida, passando por vários fatos irregulares até a prisão do ex-presidente Lula que era o principal candidato das eleições de outubro, estando a frente de todas as pesquisas.

Há um processo de avanço do golpe, ao qual o próprio Partido dos Trabalhadores (PT) está envolvido, não apenas como vítima, mas também como ator coadjuvante, dentro de um planejamento em que passa a incluir as eleições como forma de justificar o golpismo, em um processo completamente controlado pela direita, em última instância pelo imperialismo, que vai descartando todos os candidatos que não combinam de forma completamente adequada com os interesses imediatos dos grandes monopólios, até que sobre aquele que toda a máquina eleitoral possa investir.

No Prólogo ao O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Hebert Marcuse coloca a necessidade de justificar o golpismo nestes termos: “O Estado autoritário necessita de uma base democrática de massas; o líder deve ser eleito pelo povo, e ele o é. O direito ao sufrágio universal, que a burguesia nega de facto e depois também de iure, torna-se a arma do Poder Executivo autoritário contra os grupos renitentes da burguesia”.

Neste texto, Marx mostra como naquele momento os partidos socialistas, dirigidos pela pequena burguesia escolhem a via eleitoral para consolidarem o golpe: “O caráter peculiar da social-democracia se resumia aos seguintes termos: reivindicavam-se instituições republicanas democráticas, não como meio de suprimir dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas como meio de atenuar a sua contradição e transformá-la em harmonia. Quaisquer que sejam as medidas propostas para alcançar esse propósito, por mais que ele seja ornado com concepções mais ou menos revolucionárias, o teor permanece o mesmo. Esse teor é a modificação da sociedade pela via democrática, desde que seja uma modificação dentro dos limites da pequena-burguesia. Basta não cultivar a ideia estreita de que a pequena-burguesia tenha pretendido, por princípio, impor um interesse egoísta de classe. A social-democracia acredita, antes, que as condições específicas da sua libertação constituem as condições gerais, as únicas nas quais a sociedade moderna pode ser salva e a luta de classes evitada”.

A escolha da social democracia

O movimento socialista, aquele mais identificado com a Segunda Internacional e com Eduard Bernstein, na Alemanha, fez uma opção estratégica pelo reformismo e por participar do jogo eleitoral como possibilidade de se obter ganhos para a classe trabalhadora num processo que julgavam que o capitalismo ainda não estaria maduro o suficiente para ser destruído, ou seja, que era possível fazer reformas e torná-lo de uma certa forma mais humano. Para Bernstein o único caminho possível ao socialismo seria as reformas através da via parlamentar, pela via pacífica, a democracia para ele teria valor universal na medida em que ela atingiria todas as classes. Rosa Luxemburgo responde com vigor às fontes liberais de Bernstein em Reforma ou Revolução?, escrito em 1889: A revolução é o ato fundador da história de classes, a legislação é a continuidade do vegetarismo político da sociedade. O trabalho da reforma legal não tem, em si, uma força motriz própria, independentemente da revolução; em cada período histórico ele apenas se movimenta sobre a linha, e pelo tempo em que permanece o efeito do pontapé que lhe foi dado na última resolução ou, dito de maneira concreta, apenas no quadro da forma social que foi colocada no mundo pela última transformação. (...) Uma revolução social e uma reforma legal não são fatores diferentes por sua duração, mas pela sua essência (Luxemburgo, 2011, vol. 1, p. 68-69).

 Do ponto de vista do reformismo a busca da evolução a partir da matriz liberal não se constituiu em um erro já que a opção feita se coadunava com as realizações, principalmente dentro dos países imperialistas, com a estratégia de se chegar ao socialismo pela conquista do Estado pela via eleitoral. Mas não se trataria simplesmente disso, segundo Kautsky o socialismo seria uma consequência inevitável (natural) do desenvolvimento do capitalismo. Essa postura da social democracia e do reformismo em geral ajuda a explicar, se não é a chave, para a recuperação do capitalismo depois de crises profundas. Dessa conjectura busca-se ou espera-se alcançar o socialismo através das instituições existentes, faz-se alianças com a classe burguesa ou com algumas de suas frações e põe-se todo o peso nas reformas. Esqueceram que as reformas não são cumulativas nem irreversíveis? Uma condição ainda mais desoladora é aquela em que, ao optar pela via eleitoral, a social democracia ficou incapaz de organizar a classe trabalhadora, criando o embuste de que a luta pelo socialismo poderia causar desinvestimentos e perdas para os trabalhadores sob o risco de que os objetivos pudessem não ser alcançados.

A social democracia diante da possibilidade de participar ou não da via eleitoral, escolheu participar, sob o cálculo de que não paralisaria a atividade política revolucionária. O resultado tem sido até agora catastrófico, sob o pretexto de melhorar a vida dos operários a burocracia dirigente mudou seu modo de vida e não pensou noutra coisa a não ser nos seus próprios interesses que coincidiam cada vez mais com os interesses burgueses.

Participar das eleições nunca foi um bicho de sete cabeças para os revolucionários, a solução resume-se a uma operação simples, enquanto a burguesia organiza as eleições para legitimar o seu poder político e econômico, os socialistas deveriam aproveitar a oportunidade para fazer propaganda e agitação sobre o programa revolucionário. Se possível eleger parlamentares para denunciar o sistema, nunca para governar o Estado burguês, sem ilusões nas possibilidades de estabelecer um novo sistema social e modo de produção pela via eleitoral, pois a classe dominante, caso os socialistas conseguissem maioria, não respeitaria as regras do jogo e usaria a força das armas. É isso, mas não é só isso, a questão central está na concepção que se tem sobre o Estado, sobre a própria democracia e sobre o socialismo. O Estado capitalista deve ser destruído ou reformado? A democracia tem valor universal ou é a ditadura de uma minoria, a burguesia sobre os trabalhadores? O socialismo será uma consequência natural do liberalismo ou se estabelecerá por meio de uma revolução violenta que expropriará a propriedade privada dos meios de produção?

Lênin, em Esquerdismo: doença infantil do comunismo, prevendo um avanço do ultraesquerdismo, negando a importância das reformas, o que iria de encontro às teses anarquistas, escreve: “Vosso dever consiste em não descer ao nível das massas, ao nível dos setores atrasados da classe. Isso não se discute. Tendes a obrigação de dizer-lhes a amarga verdade: dizer-lhes que seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares não passam disso: preconceitos. Ao mesmo tempo, porém, deveis observar com serenidade o estado real de consciência e de preparo de toda a classe (e não apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e não apenas de seus elementos avançados)”. Logo em seguida completa Lênin, para ficar bem entendido, ele está escrevendo em 1920:  “...poderíamos assegurar sem, vacilar que o parlamentarismo na Alemanha ainda não caducou politicamente, que a participação nas eleições parlamentares e na luta através da tribuna parlamentar são obrigatórias para o partido do proletariado revolucionário, precisamente para educar os setores atrasados de sua classe, precisamente para despertar e instruir a massa aldeã inculta, oprimida e ignorante. Enquanto não tenhais força para dissolver o parlamento burguês e qualquer outra organização reacionária, vossa obrigação é atuar no seio dessas instituições, precisamente porque ainda há nelas operários embrutecidos pelo clero e pela vida nos rincões: mais afastados do campo. Do contrário, correi o risco de vos converter em simples charlatães”.

A posição de Lênin é clara e cristalina, os revolucionários devem participar das eleições para denunciar a farsa da democracia burguesa. É impossível a tomada do poder por meio das eleições. O ultraesquerdismo é essencialmente uma atitude de intelectuais pequenos burgueses que acham que sua vontade pode se impor enquanto realidade objetiva. Os revolucionários deveriam destruir as ilusões criadas pelas eleições na classe trabalhadora, a melhor forma de fazer isso seria participando delas. Mas suponhamos, coisa que nunca aconteceu, que os revolucionários tivessem uma esmagadora vitória eleitoral, a burguesia respeitaria a sua própria ordem democrática? A burguesia não tomaria outros caminhos para manter o poder e seus interesses? Foi o que aconteceu em 1851 na França como descrito por Marx, é o que aconteceu várias na história em todos os lugares do mundo onde quer que os interesses da burguesia foram minimamente ameaçados. Na América Latina tivemos mais períodos de ditaduras que de “democracia”.  Para Lênin a participação nas eleições era sobretudo uma questão tática. Estratégico era a tomada do poder pelo proletariado.

Os socialistas alemães entraram, a princípio, na política eleitoral com escrúpulos, para usá-la como propaganda, tal como Marx havia colocado em 1850 em A luta de classes na França: “E se o direito de voto universal não tivesse proporcionado nenhum outro ganho além de permitir-nos contar todos a cada três anos; de, junto com o aumento regularmente constatado e inesperadamente rápido do número de votos, aumentar na mesma proporção a certeza da vitória dos trabalhadores assim como o susto dos adversários, e assim tornar-se o nosso melhor meio de propaganda; de instruir-nos com exatidão sobre as nossas próprias forças, assim como sobre as de todos os partidos adversários, e de, por essa via, fornecemos um parâmetro inigualável para dar à nossa ação a proporção correta – preservar-nos tanto do temor inoportuno quanto do destemor inoportuno –, se esse fosse o único ganho que tivéssemos obtido do direito de voto, já teria valido a pena. Mas ele trouxe muito mais que isso. Durante a campanha eleitoral, ele nos forneceu um meio sem igual para entrar em contato com as massas populares onde elas ainda estão distantes de nós e obrigar todos os partidos a defender-se diante de todo o povo dos nossos ataques às suas opiniões e ações; e, além disso, ele colocou à disposição dos nossos representantes uma tribuna no Parlamento, do alto da qual podiam dirigir a palavra tanto a seus adversários no Parlamento como às massas do lado de fora com muito mais autoridade e liberdade do que quando falam para a imprensa ou em reuniões”. A abstenção nunca esteve de fato colocada como opção viável para os partidos socialistas porque, de fato, sempre foi uma oportunidade para se tirar proveito para divulgar o programa revolucionário, fazer propaganda e agitação. A participação em governos da burguesia foi no final do século XIX e início do século XX alvo de intenso debate dos mais polêmicos, como foi o caso da formação do primeiro governo trabalhista na Inglaterra, em 1924, e foi abonada sob o pretexto para adquirir experiência para o socialismo. 

“Cretinismo parlamentar”

No caso do Partido dos Trabalhadores, no Brasil, faz tempo que deixou completamente a campanha contra o golpe, simplesmente agem como se não estivéssemos em meio ao golpismo ou em um Estado de exceção, mesmo com Lula preso. Estão em plena campanha eleitoral como se nada estivesse acontecendo. Os trabalhadores sofreram o maior golpe da história com a reforma trabalhista aprovada pelo Congresso Nacional, a retirada de direitos foi enorme mesmo que ainda incompleta para o imperialismo, que exige a retirada de tudo, férias, descanso semanal remunerado, hora de almoço, etc. Para completar precisam acabar com a aposentadoria, cortando a Previdência Social. Se isso não é golpe do que pode ser chamado? O problema central é que o PT e a CUT ao invés de organizar a luta dos trabalhadores fez a opção de fazer a luta jurídica e eleitoral alienando todo o conhecimento histórico sobre as estratégias da burguesia e do imperialismo.

No Brasil, desde o fim da ditadura militar temos eleições de dois em dois anos, portanto, não seria por falta de eleições que os problemas deixariam de ser revolvidos, mas continua o “cretinismo parlamentar” por parte de amplo setor da esquerda que nada vê além do “estado democrático de direito”. O agravante para o PT, PC do B e PSOL é que mesmo sob a ditadura do STF esses partidos continuam vivendo a fantasia de uma democracia, uma verdadeira armadilha para ofuscar o processo golpista. Assumiram o Programa de Gotha dos lassaleanos e evitam falar da ditadura do proletariado como se fosse um pecado capital. Essas coisas se tornaram muito atrasadas e antiquadas para esses partidos o que é até normal para quem nega até mesmo a existência do proletariado.

No capitalismo a propriedade dos meios de produção é privada e está nas mãos de uma pequena minoria, esses proprietários é que organizam a produção, se apropriam do excedente e fazem o reinvestimento. Os trabalhadores, que vendem a força de trabalho, estão alienados dos meios de produção e não podem decidir nem mesmo a forma como produzir. Então a democracia burguesa se apresenta como uma oportunidade de decidirem sobre a alocação de recursos e de uma certa forma de se apropriarem de uma parte do excedente em geral. Esse embuste encontra eco na realidade concreta do trabalhador que precisa sobreviver, daí não ser muito difícil para os reformistas se sustentarem politicamente por amplos períodos e mesmo terem uma justificativa plausível para se integrarem ao regime, estas operações se dão no registro do senso comum. As derrotas em lutas diretas sempre contaram pontos importantes para os reformistas na opção pela via parlamentar, essas derrotas continuam importantes. É preciso provar que a luta econômica exige direitos políticos e que estes só podem ser conquistados pela vitória eleitoral. O resultado político pode ser conseguido com uma massa de gente desorganizada e o mais comum é a perda da identidade de classe e o aparecimento de todos os tipos de oportunismos. A participação se dá de forma representativa, são pessoas eleitas que representarão os eleitores o que acarreta em desmobilização das massas e no aburguesamento destes representantes. É assim no parlamento e nos sindicatos. Enfim, é nestes termos que tem sido colocada a questão da participação na política eleitoral.

Ao participar do jogo democrático os representantes dos trabalhadores abriram alianças com a pequena burguesia e passaram a defender as regras do jogo quando este estivesse em perigo. Mesmo em situações revolucionárias viram-se “obrigados” a manter as regras, lutar por elas, impedir a militância direta, tornarem-se completamente contrarrevolucionários porque a democracia representativa tornou-se o meio e o objetivo, a própria forma da futura sociedade socialista. Qualquer tipo de uso da violência seria um pecado capital e a democracia seria o suficiente para atingir o socialismo. Mas podem as classes dominantes serem “vencidas em seu próprio jogo”? O cálculo da social democracia é ingênuo: sendo os assalariados a maioria os socialistas venceriam as eleições. A revolução estava ali nas urnas e ela não deveria vir antes que o sistema estivesse suficientemente amadurecido. Tudo ia muito bem na medida em que as cadeiras dos socialistas no parlamento aumentavam. Evidente que com o passar dos anos esse cálculo virou coisa de calhordas. Para uma vitória eleitoral os partidos ligados ao movimento operário buscaram o apoio em membros de outras classes comprometendo o programa revolucionário.

A emancipação da classe operária

As revoluções burguesas se apresentaram como uma luta pela emancipação da humanidade quando na verdade era uma luta somente pela emancipação da burguesia. O proletariado é a única classe que pode lutar pela emancipação da humanidade porque não tem nada a perder além dos seus grilhões e é capaz de organizar e viabilizar o processo produtivo quando as relações capitalistas forem abolidas. É verdade que os operários competem entre si dentro do sistema capitalista, alguns aceitam trabalhar por salários menores e até mais tempo tomando o lugar de outro, o interesse de classe não corresponde obrigatoriamente ao interesse de cada operário individualmente, por isso a necessidade de ser organizarem em associações, sindicatos e em partido, com o propósito de empreender a luta geral contra os capitalistas.

O construção do partido revolucionário é certamente o principal desafio para os socialistas e a participação nas eleições é uma questão tática para fazer aquilo que Marx escreveu em As lutas de classes na França: “durante a campanha eleitoral, ele nos forneceu um meio sem igual para entrar em contato com as massas populares onde elas ainda estão distantes de nós e obrigar todos os partidos a defender-se diante de todo o povo dos nossos ataques às suas opiniões e ações; e, além disso, ele colocou à disposição dos nossos representantes uma tribuna no Parlamento, do alto da qual podiam dirigir a palavra tanto a seus adversários no Parlamento como às massas do lado de fora com muito mais autoridade e liberdade do que quando falam para a imprensa ou em reuniões. De que serviam ao governo e à burguesia a sua Lei Contra os Socialistas, se a campanha eleitoral e os discursos socialistas no Parlamento a violavam continuamente?” A tentação é inferir daí que a estratégia da revolução socialista seja a atividade parlamentar. A emancipação da classe operária não poderia ser tarefa dos próprios operários se tivesse que ser alcançada por meio das eleições e mais, o “cretinismo parlamentar” passaria a trabalhar contra a revolução socialista. A busca de aliados tornou-se uma necessidade na prática eleitoral da social democracia.

O PT no Brasil, fundado no início da década de 1980, não obstante a intensa luta interna, à medida que ganhava cargos no parlamento municipal, estadual, federal e em algumas prefeituras,  foi se tornando um partido da ordem, chefiado por estes novos elementos da pequena burguesia que ocupavam cargos no aparato do Estado burguês. Substituiu o debate nas bases pelo alvará dos parlamentares e às suas necessidades de se perpetuarem enquanto agentes portadores de interesses particulares e burgueses. À frente do aparato partidário e para atingir os fins eleitorais abriram as portas para todos os tipos de alianças, inclusive com o que havia de mais atrasado na política brasileira. Tornou-se um partido de massas, mas foi perdendo seu caráter de classe, dando lugar a conceitos ambíguos como “povo”, “consumidores” e “cidadãos”. A consequência é que os operários perderam em muito sua identidade de classe para atuarem como indivíduos que compartilham interesses que pertencem também à outras classes, inclusive os de interesse da burguesia, passando a se identificar como nordestinos, sulistas, evangélicos, negros, etc. O próprio partido passou a operar dentro desse novo registro, já não era mais um partido de operários, mas de elementos dos mais diversos grupos e classes. A eleição de Lula à presidência foi o coroamento deste processo e um salto qualitativo na integração ao sistema, inclusive com a permissão do imperialismo norte-americano.

Passados quase 20 anos, depois da derrocada das políticas neoliberais, da política de frente popular, uma crise avassaladora atinge o capitalismo no mundo todo e o Brasil. A crise econômica iniciada em 2008 não permite mais que sejam realizados governo populistas ao mesmo tempo em que se garante os grandes lucros ao capital, inclusive ao capital financeiro. Diante destas incoerências é que o imperialismo, comandado pelos grandes monopólios mundiais foi levado a aplicar mais neoliberalismo que implica em retirada de direitos trabalhistas, conquistas sociais e privatizações. A burguesia vai tentar tirar água da pedra, vai fazer de tudo para salvar seus lucros, declarou uma verdadeira guerra aos trabalhadores e não existe espaço para negociações, para meios termos, para conciliação. A classe trabalhadora terá que se levantar e construir novas organizações, um partido revolucionário em que não caberá a atual esquerda, na medida em que ela irá cada vez mais à direita para salvar seus próprios privilégios. É necessário organizar um programa político que não passa pela disputa eleitoral completamente controlada neste momento em que estamos em um verdadeiro Estado de exceção com o Judiciário à frente e com os militares na espreita. Lançar candidatos e disputar as eleições de outubro é legitimar este processo de golpe contra os trabalhadores em que o PT é uma das engrenagens.

O futebol e alienação

Quarta, 20 Junho 2018 00:00

fut 

Existe uma visão levada principalmente pela esquerda pequeno burguesa de que o futebol seria um esporte de alienados. Essa teoria da alienação está muito em voga na universidade e coloca como tese principal que a classe operária, dos trabalhadores como um todo, principalmente dos trabalhadores manuais, são um bando de idiotas totais, são alienados, gostam de aspectos "culturais" de alienados. Por exemplo, eles gostam de música sertaneja, gostam de novela, um trabalhador gosta de futebol, de música caipira, etc. Para essa visão acadêmica os espertos do pedaço seriam a classe média e a esquerda pequeno burguesa que gostam de Rockn'roll, Jazz, Bossa Nova, Blues, de filme Cult, etc.

Como pretendemos fazer uma análise objetiva principalmente orientada para essa questão do futebol, devemos colocar, pensar, em primeiro lugar, o que está por trás dessas considerações e qual é o significado em relação ao mundo real, o mundo material. A sociedade capitalista está dividida em três grandes classes sociais que seriam: primeiro os detentores dos meios de produção, que são os capitalistas e seus representantes ideológicos e políticos, portanto, a burguesia como um todo; do outro lado, temos a classe operária que é quem trabalha para os detentores do capital e que participa do processo produtivo; e as camadas médias. Dentre essas está a pequena burguesia, a intelectualidade no geral, principalmente a que representa em alguma medida os interesses da classe capitalista, a intelectualidade pequeno burguesa e a burguesia propriamente dita.

Nesse sentido a pequena burguesia expressa em termos ideológicos e políticos a maneira de pensar do pequeno produtor, do pequeno padeiro, do pequeno comerciante. Se destaca em primeiro lugar o individualismo, ele é o dono da padaria, do comércio, ele é o dono de seu cérebro e seria o superinteligente enquanto que os trabalhadores, que são seus empregados, são idiotas totais. Aqui, no caso da classe operária com intelectualidade pequeno burguesa, ocorre a mesma coisa. O trabalhador se encontra submetido ao processo de produção capitalista onde ele produz bens materiais ou serviços.

O pequeno burguês intelectual não participa do processo de geração de valor, participa de atividades intelectuais sem agregar valor e tem uma visão de distanciamento do processo produtivo. Ele se distancia da realidade material e começa a “viajar na maionese”. Em outras palavras, ele tem uma tendência enorme a se tornar idealista.

O trabalhador no geral e a classe operária em particular são muito práticos, querem resolver os problemas materiais. Obviamente que na hora que fazem isso acabam fazendo dentro do contexto em que se encontram e a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.

Em linhas gerais podemos verificar que todas as classes personificam os fenômenos envolvidos com a classe social a que pertencem. O capitalista é um ser ultra alienado porque ele é a personificação do capital, conforme Marx explicou justamente no célebre livro que foi a sua obra-prima, O Capital. Ele vai fazer de tudo para não quebrar o processo de giro do capital e para obter lucros, portanto. Mais alienado que isso é impossível. Se tiver de matar 1 milhão de pessoas para obter lucros ele vai matar. Como já tivemos amostras disso em todas as guerras que têm acontecido nos últimos 200 anos.

No caso dos trabalhadores, da classe operária, também personificam o processo produtivo mas isso não significa que a classe operária, apesar de trabalhar de maneira social no geral, ela vai ser a representação biológica          automática a isso porque nós vivemos na sociedade capitalista. A classe operária também vai personificar o processo de produção operária junto com a pressão exercida pela sociedade capitalista. A pequena burguesia é exatamente a mesma coisa.

Em resumo e em cima dessa explicação teórica o que nós temos é que toda classe social expressa as relações sociais de produção nas quais ela se encontra inserida e o futebol é um esporte de massas que se encontra cooptado, como tudo no capitalismo e como tudo que o capitalista toca, para obter lucro. Não por acaso Marx já dizia no O Manifesto Comunista e no O Capital que o capitalismo é uma sociedade de produção de mercadorias. Tudo é mercadoria no capitalismo e por quê o futebol não seria também? O futebol é mercadoria, o amor é mercadoria, sexo é mercadoria. Estão até querendo vender a água da chuva. É absolutamente normal porque vivemos numa sociedade capitalista.

Como revolucionários não podemos cair no mote de que o trabalhador é alienado e que o pequeno burguês intelectual, que ouve rock, não seria. Este é até mais alienado que o operário porque, normalmente, não é uma pessoa prática, é uma pessoa idealista, distanciada do processo real de produção, a menos que seja um intelectual revolucionário, isso seria muito diferente.

Colocado isso vemos que o futebol é um grande evento de massas em países sul americanos como Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru, México, e em praticamente todo o mundo. É um esporte de massas em que a classe operária participa e, além disso, é um esporte coletivo. Para os revolucionários não existe nenhum motivo para rejeitar o futebol assim como não existe motivo para rejeitar nenhum esporte nem, inclusive, expressão cultural nenhuma.

A luta da classe operária

Quinta, 24 Maio 2018 21:00

classeoper 

O marxismo explicou a luta da classe operária em alguns documentos como o Manifesto do Partido Comunista, em primeiríssimo lugar, e que depois foram desenvolvidos nos documentos de Lenin, nas lutas dos bolcheviques, nos documentos da III Internacional, nas elaborações de Trotsky sobre as frentes populares e o fascismo.

A frase inicial do Manifesto do Partido Comunista "Um fantasma assola a Europa" continua totalmente vigente. Nesse momento a classe operária mundial está paralisada, mas até quando? Com o bolo da riqueza social cada vez mais se reduzindo, cada vez mais tendo essa política monetária que é uma loucura, como Trump está fazendo no Oriente Médio, por exemplo, e que vai se generalizar por desespero e por falta de alternativas. Com todos esses ataques contra si a classe operária tende a entrar em movimento.

TESES

Tese 0 - O marxismo, suas teses fundamentais, seu método de análise principalmente, continua totalmente vigente porque o capitalismo continua existindo. A etapa, atual que é a etapa do domínio do grande capital, as crises predominam e as guerras são cada vez mais abertas, de contrarrevoluções, portanto, o que leva a revoluções.

Tese 1- Para o próximo período está colocado um grande colapso capitalista.

Tese 2- O grande capital irá colocar em marcha o fascismo inevitavelmente, mas para o período imediato está colocado em escala mundial a instalação de governos de cunho bonapartista, ditaduras burocráticas policiais com os militares cada vez mais na linha de frente.

Perante o medo da revolução mundial a burguesia vai tentar levantar o fascismo a partir, principalmente, das camadas médias desesperadas. Só que a crise do capital é tão grande que temos de ver até que ponto vai conseguir colocar movimentos fascistas em massa nas ruas e ainda conseguir controlar a situação nos principais países, em escala mundial.

Precisamos ver o que poderia acontecer com a ditadura militar sangrenta ou os movimentos bonapartistas no próximo período. E a classe operária que irá entrar em movimento em cima da crise do capital será que não vai lutar como sempre fez para retomar os sindicatos? Pela formação de partidos políticos próprios mesmo que sejam operários centristas? Será que não irão surgir novas frentes populares de esquerda, por meio das quais o imperialismo vai tentar conter a revolução?

Tese 3- O papel dos revolucionários é sempre lutar pela independência da classe operária de todos os setores da burguesia e, inclusive, dos setores pequeno burgueses da política de frente popular que no Brasil é encabeçada pelo PT.

Tese 4- Para o próximo período está colocado o enfrentamento entre a burguesia e a classe operária mundial.

Há uma série de questões políticas que estão em aberto e que precisaríamos trabalhar no próximo período, conforme o desenvolvimento da situação política mundial continua a avançar.

O que foi colocado por Trotsky no Programa de Transição de 1938, é a política que deve mobilizar a classe operária neste momento e a política para apontar a  direção quando ela der indícios de que vai entrar em movimento.

Hoje podemos dizer é que as duas estratégias fundamentais da classe operária continuam vigentes e que são a luta pela revolução operária, pela tomada do poder por meio de uma revolução de massas dirigida pela classe operária, e para que isso se viabilize é necessária a construção do partido operário revolucionário. Esses são os dois objetivos estratégicos da classe operária mundial e que, segundo o grande capital, estariam enterrados. Temos de ver se, em cima de um grande ascenso de massas no próximo período, está realmente enterrado.

O legado de Karl Marx

Sexta, 18 Maio 2018 21:00

marxk.fw

 

Karl Marx nasceu na cidade alemã Tréveris, localizada perto da fronteira com a França, em maio de 1818. Marx deve ser visto como um produto da continuação do que tinha sido colocado em pé pela revolução burguesa, principalmente pela Revolução Francesa, contra o obscurantismo da Idade Média.

O legado de Marx passa por três pontos principais, conforme Vladimir Ilich Lenin escreveu no célebre panfleto As Três Fontes e as Três Partes Integrantes do Marxismo: o socialismo científico, a economia política e o método filosófico - o Materialismo Dialético e o Materialismo Histórico. O socialismo deixou de ser uma utopia para transformar-se numa ciência. O grande mérito de Marx foi tê-lo aplicado na análise do capitalismo, na obra cume, O Capital. O primeiro livro, o principal, analisa o modo de produção capitalista, e foi publicado em 1867. Marx deixou manuscritos para publicar mais três volumes. O segundo livro foi publicado logo após sua morte, em 1885, por Friedriech Engels, e trata do modo de circulação das mercadorias no capitalismo. Um pouco antes deste falecer chegou a publicar o terceiro livro, que trata do modo de produção capitalista tomando-o de conjunto. O quarto livro, que trata das teorias da mais-valia, nunca chegou a ser publicado pelos mestres do marxismo, ficaram os manuscritos que foram publicados de maneira deturpada pela social democracia alemã, pela ala influenciada pela direita, encabeçada por Bernstein.

O Capital de Marx

Em O Capital, Marx aplicou o método do Materialismo Histórico. Em cima de um profundo conhecimento da economia política, ele fez toda uma série de descobertas sobre as leis que regem o funcionamento do modo capitalista de produção. Ele demonstrou de onde o capitalismo vem, como que ele se comporta e como que esse comportamento funciona em cima de leis que o regem, e para onde esse próprio funcionamento interno o conduz. Vladimir Ilich Lenin disse nos Cadernos onde analisou a Ciência da Lógica do grande filósofo alemão, Hegel, que Marx não deixou um manual do Materialismo Dialético, mas ele deixou a aplicação da dialética no livro O Capital.

Karl Marx demonstrou que a base material em movimento, em última instância, determina a superestrutura política e jurídica. A base material são os meios de produção e as relações sociais de produção que sob esta base se estabelecem. A superestrutura política e jurídica é representada pelo Estado burguês e os partidos políticos burgueses. O Estado burguês com todo o arcabouço jurídico seria o resumo da sociedade burguesa, da chamada sociedade civil. A ideias são um reflexo da sociedade num determinado grau de desenvolvimento.

A base econômica é avaliada pela esquerda burguesa, e principalmente pelos “marxistas” universitários, de maneira estática, mas ela é dinâmica e corresponde às relações sociais, das classes e frações de classe em luta. A palavra, em alemão, que Marx usou, em sua tradução para o português, seria a base material em movimento e não base material estática.

O movimento da sociedade acontece pela ação e interação entre as várias classes sociais  que se relacionam na sociedade capitalista, principalmente a partir de relações de cunho econômico, que acabam sendo estabelecidas em cima do desenvolvimento tecnológico, pelo grau de desenvolvimento das forças produtivas, que são compostas pelos meios de produção e as matérias primas.

Em cima do desenvolvimento das forças produtivas se conformam as classes sociais.

Marx foi um militante revolucionário e não um diletante acadêmico

Karl Marx não foi somente um teórico, mas também foi um ativista político da revolução operária mundial. Ele começou na luta acadêmica, na juventude, e rapidamente, sob a influência de Friedriech Engels, verificou que  a classe operária era um agente social vivo.

A classe operária se conformava e sofria no país mais desenvolvido da Europa, a Inglaterra, e também nos demais países. Foi um desenvolvimento do que o grande escritor francês Victor Hugo tinha descrito na obra Os Miseráveis, que demonstrou que a igualdade, a fraternidade e a liberdade, que a Revolução Burguesa preconizava, não passava da liberdade de comércio. Victor Hugo refletiu que a vida dos operários era extremamente dura e penosa. Engels foi além e descreveu a mesma situação na Inglaterra no livro escrito em 1845 chamado A Situação da Classe Operária na Inglaterra, que exerceu enorme influência sobre a obra de Karl Marx e do próprio Engels.

Marx e Engels participaram da chamada Liga dos Justos a partir de 1846, que logo foi renomeada como a Liga dos Comunistas. Eles participaram da revolução de 1848, principalmente na Alemanha. Marx investiu todas as suas economias para impulsionar o Jornal A Nova Gazeta Renana. Engels participou da luta militar, o que influenciou o seu interesse pelos assuntos militares.

As revoluções de 1848 aconteceram como reflexo da primeira crise capitalista do mundo ocidental, em 1847. Foi o primeiro momento em que a classe operária enfrentou diretamente a burguesia.

A derrota das revoluções de 1848 levou a um período de refluxo do movimento operário revolucionário. Em cima de uma nova crise econômica, que aconteceu em 1857, começou a se conformar uma movimentação da classe operária que levou à formação da 1ª Internacional Comunista em 1864, que teve em Marx seu grande mentor.

O marxismo tinha como objetivo colocar um arcabouço de ideias para municiar a luta política prática da classe operária contra a burguesia. Em nenhum momento foi um conjunto de teses acadêmicas.

Marx e a dialética

A base do marxismo é a análise da luta de classes. A avaliação do marxismo que é realizada nas universidades pelos academicistas escolásticos coloca que a principal tese da dialética é a totalidade, o conjunto. Esta é, certamente, uma das leis mais importantes da dialética. A dialética é o reflexo na teoria de como o movimento das coisas funcionam na natureza e na sociedade. E esse movimento acontece em cima da luta entre os contrários, que na sociedade é a luta entre as classes sociais.

Hegel formulou as principais leis da dialética por meio da análise e superação do legado dos filósofos anteriores, em primeiro lugar Immanuel Kant, que tinha superado Renée Descartes, e retomando os grandes pensadores da Grécia Antiga. Marx analisou criticamente e superou, da mesma maneira, a dialética hegeliana, principalmente dado seu caráter fundamentalmente subjetivo.

Marx conseguiu fazer essa crítica a Hegel porque este tinha limitações devido ao seu caráter de classe. Hegel era um burguês, chegou a ser um grande professor, inclusive reitor da Universidade de Berlim. A crítica a Hegel afirma o ponto de vista materialista de avaliar a natureza e a sociedade em cima de fenômenos objetivos, retirando por completo as teorias hegelianas do "ser superior", o "ser universal", que no fundo se vale da religião para explicar a vida e a sociedade. Marx esclareceu que as coisas estão em movimento, mas que elas são em si mesmas, independentemente do pensamento humano ou de seres superiores, ao contrário do idealismo de Hegel.

Marx e a luta de classes

Marx retomou as contribuições de Hegel, que considerava as coisas concatenadas, em desenvolvimento e que o motor do movimento, da vida social e da natureza, era a luta entre os opostos, entre os contrários.

Os opostos, no capitalismo, são colocados de maneira objetiva, são as classes sociais. Estas disputam a  apropriação da riqueza social. Esta tese é fundamental para compreender a própria sociedade. Ela significa que o bolo social é limitado e portanto é disputado pelos vários grupos que compõem a sociedade capitalista. Esses grupos são, principalmente, os donos dos meios de produção, a classe social dominante, os capitalistas, os donos do capital, e os que para ela trabalham, em primeiro lugar a classe operária.

O capital adquire várias formas, de capital dinheiro e de capital mercadoria. Este último pode adquirir várias formas e acaba circulando, conforme o Livro II de O Capital expõe em detalhes. O capitalista na hora de abrir uma empresa, principalmente de abrir uma fábrica, acaba personificando o capital. Ele converte a si mesmo numa engrenagem do capitalismo.

O grande objetivo do capitalista é a obtenção do lucro e é pressionado nesse sentido pela concorrência exercida pelos demais capitalistas e do conjunto das leis que regem o capitalismo. Ele sempre vai ser contra qualquer coisa que se oponha a isso, simplesmente porque ele está sujeito à possibilidade de quebrar. Além da lei da concorrência e de outras séries de leis, há, por exemplo, a tendência contínua à queda da taxa de lucros que Marx descreveu no Livro III de O Capital. Neste, diz que o aumento do capital constante, que seria principalmente máquinas, matérias primas e toda a parafernália de instrumentos para que uma determinada empresa funcione faz com que o lucro, tendencialmente, caia porque o que gera lucro na sociedade capitalista é a mão de obra e não robôs, não os  computadores nem as máquinas.

As leis do capitalismo obrigam os capitalistas a lutarem para manterem os lucros contra a própria ação dessas leis. Por esse motivo, eles são obrigados a aumentar a exploração da classe operária, tanto no sentido de aumentar a intensidade da jornada de trabalho como no sentido de estendê-la e reduzir os custos diretos e indiretos da mão de obra.

Marx e a teoria do valor

No Brasil, por exemplo, há uma lei que diz que os computadores têm de ser amortizados em cinco anos. Quando uma empresa compra um computador, ela tem de dar baixa em cinco anos nos livros contábeis, 20% a cada ano. A ideia do “neoliberalismo” de que o lucro teria fontes que não seria o trabalho repete as velhas teorias das escolas de economia que Marx chamava de "economistas vulgares", no sentido de que não tentam explicar a realidade, mas de justificar o domínio do capital.

A única classe social que agrega valor na produção das mercadorias continua sendo a classe operária. O salário continua sendo o mínimo necessário para que os trabalhadores subsistam e se reproduzam como tais, de acordo como Marx descreveu detalhadamente no O Capital, embora possa variar de acordo com as necessidades específicas do capital e o grau de desenvolvimento da luta de classes.

Hoje, a propaganda do imperialismo tenta inculcar que a classe operária teria desaparecido, como se fosse possível que a burguesia exista sozinha sem a exploração da mão de obra dos trabalhadores. O que aconteceu é que a partir da década de 1980 foi movida uma grande parte do parque industrial dos países do ocidente para a Ásia, em primeiro lugar para a China. Esse processo foi impulsionado pela contenção da queda dos lucros que tinham sido colocados em xeque, em escala mundial, com a crise capitalista mundial de 1974.

Na China e nos demais países da Ásia, em primeiro lugar, no Japão, na Coreia do Sul, na Malásia, na Tailândia, nas Filipinas, na Índia, na Rússia etc. existem centenas de milhões de operários. E também existem no Brasil. Se não o que seriam os petroleiros, os metalúrgicos, os trabalhadores da construção civil, os trabalhadores do comércio e dos setores de transporte e logística, por exemplo?

Marx e as classes sociais

A burguesia como um todo é uma classe social um pouco mais ampla que apenas os capitalistas porque ela envolve também, os ideólogos burgueses e os representantes políticos e jurídicos burgueses. A burguesia tem várias frações o que gera contradições internas, embora que, de conjunto, todos os setores da burguesia sejam inimigos dos trabalhadores. À frente da burguesia mundial se encontra a burguesia imperialista, as 150 grandes famílias que dominam o mundo e seus representantes políticos.

No polo oposto, existe o proletariado, os trabalhadores. O núcleo do proletariado é a classe operária que seria aqueles trabalhadores ligados, principalmente, às atividades produtivas. O núcleo da classe operária são os trabalhadores que estão ligados literalmente à produção do valor das mercadorias.

Os trabalhadores que não participam diretamente do processo de geração de valor são parte das camadas médias da população, assim como também o são os trabalhadores que são pequenos proprietários, por mais empobrecidos que estejam. Os professores da rede pública, por exemplo, não são operários porque não estão vinculados diretamente à geração de lucro, estão vinculados à reprodução do sistema como um todo. O mesmo acontece com os trabalhadores rurais que são donos de terra. O empobrecimento e grau de proletarização destas camadas de trabalhadores os aproxima em enorme medida da classe operária e é a base da luta geral dos trabalhadores contra o conjunto da burguesia.

Nas camadas médias da população, há três grupos principais, os grandes, os médios e os pequenos. Esses últimos podem encontrar-se numa situação de mortos de fome como facilmente pode ser visto nos integrantes do MST (Movimento dos Sem Terra), por exemplo, nas comunidades mais pobres, ou em grande parte dos professores da rede pública.

As várias camadas burocráticas, seja do movimento sindical, dos movimentos sociais ou da esquerda burguesa e pequeno burguesa, fazem parte das camadas médias da população. Elas não trabalham em termos produtivos e tem como objetivo conter a luta dos trabalhadores. Na época do imperialismo, elas acabam constituindo setores da classe operária que são comprados pelo grande capital e que têm como base social a chamada aristocracia operária, os setores mais bem pagos e mais privilegiados dos trabalhadores e das camadas médias também.

Os desempregados fazem parte do chamado exército industrial de reserva e, portanto, fazem parte da classe operária. Mas quando esse setor fica alienado do processo produtivo e entra em atividades como o crime ou se tornam mendigos, por exemplo, ele conforma o que Marx denominou lumpenproletariado, que basicamente seriam elementos desclassados.

 Um ponto importante  que também contradiz a visão anti-marxista da esquerda burguesa e pequeno burguesa, é que a polícia, que tem como objetivo principal manter a ordem burguesa, não faz parte dos trabalhadores, mas do lumpenproletariado. Essa caraterização é muito importante porque estabelece as linhas gerais para a atuação política. Por exemplo, greves da polícia por “melhores condições de trabalho” nunca devem ser apoiadas porque implicam em melhores condições para reprimir os trabalhadores. Mas greves de policiais que vão contra a instituição policial sim devem ser apoiadas, por exemplo, reinvindicações como a sindicalização dos policiais ou a eleição dos oficiais.

Outra consideração importante é que a visão marxista não acha que “os mais pobres” serão o motor da revolução. Essa é a visão anarquista que acha que o lumpenproletariado é a camada social que se encontrará à frente da revolução. Para o marxismo, para o socialismo científico, o agente da revolução socialista mundial é a classe operária.

mm

 

As “frentes populares” que foram colocadas em pé na década de 1980, como, por exemplo, no Brasil com o PT, como tudo na vida e na sociedade, nasceram , se desenvolveram, e, a partir da idade adulta, que aconteceu no Brasil no governo Lula, entraram em brutal decadência, principalmente a partir do segundo governo Lula.

No Brasil, a política de “frente popular” se encontra numa etapa tão degradada que nem sequer consegue convocar um 1º de maio e entrega de bandeja para a extrema direita sua principal figura pública e candidato à presidência, Lula, sem nem sequer insinuar que vai convocar uma mobilização de massas, de tanto medo que tem de ser superada pelo próprio movimento que, por meio de uma faísca, pode fazer com que o regime político inteiro seja colocado em xeque pelos trabalhadores.

A “frente popular” como um todo, a burocracia política, a burocracia sindical, assim como a burocracia dos movimentos sociais, pode ser totalmente ultrapassada. A vida da “frente popular” ficou totalmente integrada ao regime político, portanto, integrada ao imperialismo. Os trabalhadores devem contrapor à política contrarrevolucionária a política de frente única, ou seja, a luta unificada contra os ataques da burguesia e contra o golpe, que faz parte da escalada dos ataques.

O problema nesse momento é que a “frente popular” controla os aparatos dos sindicatos e dos movimentos sociais que foram conquistados a partir de décadas de luta. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) é um produto das enormes lutas contra a ditadura militar. O mesmo pode se dizer sobre o MST (Movimento dos Sem Terras) ou sobre a  UNE (União Nacional dos Estudantes).

A “frente popular” está interessada nas eleições burguesas e golpistas por causa do próprio caráter de classe. Por isso, se deve chamar a luta dos trabalhadores unificados contra todos os ataques e o voto nulo. As eleições golpistas não devem ser boicotadas, se acontecerem, porque não há força para isso, mas sim pode ser chamado o voto nulo, participando das eleições e denunciando o golpismo e a integração da “frente popular”ao golpe. Neste momento, os partidos de esquerda são cada vez menores e mais oportunistas e a “frente popular” está totalmente vendida e empurrada para a direita pelos ataques do imperialismo. Portanto, quem pode chamar um levante de massas não o faz porque está em uma política de total entrega ao imperialismo, se trata de um instrumento de contenção do movimento de massas. E a esquerda revolucionária não tem forças suficientes porque se compõe de grupos extremamente pequenos e isolados das massas.

A resposta à crise política só pode vir do movimento de massas. A crise aumenta, o imperialismo ataca cada vez mais os trabalhadores. Em algum momento, no próximo período deverão explodir grandes greves, grandes protestos em escala mundial. A partir daí, haverá a disputa entre a extrema direita e os setores revolucionários pela direção do movimento de massas. A extrema direita tentará se valer das camadas médias da população para colocar em pé um movimento fascista. Os revolucionários deverão buscar se fundir aos elementos mais avançados da classe operária, na luta para colocar em pé partidos operários revolucionários de massas.

A grande questão que está colocada é quando as massas entrarão em movimento novamente e se daí surgirá uma nova camada de dirigentes, uma vez que os atuais, que são produto do ascenso operário da década de 1980 e da decadência “neoliberal” da década de 1990, já não são mais dirigentes e sim burocratas de carteirinha que tendem a ser ultrapassados pelo movimento da classe operária em escala mundial.

Nacional

O judiciário golpista e a liberdade de Lula

18 Julho 2018
O judiciário golpista e a liberdade de Lula

No domingo, dia 8 de julho, fomos surpreendidos com o ato de um desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que funciona como segunda instância da "República de...

Luta operária e sindical no Brasil - Parte II

13 Julho 2018
Luta operária e sindical no Brasil  - Parte II

Para entender qual deve ser a tendência da burocracia para o futuro dos sindicatos devemos analisar dialeticamente o sindicalismo no Brasil. A ditadura Vargas do Estado Novo nos anos 40...

Luta operária e sindical no Brasil

06 Julho 2018
Luta operária e sindical no Brasil

Para contextualizar dialeticamente os sindicatos e a luta operária devemos analisar a partir do início da organização sindical no Brasil que ocorre ainda em meados do século XIX com o...

Estava cheia de si e dormiu

14 Junho 2018
Estava cheia de si e dormiu

 A situação nacional ainda está marcada pela ressaca do movimento dos caminhoneiros. Aumentou o desgaste do governo Temer e este só se mantém no cargo devido a que estamos a...

Ciro Gomes com o pé na lama

14 Junho 2018
Ciro Gomes com o pé na lama

A crise política no Brasil dispara como reflexo da crise econômica. Os candidatos da direita e da esquerda integrada ao regime estão inviabilizados e os votos brancos e nulos dispararam....

Gazeta Revolucionária [pdf]

Saiba Mais

Massacre ao povo palestino (parte...

A Intifada palestina     Intifada significa revolta, ou literalmente...

Massacre ao povo palestino (parte...

A criação do Estado de Israel Não foi da noite...

Massacre ao povo palestino (parte...

Sionismo praticando a necropolítica em Gaza     A propósito,...

Massacre ao povo palestino (parte...

Nakba, 70 anos de assassinatos No dia 14 de maio...