Sexta, 19 Outubro 2018

Massacre ao povo palestino (parte 3)

Written by  Published in Global Economy Quarta, 30 Maio 2018 21:00
Rate this item
(0 votes)

A criação do Estado de Israel


partilha


Não foi da noite para o dia. Em novembro de 1947, as Nações Unidas (ONU) aprovaram o plano de partilha da Palestina, que contava naquela época com cerca de um milhão e meio de árabes e 700 mil judeus. O Estado judeu iria de TelAviv até Haifa, as regiões da Galileia Oriental, deserto de Neguev e o golfo de Akaba, com 14.000Km2. O outro, o Estado palestino árabe, compreendia desde a Cisjordânia até a Faixa de Gaza, com 11.500Km2, portando um território menor que o destinado aos judeus. Também determinava a internacionalização da cidade de Jerusalém. Este plano levou à guerra de 1948/49, pois os árabes não queriam aceitar que o movimento sionista recebesse dez vezes mais terras do que as suas próprias. Em 14 de maio de 1948, David Ben Gurion, um judeu polonês, líder da Central Sindical do trabalho, preso duas vezes na Revolução de 1905 na Rússia, e que migrou para a Palestina em 1906, proclamou a fundação do Estado de Israel e se tornou o seu primeiro presidente.

Em maio de 2018, uma ex-combatente sionista na década de 1940, Tikva Honig-Parnass, conta como se juntou a Palmach, a elite da força militar judaica à época, e como sua unidade desempenhou um papel no despovoamento e destruição de cidades e vilas palestinas para criar as bases do sonho sionista. “As aldeias ao meu redor foram aniquiladas. Qalunya, a poucos quilômetros a oeste de Jerusalém, estava à nossa direita na estrada de Jerusalém para Tel Aviv, foi destruída em um dia”. Qalunya foi uma das mais de 500 cidades e aldeias palestinas que foram etnicamente limpas pela milícia sionista durante 1948-49. Foi o lar de aproximadamente 1.000 pessoas. Hoje, essa mulher de 89 anos, filiada ao partido anti-sionista Organização Socialista em Israel mais conhecido pelo nome de sua revista Matzpen, vem desde a década de 1960 publicando artigos para desconstruir a ideologia criada para justificar a criação do Estado de Israel, a quem ela começou a denunciar como colonialista.

refugiadFluxo de refugiados da Palestina em 1948 [Jim Pringle / AP]


Por um curto espaço de tempo e por interesses próprios, a Inglaterra vinha se opondo à criação do Estado de Israel, por outro lado os Estados Unidos e a União Soviética logo o reconheceram. Estava oficializado o enclave judaico europeu no Oriente Médio e o Estado palestino até hoje não conseguiu se organizar. Israel ocupou 80% das terras palestinas, estava previsto “apenas” 60%. Jerusalém, uma cidade sagrada para cristãos, muçulmanos e judeus foi divida em duas, seria por determinação da ONU um lugar à parte, um território internacionalizado, sendo que Israel domina o lado ocidental desde a guerra de 1948. Não foi tão simples assim. Jerusalém continuou sendo um local de disputas e muitas controvérsias internacionais. A faixa de Gaza com 335Km2 ficou sob domínio egípcio.

Os palestinos se tornaram refugiados na sua própria terra ocupada pelos judeus com o apoio do imperialismo dos Estados Unidos. Mais de um milhão de pessoas, em 1949, expulsas pelo novos colonizadores se amontoava nos países vizinhos e os que ficavam tinham um governo opressor que os tratava com discriminação, inclusive racista, como registrado pela própria ONU. Com a vitória israelense, na guerra de 1948, foi colocado em marcha acelerada a máquina de propaganda sionista, bíblica, da vitória de Davi contra Golias, do civilizado sobre o bárbaro, do moderno contra o atrasado, quando na verdade a máquina de guerra colocada a favor dos judeus tinha um contingente duas vezes maior que todas as forças árabes, inclusive com armas muito mais sofisticadas. Os tempos de paz haviam definitivamente chegado ao fim, visto que, ao ocupar as terras palestinas os israelense não saiam delas desobedecendo sistematicamente todas as resoluções da ONU que também não fazia nada além de colocá-las no papel. As principais potências capitalistas apoiavam Israel, por outro lado a causa do povo palestino foi incorporada na agenda política de diversas organizações dos direitos humanos mundo afora. Mais de um milhão de palestinos estavam na condição de refugiados de guerra, morando em acampamentos com barracas de lona, similares aos campos de concentração nazistas.

Os palestinos concentrados no Cairo e em Beirute trataram de organizar a resistência. Foi então que surgiu a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), financiada principalmente pelo governo do Egito, que montou também o Exército da Libertação da Palestina. Era necessária a criação de organizações próprias diante da inoperância da ONU e mesmo da frouxidão dos governos de países árabes. Organizações menores foram sendo criadas aqui e ali, cada uma com sua política, mas tinham em comum a “questão palestina”. A Al Fatah em Beirute e Gaza, também com base na Síria, tinha uma das lideranças mais conhecidas no mundo, Yasser Arafat, que participou da guerra de 1956, quando o governo egípcio de Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, inaugurado em 1869 e que era praticamente controlado pela Inglaterra e França. O Egito foi atacado por Israel que tinha uma aliança com a Inglaterra e a França. Em 1967, foi criada a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) que via a luta de uma forma mais ampla, como a libertação de todo o povo árabe oprimido. Em 1969 surge a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), um agrupamento bem mais moderado que aceita a coexistência de dois Estados nas terras da Palestina. Em 1979, surge a Jihad islâmica palestina, um grupo bem mais radical que não aceita a ocupação israelense. Em 1987, é criado o Hamas, que é um grupo moderado, mas mantem ações armadas. Outros grupos foram formados em defesa da causa palestina, uma rede de solidariedade internacional funcionava relativamente bem, mas a agonia do povo palestino continuava.

1967, a Guerra dos Seis Dias

Na década de 1960 houve muitas mudanças na composição política e essas mudanças influenciaram no apoio à causa palestina. Inicia-se uma fase de confrontos e a única base confiável para os palestinos estava na Síria já que Líbano, Egito e Jordânia, faziam fronteira com Israel. O movimento armado palestino esteve praticamente dependente do governo sírio por muitos anos. A situação de tensão criada entre Israel e este país foi que levou a Guerra dos Seis Dias, um confronto entre árabes e israelenses iniciado no dia 5 de junho de 1967 e terminado no dia 10 do mesmo mês. Seis dias que mudaram a geopolítica da Palestina. Israel ocupou os territórios da Cisjordânia e a faixa de Gaza onde se pretendia criar um Estado palestino. Tomou parte do território da Síria, as Colinas de Golan, a parte oriental de Jerusalém e a Península do Sinai do Egito, este depois foi devolvido. Além disso, tomou o controle do golfo de Akaba e ocupou a margem oriental do canal de Suez.

A rapidez com que a guerra terminou se deveu à grande superioridade militar de Israel que contava com o apoio das principais potências imperialistas. Já no primeiro dia a força aérea de Israel destruiu, num ataque fulminante, quase toda a aviação de guerra do Egito, todos ainda em terra. Do lado de Israel foram cerca de 900 militares mortos, do lado árabe mais de 4 mil.

A guerra dos 6 dias, apesar de todas as causas apontadas, como, por exemplo, a necessidade de desvio de águas de uma afluente do rio Jordão para irrigação de plantações na Síria, tem como verdadeira causa a criação do Estado de Israel e seu expansionismo através da ocupação e expulsão dos verdadeiros donos daquelas terras.

Nas décadas de 1960 até 80 a causa Palestina se difundiu pelo mundo, principalmente entre a esquerda e aqueles que lutavam pelos direitos humanos e diversos movimentos no interior do território palestino ganharam força na luta contra o Estado opressor. A luta armada era vista como uma solução possível, mas somente o governo sírio permitia de fato que bases militares palestinas ali se instalassem, mas, ao mesmo tempo, tentava controlar as ações dos palestinos. Com a Guerra dos Seis Dias, diante da tomada de amplos territórios e posições importantes dos países árabes houve um arrefecimento no apoio à resistência palestina por partes dos países árabes fronteiriços que queriam negociar suas perdas e evitar novos ataques de Israel.

Sobre as lições Guerra dos Seis Dias, Georges Habache, secretário geral da FPLP escreveu: “Nesse conflito contra Israel há duas estratégias que coexistem: a estratégia de Nasser, que consiste em reconstruir seu exército, e a dos fedayn, ou seja: a estratégia proletária”.  Em 1969, Habache rompe com o grupo de Yasser Arafat e passa a defender as teses de uma luta revolucionária sem abandonar o nacionalismo. Diversos grupos são criados à época, com teses diferentes sobre o Estado de Israel e sobre qual deveria ser a estratégia de luta do povo palestino. Estas teses em geral eram influenciadas pelo apoio de qual governo e qual grupo político que governava em cada um dos países árabes. Diversas ações de guerrilha e luta popular com greves e grandes manifestações nos territórios ocupados vinham tirando o sossego do governo israelense que aumentava a repressão. No entanto, a maioria dos governos árabes tendiam muito mais a apoiar a Fatah, tida como uma organização mais moderada.

O desespero palestino era cada vez maior diante da força usada contra eles. Uma situação tão opressora que um poeta palestino, Mahmud Darwish, que teve sua vila completamente destruída e substituída pela colônia agrícola judaica  Ahihud, escreveu: “Estes só me deixaram uma liberdade, a de me suicidar. Eles existem porque matam. Eu me mato, logo existo”. Assim vários palestinos, no desespero, tornavam-se homens-bombas.

Mas a ação de resistência não se dava exclusivamente por atos terroristas como o sionismo gostava de espalhar para o resto do mundo. Em 1968 os israelenses atacaram uma base da Resistência palestina em Karameh, às margens do rio Jordão e foram vencidos, o que fez aumentar o apoio da população local.

A supremacia da OLP

arafatYasser Arafat (1929-2004)


Em 1970 os países árabes decidiram que a OLP seria a legítima representante dos palestinos. O rei da Jordânia, Hussein, aliado dos Estados Unidos, atacou e massacrou todas as forças de resistência dentro do seu país. A Síria foi o único país a prestar apoio aos
fedayns. Os outros países se diziam contra a atitude de Hussein, mas de fato nada faziam. Yasser Arafat apesar de lamentar também não estava disposto a bater de frente com governos árabes na região, afinal de contas eles estavam financiando a criação do escritório da OLP em diversos lugares do mundo. A lição que se pode tirar do massacre da guerrilha na Jordânia é que a luta dos palestinos por sua terra estava atravessada pela luta de classes. A classes burguesas palestinas apoiaram o rei Hussein nos momentos cruciais. Um setor importante da resistência entendeu que os regimes árabes reacionários eram inimigos do povo palestino.

Em 1973 o mito do exército israelense como invencível foi destruído, pois pela primeira vez as forças árabes fizeram com ele recuasse da margem leste do canal de Suez. Os Estados Unidos deram entrada com um pedido ao Conselho de Segurança da ONU para um cessar-fogo e a volta dos israelenses à posição de origem. Em outubro de 1974, pela primeira vez, um líder ocidental, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean Sauvagnargues, teve um encontro com Yasser Arafat em Beirute e, no mesmo ano, Arafat discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas, com um clamor pela paz e com o pedido da construção de um Estado que pudesse abrigar a todos com fraternidade. No ano seguinte é aprovada na ONU uma moção de repúdio ao sionismo como racista e segregacionista.

Foi o momento também de várias divisões dentro do movimento, já que Arafat mostrava-se claramente a favor de abandonar o propósito dos palestinos de voltarem às terras que lhes tinham sido tomadas e de estabelecer um Estado palestino apenas em Gaza e Cisjordânia. A maioria destes grupos começou a montar acampamentos no Líbano de onde atacavam as posições de Israel que contra-atacavam matando indiscriminadamente civis. Uma situação que colaborou para a reação de grupos conservadores dentro do próprio Líbano e a entrar em choque com os fedayns , além de outros grupos, e que iniciou uma das guerras civis mais violentas do mundo. Beirute ficou destruída, principalmente depois da revolta provocada entre os grupos com a morte de 26 militantes palestinos dentro de um ônibus.

Nesta guerra civil, quando os palestinos começaram a avançar sobre as forças conservadoras, ocorre a intervenção do governo sírio com 30 mil soldados, que não só tenta colocar ordem ao caos mas, principalmente, pretende destruir as forças palestinas e após fortes combates consegue colocar Elias Sarkis para governar o Líbano todo destruído. A guerra civil não terminou e em 1982 Israel invade o Líbano e sitia, em Beirute, as forças palestinas. Foi negociada a retirada da OLP da cidade e um novo presidente foi escolhido pelo parlamento libanês, Bashir Gemayel, o líder cristão da milícia falangista de direita. A esta altura o exército libanês estava dividido com parte apoiando o governo e outros apoiando as chamadas forças progressistas e palestinas.

Em 1977, Anuar Sadat, presidente egípcio aproxima-se do governo israelense o que levou a assinatura de dois acordos em Camp David, residência rural do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter. Os países árabes foram contra os acordos, mas o Egito tinha um interesse imediato: a devolução da Península do Sinai.

Em 1978, as forças armadas de Israel invadiram o sul do Líbano com a intenção de atingir os acampamentos palestinos ali sitiados, para vingar um atentado a um ônibus que ocorrera na estrada entre Haifa e Tel Aviv e acabaram de arrasar o país. A força aérea atacou Beirute e deixou mais de 300 mortos e causou mais destruição. Estes bombardeios voltaram com força total em todo o Líbano depois de um atentado a um de seus diplomatas em Paris, em 1982. No mesmo ano, depois de um suposto atentado ao embaixador israelense em Londres, os israelenses fizeram um gigantesca ofensiva, por terra, ar e mar ao Líbano, prendendo mais de 15 mil “terroristas” e levando grande parte deles para as prisões israelenses. O Estado de Israel prendeu inclusive vários cidadãos libaneses, destruiu cidades e encurralou os palestinos em Beirute que negociaram uma retirada.

Os militares israelenses controlaram as eleições no Líbano mas um membro da ultra direita foi assassinado dois meses depois e, como consequência, iniciou-se um verdadeiro massacre covarde nos acampamentos palestinos de Sabra e Chatila, com torturas horrendas e mortes. A intensa onda de caça aos palestinos causou um verdadeira diáspora de milhões deles por todo o mundo.

Até a Conferência de Madri, em 1991, a OLP foi considerada uma organização terrorista por diversos países e por Israel até 1993. A partir de 1988 passou a apoiar a saída bi-estatal com palestinos e israelenses vivendo lado a lado desde que Jerusalém Oriental se tornasse a capital do Estado palestino e que esses pudessem voltar às suas terras originais de antes da guerra de 1948 e 1967. Em 1993, Yasser Arafat reconheceu o Estado de Israel numa carta ao presidente Yitzhak Rabin, de Israel que, por sua vez, reconhece a OLP como legítima representante dos palestinos.

Uma luta inglória


lutpalest


Desde então, em nada se avançou sobre uma solução para o povo palestino, pelo contrário foram sendo cada vez mais encurralados nos acampamentos “provisórios”. O Estado de Israel fez o que bem entendeu durante todos estes anos de agressões, graças principalmente à aliança com os países imperialistas, agindo quase que como um departamento dos Estados Unidos no Oriente Médio. Encontrou resistência, mas continua se impondo pela força como um verdadeiro Estado terrorista, eliminando seus opositores e constituindo-se, se assim podemos dizer, num verdadeiro Estado necrófilo,  à semelhança do Apartheid.

Read 483 times Last modified on Domingo, 03 Junho 2018 19:20

Nacional

Segundo turno. Duas caras da mesma moeda

19 Outubro 2018
Segundo turno. Duas caras da mesma moeda

Por Florisvaldo Lopes Após uma grande polarização entre Haddad (PT), uma aposta do imperialismo europeu, e Bolsonaro (PSL), uma aposta do imperialismo norte-americano, ambos foram para o segundo turno da...

Haddad faz gol contra

18 Outubro 2018
Haddad faz gol contra

A campanha do PT no segundo turno está bem diferente da campanha do primeiro turno. É corrente que o segundo turno é considerado outra eleição, mas enquanto Bolsonaro manteve o...

Haddad, semeando derrotas

16 Outubro 2018
Haddad, semeando derrotas

A recente campanha de Fernando Haddad tem se mostrado um desastre completo que está conduzindo à vitória de Bolsonaro. É possível ver nas entrevistas que tanto Bolsonaro como Fernando Haddad...

Voto nulo nas eleições golpistas #00confirma

05 Outubro 2018
Voto nulo nas eleições golpistas #00confirma

Na semana passada foi realizada na grande mídia uma campanha de desconstrução da candidatura de Bolsonaro, que culminou com o movimento #EleNão no sábado, dia 29 de setembro, com atos...

Mudança imperialista aos 45 minutos do 1.º tempo do jogo político no Brasil.

01 Outubro 2018
Mudança imperialista aos 45 minutos do 1.º tempo do jogo político no Brasil.

Por Florisvaldo Lopes O imperialismo, principalmente o norte-americano, que deu o golpe na dita “democracia” brasileira quando derrubou a presidenta Dilma Rousseff, e que mesmo antes disso buscava um gerente...

Gazeta Revolucionária [pdf]

 gr11 Setembro 2018

 gr11 Setembro 2018 capa

Setembro 2018


 

Saiba Mais

Massacre ao povo palestino (parte...

A Intifada palestina     Intifada significa revolta, ou literalmente...

Massacre ao povo palestino (parte...

A criação do Estado de Israel Não foi da noite...

Massacre ao povo palestino (parte...

Sionismo praticando a necropolítica em Gaza     A propósito,...

Massacre ao povo palestino (parte...

Nakba, 70 anos de assassinatos No dia 14 de maio...