Sábado, 15 Dezembro 2018

A SAGRADA FAMÍLIA

Written by  Published in Últimas notícias Quarta, 25 Abril 2018 21:00
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marxeengels


“A Sagrada Família ou a crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e seus consortes”,
foi o primeiro livro escrito junto por Karl Marx e Friedrich Engels, em 1844. Nesta obra os autores fazem uma crítica contundente ao pensamento filosófico alemão pós-hegeliano, representado pelos irmãos Bauer - Bruno, Egbert e Edgar - e pelo grupo de pensadores a eles vinculado.  

Os irmãos Bauer defendiam uma política de luta contra a monarquia prussiana baseada em reformas de caráter liberal encaminhadas por filósofos idealistas e extremamente elitistas. Esse grupo que se denominava Crítico crítico estava muito afastado da realidade, literalmente caminhando nas nuvens. Por isso a denominação por Marx de a “Sagrada Família”.

Este livro, que é composto por textos escritos em sua maioria por Marx e que são assinados separadamente por ele e Engels, marca a ruptura dos autores com a esquerda hegeliana. A polêmica se dá em tom de grande ironia, de sarcasmo até, satirizando a filosofia dos jovens hegelianos da década de 1840.

Essa é uma obra do período de formação do marxismo e desempenhou um importante papel na elaboração do socialismo científico. A crítica é mordaz e a ironia é abundante. Vejamos esse trecho do prólogo. Notemos que a terminologia reflete o período do início da elaboração marxista e os autores ainda não definem as suas concepções filosóficas como materialistas, mas sim como “humanismo real”:

O humanismo real não tem, na Alemanha, inimigo mais perigoso do que o espiritualismo – ou idealismo especulativo -, que, no lugar do ser humano individual e verdadeiro, coloca a “autoconsciência” ou o “espírito” e ensina, conforme o evangelista: “O espírito é quem vivifica, a carne não presta”. Resta dizer que este espírito desencarnado só tem espírito em sua própria imaginação. O que nós combatemos na Crítica baueriana é justamente a especulação que se reproduz à maneira de caricatura. Ela representa, para nós, a expressão mais acabada do princípio cristão-germânico que faz sua derradeira tentativa ao transformar a crítica em si numa força transcendental.

E também o seguinte trecho do início do primeiro capítulo, escrito por Engels:

A Crítica crítica, por mais que se considere acima da massa, sente uma compaixão infinita pela mesma massa. Foi tão grande o amor da Crítica pela massa que enviou seu próprio filho unigênito a fim de que todos os que crerem nele se salvem e gozem as venturas da vida crítica. E eis que a Crítica se torna massa e habita entre nós, e nós vemos na sua magnificência a magnificência do filho unigênito do pai. Quer dizer, a Crítica torna-se socialista...”

Os jovens hegelianos se desviaram politicamente para posições mais à direita, considerando-se porta vozes do “espírito crítico crítico” e da “consciência absoluta”. Eles consideravam que deveriam submeter à crítica não só a sociedade injusta e as classes exploradoras mas também as próprias massas proletárias que eram por eles consideradas “vulgares”, “materialistas”, “grosseiras”, e que apenas almejavam interesses mesquinhos e imediatos.

Assim, negavam a importância da classe operária no desenvolvimento e na transformação da sociedade. Consideravam os operários como um estorvo que mais atrapalhava do que ajudava as “atividades do espírito” dos grandes “intelectuais críticos”.

Por isso, os canhões do materialismo estavam girados contra os jovens hegelianos liderados pelos Bauer. Marx opunha uma concepção da História das classes sociais considerando os seus interesses materiais e apresentava uma filosofia que se coadunava com o movimento real existente para transformar a sociedade. Nessa época Marx já se considerava comunista e já estava vinculado ao movimento operário, trabalhando junto com a Liga dos Justos, que mais tarde se chamaria Liga dos Comunistas, localizado no setor mais avançado da classe que abarcava as tendências revolucionárias.

Destacamos, também, a defesa que Marx faz, no capítulo IV, a Pierre-Joseph Proudhon, contra os ataques da Crítica Crítica. Edgar Bauer, na tradução e nos comentários ao livro do socialista francês, “O Que é a Propriedade? Ou investigações acerca do princípio do direito e do governo” (1840), deturpa totalmente e esvazia o caráter radical e de negação da propriedade privada, transformando a obra do “Proudhon real” em uma obra do “Proudhon crítico”.

Já no início do capítulo Marx dispara:

“Não foi Proudhon, mas o “ponto de vista proudhoniano” que escreveu a obra intitulada O Que é a Propriedade?, segundo os informes da Crítica crítica (...) Uma vez que apenas os escritos do “ponto de vista crítico” possuem caráter por si mesmos, a caracterização crítica tem de começar, obrigatoriamente, dando um caráter a esse escrito proudhoniano. O senhor Edgar dá um caráter a esse escrito ao meter os pés pelas mãos, traduzindo-o ele mesmo. E por certo lhe dá um mau caráter, uma vez que o transforma num objeto “da Crítica”.

Para mais a diante:

Todos os desenvolvimentos da economia política têm a propriedade privada como premissa (...) Proudhon, de sua parte, submete a base da economia política, a propriedade privada, a uma análise crítica e, seja dito, à primeira análise decisiva de verdade, implacável e ao mesmo tempo científica.

É muito importante a exposição que Marx faz no capítulo VI, abrangendo a história do materialismo, quando afirma que no materialismo francês se desenvolveram duas tendências. Uma influenciada por René Descartes, que por meio do método racionalista enveredaria para um materialismo mecanicista no sentido da ciência da natureza. A outra, influenciada pelo empirismo de John Locke, avançaria para o campo da História, que viria a ser a base do Materialismo Histórico.

Esse livro, “A Sagrada Família”, obra da juventude de Marx e Engels, é recomendado para todos os que querem iniciar um estudo no sentido de se armar de um arcabouço teórico indispensável, nos dias do hoje, para analisar e caracterizar corretamente a realidade da luta de classes de nossa sociedade globalizada e extremamente complexa, para poder elaborar uma política marxista revolucionária consequente que dê as respostas necessárias para a luta da classe operária pela tomada do poder político e pela construção do Socialismo.

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