Quarta, 21 Novembro 2018

Bashar al-Assad, Putin, Xi Jinping, Lula – Que defesa?

Written by  Published in Global Economy Sexta, 20 Abril 2018 21:00
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putin lula

Uma coisa interessante é que o bombardeio da Síria pelos Estados Unidos, França e Reino Unido foi quase que uma operação em acordo com os russos e, até certo ponto, com o Irã. Houveram uma série de contatos, principalmente do primeiro ministro francês Edouard Philippe com Vladimir Putin, que era anunciado um jogo de cartas marcadas, de que haveria esse bombardeio. O próprio Donald Trump já tinha anunciado isso pelo Twitter. Tanto assim foi que o governo sírio deslocou aviões e os principais equipamentos militares para regiões controladas pelos russos,   onde existem poderosos sistemas antimísseis chamados S-45. Não houve nenhuma perda nesse bombardeio.

Os bombardeios foram efetuados em três centros de pesquisa onde supostamente estariam sendo desenvolvidas armas biológicas. Um localizado perto de Damasco e os outros dois perto da cidade de Homs a noroeste de Damasco. Não houveram mortes. O que chama a atenção é que, primeiro, esse bombardeio aconteceu na noite do dia anterior em que os inspetores da ONU relacionados às armas químicas iriam investigar na Síria. Em segundo lugar, não houve a aprovação das Nações Unidas. Ou seja, foi uma ação unilateral dos Estados Unidos, França e Inglaterra.

No caso dos europeus não houve a aprovação do parlamento europeu, nem do parlamento francês, nem do parlamento britânico. Não houve nenhuma comprovação de que realmente tenha ocorrido um ataque com armas químicas pelo governo sírio. Nós temos aí uma operação que poderia ser chamada de "mentirinha".

Agora, quais são os interesses que estão em jogo? Em primeiro lugar, no caso dos Estados Unidos, França e Inglaterra trouxe uma situação de muita crise. Nos Estados Unidos temos que Donald Trump já não é mais o governo. Ele é uma figura para "inglês ver", uma espécie de rainha da Inglaterra. Quem governa é o Hawk americano, a extrema direita. Temos agora na CIA Mike Pompeo, ex-ministro da defesa, temos John Bolton que é o conselheiro de segurança nacional e temos vários outros elementos que passaram a controlar o governo. Basicamente é uma troca de generais e alguns elementos da extrema direita, onde Donald Trump e os seus colaboradores próximos foram sendo demitidos e substituídos por outras pessoas, umas após outras. A grande demissão, tirando essa de Rex Tillerson que era o secretário de Estado substituído por Mike Pompeo, foi a de Steve Bannon que foi o grande ideólogo da campanha de Donald Trump e que viabilizou sua vitória nas eleições passadas.

Como a extrema direita impõe a guerra contra o Irã, que é uma saída de força, apesar de que esta tem levado à derrotas catastróficas, o governo Donald Trump precisava fazer um figurino. No caso da França a mesma coisa, precisavam desviar a atenção dos problemas sociais gerados com a reforma trabalhista que, apesar de ter sido passada por decreto e apesar também do governo ter maioria no congresso e não ter aprovado a reforma por meio do parlamento, há uma crise brutal no país. Na Inglaterra a crise é ainda maior com toda a questão do Brexit, etc.

Se adicionarmos a isso o aumento das contradições interimperialistas, entre o imperialismo norte americano e o europeu, fica muito claro que se tratou de um jogo de cena. Importante notar que os russos também fizeram parte do jogo de cena. Putin sabia que o bombardeio ia acontecer e os sírios também e não tomaram nenhuma medida.

Um fato muito interessante é que os sírios conseguiram por meio de um sistema antimísseis antigo, S-120 e S-200 russos derrubaram mais de 70 mísseis dos mais de 103 lançados. Os russos prometeram que vão mandar como auxílio os S-300 que já tinham sido comprados em 2008 mas que não tinham sido entregues por conta das sanções das Nações Unidas contra o governo de Al-Assad.

O que tudo isso significa principalmente em relação à esquerda? Significa em primeiro lugar que a esquerda se encontra numa etapa de decadência tão grande que ou ela fica totalmente à reboque da política entreguista de Frente Popular, de conciliação de classes como se vê claramente no Brasil em cima da prisão de Lula, ou ela adota uma posição totalmente confusa. Se coloca totalmente à reboque da política de conciliação de classes da frente popular, ou acaba adotando uma política igual, mas disfarçada, de apoio ao mal menos pior.

Aqui temos duas campanhas que precisam ser claramente definidas. A campanha de que Lula tem de ser defendido é totalmente correta. Lula tem de ser defendido da extrema direita e do imperialismo mas, conforme os mestres do marxismo têm dito, precisam ser denunciadas todas e cada uma das suas capitulações. Lula precisa ser denunciado como um promotor da política de conciliação de classes e como quem está encabeçando a canalização do movimento de massas, do movimento operário, para uma via eleitoral falida.

Num país dominado por um golpe de Estado, que evoluiu de um golpe parlamentar para um golpe de Estado do Judiciário e que está evoluindo rapidamente para um golpe de Estado encabeçado pelos militares, Lula não pode ser defendido sem denunciar isso, às cegas, é um absurdo. Ele tem de ser defendido e ao mesmo tempo tem que ser denunciado as traições ao movimento de massas.

Da mesma maneira deve ser esclarecida a situação da Síria aos movimentos de massas. Essa deve ser defendida contra os ataques do imperialismo? Perfeitamente, tem de ser defendida sim, mas ao mesmo tempo deve ser esclarecido que a política dos russos, em primeiro lugar, do Irã e da China não é a favor, como alguns da esquerda falam, do movimento operário nem nada parecido. Eles têm contradições com o imperialismo e representam setores menores da burguesia.

Precisa esclarecer que, nesse momento, os russos e os chineses encabeçam uma política que tem como objetivo realocar os dois países no mercado especulativo mundial com o controle bonapartista de Putin e de Xi Jinping. Não se trata de serem anti imperialistas . Eles fazem parte das burguesias regionais que têm contradições com o imperialismo. Então, o apoio a esse nacionalismo burguês ultra decadente da mesma maneira que o apoio às frentes populares ultra decadentes tem de ser contextualizado nesse sentido. Um apoio mas hiper condicionado, denunciando todos os podres.

O governo de Al-Assad é uma coisa parecida. É um nacionalismo burguês de quinta categoria, de decadência total. Tudo bem que ali as mulheres não são obrigadas a usar burka, têm direitos, etc., mas o ponto é que se trata da segunda onda de governos nacionalistas árabes que, a partir da crise da década passada, principalmente a partir de 2008, aceleraram muito a aplicação da política neoliberal contra as massas. Ou seja, se trata de um nacionalismo burguês decadente. Não se dá uma carta branca a esse nacionalismo. Precisa apoiá-lo estritamente no que ele se opõe ao imperialismo e esse apoio precisa ser condicionado a uma denúncia da política reacionária e contra as massas que ele aplicam.

Putin não está na Síria para defender a população, tanto assim é que tem acordos com Deus e o diabo. Tem acordo com Netanyahu de Israel  para bombardearem alguns lugares na Síria, embora, neste momento tenham colocado alguns entraves. Busca acordos com o imperialismo. Tem acordos com a Turquia. O problema é que ele é um capitalista que busca salvar os próprios lucros no Oriente Médio, em torno da guerra do gás, que temos explicado bastante, e também do comércio de armas.

Todo apoio a qualquer setor da burguesia, mesmo que seja a ala esquerda, tem de estar condicionado a uma política de independência da classe operária e em nenhum momento esse apoio pode ser dado com cheque em branco. Os ataques contra Lula, contra o PT, contra toda a esquerda precisam ser denunciados sem dúvida. Da mesma maneira precisam ser denunciadas todas e cada uma das capitulações do próprio Lula e do governo do PT que está levando o que restou do movimento de massas anterior - porque o atual movimento tende a ser ultrapassado - para o buraco, para uma via eleitoral, para eleições hiper controladas e convocadas dentro de um contexto golpista, onde o imperialismo pretende colocar um governo muito mais duro contra os trabalhadores.

Isso precisa ser denunciado em primeiríssimo lugar e, no caso da Síria a mesma coisa. Contra o imperialismo mas contra todos os conchavos que esses pseudo nacionalistas fazem com o imperialismo, sejam os chineses, sejam russos ou sejam sírios.


Por uma política operária revolucionária!
Contra o imperialismo!
Pela construção de partidos operários marxistas!

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