Quinta, 22 Fevereiro 2018

“Neoliberalismo”: a liberdade do grande capital

Published in Market Data Segunda, 26 Novembro 2012 00:00
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(26/06/2017)

Milton Friedman, o pai do neoliberalismo, faleceu em 2006. Ele esteve à frente do aparato de propaganda imperialista, como elaborador de argumentações teóricas, que fizeram parte da máquina de propaganda no processo de imposição do “neoliberalismo” em escala global como alternativa ao esgotamento da chamada política de bem-estar, a partir da década de 1960. A direita imperialista mundial tenta apresentá-lo como um dos maiores intelectuais do período posterior à Segunda Guerra Mundial, mas, na realidade, não passa de um delirante apologista do capitalismo parasitário e podre.


Friedman foi o principal ideólogo da ultrarreacionária Escola de Chicago. Além de ser um antimarxista empedernido e fanático, chegava a consider as políticas keynesianas como marxistas porque preconizavam investimentos públicos em larga escala como o antídoto para conter o aprofundamento da crise e o ascenso das massas.


As teorias de Friedman não passam de lixo intelectual reciclado, cujo ponto central é que os mercados “livres”, completamente desregulamentados e baseados no respeito aos direitos de propriedade privada e liberdade de contratos (para o punhado de parasitas que dominam o mundo), conduzem, supostamente, à liberdade plena e pura do ser humano.


Entre os principais conceitos pseudo teóricos desenvolvidos, com uma coerência teórica assustadoramente pobre, estão as teorias do “ingresso permanente”, relacionada com os gastos dos consumidores, e a do “monetarismo”.


Milton Friedman continua sendo considerado pela direita “neoliberal” como uma espécie de “Papa teórico”. Essa é a referência da política econômica imposta pelo imperialismo, em escala mundial, com o objetivo de aumentar os ataques contra as massas trabalhadoras na tentativa de conter a bancarrota do capitalismo parasitário.

 


O isolamento dos “neoliberais” após a Segunda Guerra Mundial

 

Após a Primeira Guerra Mundial, as ideias do economista britânico John Maynard Keynes predominaram no mundo capitalista, o que se generalizou, a partir de 1936, com a publicação do livro “Teoria Geral sobre o Emprego, Juros e Dinheiro”, que continha as bases da “receita mágica” para conter a depressão econômica – investimentos públicos desenfreados, principalmente no setor de armamentos. Os resultados dessa política continuaram sendo pífios. A depressão e o desemprego somente conseguiram ser controlados mediante a militarização da economia e a destruição das forças produtivas em larga escala durante a Segunda Guerra Mundial. Durante todo esse período, os neoliberais ficaram isolados e eram considerados “cachorros loucos”.


A Segunda Guerra Mundial acabou liquidando o capitalismo na maior parte dos países europeus. Keynes ajustou a “receita mágica”, declarou que “o que funcionou na Guerra deveria funcionar na paz”, e propôs a continuidade dos altos investimentos estatais como fórmula para permitir o funcionamento da economia capitalista que tinha sido devastada.


Setores enormes da economia foram nacionalizados; na Grã Bretanha, por exemplo, chegaram a 60% do total. A economia passou a ser mantida em funcionamento por meio de crescentes gastos públicos direcionados principalmente ao setor militar – o chamado complexo industrial-militar. A burguesia estruturou o chamado “estado de bem-estar social” com o objetivo de conter o avanço da revolução operária. A saúde e a educação públicas, o seguro desemprego, as leis trabalhistas e os programas sociais passaram a consumir enormes quantidades de recursos públicos.


Nos EUA, as principais universidades do País, começando por Harvard e Yale, estavam dominadas pelos figurões seguidores de Keynes, como John Kenneth Galbraith.
A partir de 1944, o mentor intelectual de Milton Friedman, o economista austríaco Friedrich Hayek, passou a lecionar na Escola de Economia de Londres, onde tentou divulgar as ideias neoliberais. No centro, estava a rejeição a qualquer tipo de intervenção estatal sob a premissa de que “o planejamento centralizado conduz ao totalitarismo”.


Em 1947, aconteceu um Congresso mundial de economistas, na Suíça, onde participaram Hayek e Friedman, mas a predominância dos keynesianos foi absoluta. Em seguida, Hayek fundou a Sociedade de Monte Pelerim, da qual Friedman fez parte – o objetivo era transformá-la num centro difusor das ideias neoliberais. Durante as duas décadas seguintes, os neoliberais continuaram sendo um grupo muito reduzido, considerados como “loucos desvairados”.


Na década de 1950, as ideias de Hayek estavam tão desgastadas que ele decidiu migrar para os EUA. Apenas uma universidade o aceitou: a ultraconservadora Universidade de Chicago, onde Milton Friedman era o principal catedrático de economia.



Ascensão do “neoliberalismo”



Na segunda metade da década 1960, chegavam ao fim os chamados “anos dourados do capitalismo”, dos quais os beneficiários foram fundamentalmente os países imperialistas.


Os movimentos estudantis de 1968 foram um claro sinal de que as coisas não estavam indo bem. No final da década, a economia começou a apresentar problemas no coração do capitalismo mundial, os EUA. Pressionado pelos gastos militares da Guerra do Vietnam e o aumento da concorrência das multinacionais imperialistas europeias e japonesas, que tinham se recuperado da devastação da Segunda Guerra Mundial, o imperialismo norte-americano passava por sérias dificuldades na tentativa de conter o aumento do desemprego e a disparada da inflação.


Hayek, sem perceber que a situação estava mudando, voltou à Áustria, em 1970, deprimido devido à rejeição que sofria. Friedman, por sua vez, fazia parte do comitê de assessores econômicos do presidente americano, Richard Nixon, que tentava estabilizar a economia ao mesmo tempo em que estava envolvido na campanha eleitoral, de 1972, pela reeleição, mas atuava mais como uma figura decorativa que prática. Era a mesma situação de outro assessor, o futuro tristemente célebre Secretário de Defesa de Bush “Pai” e vice-presidente de Bush Jr, Dick Cheney. Nixon não cortou o gasto público, manteve o controle de preços, chegou a declarar “nós somos keynesianos” e conseguiu se reeleger. Friedman renunciou ao cargo de assessor, qualificou Nixon como “o mais socialista dos presidentes dos EUA no século XX” e se dedicou às aulas na Universidade de Chicago.


Uma situação similar acontecia na Grã Bretanha. O governo conservador, apesar de ser ideologicamente favorável ao chamado livre mercado, na prática, mantinha um forte controle estatal da economia, pois temia o avanço da crise. As ideias de Hayek e Friedman eram difundidas pelo Instituto de Assuntos Econômicos, chefiado por Sir Keith Joseph. Margareth Thatcher, a futura primeira ministra, era uma das alunas e admiradora de Hayek.



A crise capitalista mundial de 1974



A crise de 1974 representou o ponto final definitivo dos chamados “anos dourados do capitalismo” e o início do fim do chamado estado de bem-estar social, pois evidenciou o fracasso da contenção da crise por meio da escalada do gasto público. O mundo caminhava para a depressão econômica e a hiperinflação.


Em 1974, Hayek declarou: “finalmente o mundo começou a se mover na direção certa”. A reacionária Academia Sueca lhe outorgou o prêmio Nobel nesse mesmo ano, mostrando a direção que o imperialismo iria impor no período seguinte.


Os neoliberais diziam que a solução para conter as pressões inflacionárias era a desregulamentação. O Departamento de Economia da Universidade de Chicago passou a ser financiado por farto dinheiro de Wall Street.


Em 1976, Milton Friedman foi projetado como um “grande economista”, recebendo o prêmio Nobel de economia. A partir daí, passou a influenciar as políticas dos governos mais reacionários das últimas quatro décadas, a exemplo das sanguinárias ditaduras militares sul-americanas; Margaret Thatcher, na Grã Bretanha; desde Ronald Reagan até George Bush Jr, nos EUA; o governo da China, nos anos de 1980, e a imposição do neoliberalismo como política mundial.

 


1980: o “neoliberalismo” como política mundial



A desgraça dos keynesianos e o ascenso dos neoliberais se acentuou com a Revolução Iraniana, de 1979; a Revolução na Polônia, em 1980; a recessão nos países desenvolvidos e a crise das dívidas públicas, de 1982, cuja ponta do iceberg apareceu no México. O mundo capitalista avançava aceleradamente à bancarrota.


O ensaio neoliberal que tinha sido feito pela sanguinária ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, passou a ser implementado em ampla escala durante o segundo governo da primeira ministra britânica, Margareth Thatcher e, logo a seguir, pela administração de Ronald Reagan, nos EUA, cujas políticas econômicas foram direcionadas por Milton Friedman.


A partir da segunda metade da década de 1990, o neoliberalismo foi imposto como política econômica global pelo imperialismo. O livro de Friedman “Capitalismo e Liberdade”, publicado em 1962, tornou-se um best-seller. A reação mundial foi de delírio com as ideias sobre a suposta liberdade econômica, a democracia e o triunfo definitivo do capitalismo sobre o socialismo.


O ascenso do neoliberalismo provocou um enorme refluxo do movimento operário e revolucionário. A base material estava na contenção da inflação por meio dos produtos manufaturados chineses extremamente baratos, produzidos pela semiescravidão da mão de obra. Vários mitos neoliberais penetraram profundamente na esquerda, inclusive nas alas mais radicais da esquerda pequeno-burguesa, tais como o de que o capitalismo seria eterno e até que o papel histórico da classe operária não existiria mais.


O neoliberalismo promoveu gigantescos ataques contra as massas trabalhadoras, o que acabou enfraquecendo os mecanismos de contenção do regime burguês. O colapso capitalista de 2007/2008 representou a derrota das políticas neoliberais, a bancarrota da direita neoliberal, deixou a burguesia sem uma política para enfrentar a crise. Isso abriu caminho para um novo ascenso das massas.



Especulação financeira “neoliberal”



Milton Friedman e o “neoliberalismo” representam os interesses dos setores mais reacionários da burguesia imperialista na tentativa desesperada de manter as taxas de lucro, desde o colapso capitalista de 1974. O próprio Friedman era amigo íntimo de Walter Wriston, o presidente do Citibank.


As teorias neoliberais, apesar de serem extremamente precárias e de cunho semi-religioso, deram sustentação ideológica às políticas neoliberais que promoveram a disparada da especulação financeira por meio da eliminação das regulamentações, do sucateamento e repasse das empresas públicas para as multinacionais, dos cortes dos programas sociais e dos ataques em larga escala contra os trabalhadores.


As ideias elaboradas por Friedman, nos anos de 1960, predominam entre os governos burgueses até hoje. A teoria conhecida como “monetarismo” propõe resolver as contradições fundamentais do capitalismo com operações meramente monetárias. Trata-se do principal mecanismo usado pelos governos burgueses para controlar a inflação, junto com impostos, desregulamentação, controle de renda e cronismo (relações das empresas com o governo). “A inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário”. A produção real seria um aspecto secundário.


No livro “Uma história monetária dos Estados Unidos”, publicado em 1963, em coautoria com Anna J. Schwarts, Friedman justificou a monetização da dívida pública em larga escala. A ideia central do livro gira em torno à tese que o colapso econômico de 1929-1933 teve na origem a implementação errada da política monetária. Se os governos tivessem emitido moeda podre em quantidades maiores, a crise, supostamente, não teria acontecido. Como teoria, é ridícula, mas como política, tem sido transformada atualmente no principal mecanismo para garantir os lucros dos capitalistas.


Segundo Friedman, as baixas taxas de crescimento seriam provocadas “pelas tentativas de controlar os investimentos privados de uma maneira muito rígida e detalhada”, além da “tentativa de fazer demasiado no setor público”, o que feriria a democracia e as liberdades individuais. Na prática, todas as políticas neoliberais, desde as que foram implementadas pela sanguinária ditadura de Augusto Pinochet até os planos de austeridade atuais, têm muito pouco de liberdade e democracia e têm como base a espoliação e repressão das massas trabalhadoras com o objetivo de garantir o lucro dos capitalistas a qualquer custo.



“Neoliberalismo” e revolução



A importância do entendimento do “neoliberalismo” para a luta revolucionária reside na necessidade de caracterizar o capitalismo no estágio atual. É possível conter a crise capitalista? É possível evitar a depressão econômica e a hiperinflação? O capitalismo é eterno ou seu desaparecimento é inevitável? E se a resposta for afirmativa, ele deverá ser substituído pelo socialismo? Qual socialismo? A revolução é inevitável? Se sim, a classe operária será a classe dirigente que conduzirá a humanidade à eliminação da exploração do homem pelo homem, conforme Marx tinha escrito no “Manifesto do Partido Comunista”?


Nos últimos quarenta anos, a implantação das políticas neoliberais provocou o refluxo do movimento operário, mas conduziu ao colapso capitalista de 2008. Para o punhado de especuladores financeiros que domina o mundo, esse período foi uma maravilha em termos de lucros e farra com recursos públicos. O efeito colateral foi que os estados burgueses passaram a concentrar a crise capitalista em grau tal que as multinacionais somente sobrevivem em cima desses recursos públicos – o endividamento atingiu níveis históricos, é crescente e é o fator determinante para que não haja “saída” possível para “conter” a crise capitalista, além de mais políticas neoliberais. O neoliberalismo, na prática, é o keynesianismo aplicado exclusivamente em favor dos capitalistas, com ataques em escala crescente contra os trabalhadores, acompanhado de altíssimas doses de propaganda demagógica e de ataques contra as liberdades democráticas.

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