Quarta, 25 Abril 2018

Os algoritmos do Facebook

Published in Últimas notícias Quinta, 01 Fevereiro 2018 00:00

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Você já foi censurado pelo Facebook? Foi suspenso de fazer postagens ou até mesmo comentários? Se afirmativo você caiu na malha fina do exército de moderadores pagos pelo Facebook, mas quem tomou a decisão das sanções foi um algoritmo. O algoritmo é uma espécie de robô, uma inteligência artificial, que não identifica emoções, piadas, figuras de linguagem, ironias ou metáforas. Mas ele é capaz de tolher ou colocar em destaque coisas sem a menor relevância para os seus posts: você já deve ter percebido que muitas vezes coloca uma opinião relevante e ela passa despercebida pela grande maioria, mas em outras vezes coloca algo completamente banal e isso tem um retorno que você não esperava? Pois é, o algoritmo do Facebook está trabalhando. Mas não é só o Facebook que opera dessa forma. Quem posta vídeos no Youtube sabe que se usar uma imagem ou música poderá ter seu vídeo suspenso em segundos, não porque tem um moderador vigiando-lhe, mas por causa de um algoritmo que identifica a autoria da música e impede que você a use em seu vídeo. É pura matemática? Sim e não, porque a matemática aí é controlada obedecendo a interesses determinados.

O algoritmo é uma ou diversas fórmulas para solucionar um problema ou fazer escolhas no sentido de alcançar um objetivo desejado. Por exemplo, fotos de pessoas nuas serão barradas imediatamente, ou  se aceitas, podem vir com restrições em que o usuário faz a opção de continuar informando, por exemplo, a idade determinada pelo algoritmo, que pode ser de 18 anos ou mais. Portanto, se você acha que encontra no Facebook tudo o que você quer, lembre-se de que ele é capaz de mostrar-lhe apenas o que ele “quer”. São quase dois milhões de pessoas no mundo recebendo o que é mais lucrativo para eles. Portanto, mais que uma questão de matemática temos aí uma questão política, em que ideologias e interesses comerciais são dirigidos.

É isso que o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, resolveu fazer: chegará a você primeiro as postagens daqueles que você determinou como parentes, depois os amigos, depois amigos dos amigos. As postagens de páginas dedicadas ou fanpages não lhe chegarão tão facilmente. Tudo é, portanto, controlado em grande medida, e esse controle aumenta justamente no momento em que existe, pela identificação de pesquisas, um grande crescimento do acesso a notícias através das redes sociais. O Facebook estaria se tornando por demais politizado? Mas se a política tem sido a causa de grandes sofrimentos, não seria melhor retirá-la do grande público? As pessoas não seriam mais felizes curtindo receitas de bolo e a cor do vestido da festa de 15 anos? O admirável algoritmo novo do Facebook estaria apenas criando um lugar de piquenique muito mais prazeroso, em sua concepção, contudo, a inveja, a ira que subjaz a uma curtida ou elogio ele não pode medir.

 

Mas se você insistir

 

A Polícia Federal – uma instituição imparcial, neutra, apartidária, laica e tudo mais que inspira confiança – vai intervir juntamente com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), numa força-tarefa, para atuar em relação aos “fake news” (notícias falsas) na “disputa” eleitoral de 2018. Reuniões com representantes do Google e do Facebook já estão acontecendo para estudar as formas mais eficazes de alcançar os objetivos desejados. E quais são eles? Aí a questão se complica. Numa sociedade dividida em classes, onde uma pequena minoria controla tudo e se beneficia de quase todos os recursos produzidos pelos trabalhadores não é difícil identificar (por evidências irrefutáveis) quais interesses serão protegidos.

Tanto a PF quanto o TSE têm acordo nos supostos benefícios que os cidadãos terão com a parceria, como por exemplo, na emissão de passaportes, que se dará de forma muito mais rápida já que estes dados serão repassados de uma instituição à outra. Mas a preocupação central é de que as falsas notícias podem prejudicar candidatos e até mesmo cidadãos comuns, sendo que o Brasil não tem uma legislação moderna sobre a questão. Mas qual país tem? As falsas notícias não nasceram com as redes sociais, haverá equidade num país onde as autoridades como a Justiça e a própria Polícia Federal fazem vazar gravações da Presidente da República?

O fato que salta aos olhos é que estamos em meio à maior crise econômica da história do capitalismo, tudo se desagrega à luz do dia e as grandes corporações vão fazer de tudo para manter o controle, noite e dia, das informações deixando vazar o que lhes é de interesse através de algoritmos e agentes, tentando cercar por todos os lados, não deixando brechas ou fissuras, monitorando para que o mundo pareça o melhor dos mundos possíveis. Sem utopias para que todos repitam sem remorsos que o capitalismo e sua excrescência, o neoliberalismo, são inevitáveis. Portanto, vai permanecer aquela sensação de que você é livre e pode realmente, através da sua liberdade de se expressar, influenciar o mundo com suas opiniões nas redes sociais. Pouca gente lê o que você publica e se quiser atingir um público maior tem que pagar. E mais, suas publicações não serão vistas de forma aleatória, o algoritmo está lá guiando tudo.

Não foi por acaso que o Facebook comprou o WhatsApp por 22 bilhões de dólares em 2014. Todo mundo paga no pacote de dados dos celulares ou na internet em casa, mas o mais valioso de tudo isso é a quantidade de informações, inclusive algumas muito íntimas, que o Facebook centraliza. Coleta todos os tipos de dados, quase tudo que os usuários fazem e publicam desapercebidamente. Só para se ter uma ideia do seu tamanho e como está se alastrando rapidamente, só em 2016 o Facebook arrecadou mais de 28 bilhões de dólares, 57% a mais que em 2015. Grande parte dessa receita vem de publicidade muito bem dirigida pelos algoritmos, não é por acaso que se você clica na propaganda de um tênis, ou simplesmente a deixa na tela por alguns instantes, essa propaganda ou outras similares vão aparecer para você daí por diante.

Marx, no Manifesto Comunista, de 1848, escreveu: “A burguesia suprime cada vez mais a dispersão dos meios de produção, da propriedade e da população. Aglomerou as populações, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos”. E sarcasticamente mais à frente completa: “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar a imensa maioria da sociedade de toda propriedade.” Hoje é assim com os meios de comunicação de massas e com a propriedade em geral.

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