Quinta, 22 Fevereiro 2018

Socialismo pequeno burguês e os negócios da CIA – Parte 2

Written by  Published in Global Economy Segunda, 04 Dezembro 2017 00:00
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Para quem pensa que a CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos) faz espionagem receptiva através de gravações, filmagens, rastreamentos etc., pode até se assustar com os outputs derivados como “políticas afirmativas” que vão de golpes de estado à “guerra cultural”. Seus agentes espalhados pelo mundo inteiro, quase sempre fetichizados como James Bond, podem ser um simples professor da High School ou um pesquisador universitário com reconhecimento internacional pelas suas teorias “complexas” e “profundas”.

Hoje é público o financiamento que a CIA fez, direta ou indiretamente, por meio de instituições como a Fundação Ford e a Fundação Rockfeller, a intelectuais e instituições de todo o mundo, principalmente durante a chamada Guerra Fria. Esses financiamentos continuam. Os livros de Frances Stonor Saunders, “Modern art was CIA 'weapon'” (1995) e “Quem pagou a conta?” e “A CIA na guerra fria da cultura” (2008) dão conta da promiscuidade que intelectuais “críticos” da “esquerda democrática”, na sua grande maioria ligados à “teoria das opressões”, mantêm com a política imperialista para o combate ao socialismo.
 

A “superação” burguesa do marxismo

Há 50 anos, era fundado o Congresso pela Liberdade da Cultura, organizado nos bastidores da CIA e financiado por ela. Depois de uma denúncia do The New York Times e da Revista Ramparts, a entidade passou a ser financiada pela Fundação Ford. Em seu livro “The CIA Bristish left and the Cold War”, o professor da Universidade de Bristol, Hugh Wilford, relata as atividades da Agência por meio da frente Farfiel Foundation, que financiava diversas atividades culturais e intelectuais no mundo. O objetivo central seria desacreditar o marxismo, tirando-lhe o foco da luta de classes e colocando em seu lugar “distrações”, como preocupações com “arranjos democráticos” a partir das superestruturas, ou seja, com a democracia burguesa formal. Transformar intelectuais marxistas mais radicais em penduricalhos do reformismo, nada que atrapalhasse os negócios dos grandes oligopólios norte-americanos.

Os intelectuais franceses que faziam certa frente à ultradireita europeia, tiveram especial atenção para arrefecer seu ímpeto marxista. Michel Foucault, em especial, foi posto a cumprir o papel de avisar aos desavisados que os revolucionários no fundo buscariam as tradições mais autoritárias que o estalinismo perpetuou. Supostamente, o “esquema” teórico foucaultiano seria algo muito superior que o “esqueminha” marxista de análise do capitalismo e sua superação. Antes mesmo de conhecer um ou outro, os nossos aprendizes de intelectuais tupiniquins se apressam a escrever textos e até livros enaltecendo a superior e complexa teoria desses autores sem desconfiarem que suas antinomias revelam a ausência de qualquer exame aprofundados da inteligência.

Universidades estatais e os “negócios” das teorias pequeno-burguesas

O avanço ideológico sobre a intelectualidade da esquerda é seguida de perto por uma política de sucateamento das condições de produção teórica e, em substituição, a aplicação de uma política tecnicista nas instituições de ensino superior. O mapeamento e a formatação da produção teórica é um dos aspectos chaves para impor os objetivos do grande capital.

O controle de bolsas de estudos e pesquisas fornecidos por fundações gerenciadas por grandes grupos empresariais, que passam pela escolha dos temas mais irrelevantes para a sociedade, pelo turismo acadêmico e outras vantagens quase sempre pessoais dão a tônica para a aplicação de milhões de dólares em universidade do mundo inteiro. Nesse meio, fica cada vez mais difícil distinguir a teoria crítica independente das “complexas” teorias que reivindicam a contestação para nada mudar.

As teorias pequeno-burguesas são criadas nas universidades estatais, em “estudos” subsidiados pelas fundações dos monopólios, nos países imperialistas. Posteriormente, são “tropicalizadas” nas universidades públicas brasileiras e, a partir de aí, são divulgadas; representam e refletem a ditadura da burocracia universitária, intrinsicamente ligada à burguesia.

A estrutura de poder das universidades públicas está ligada ao poder do estado e, por esse motivo, essa burocracia aplica uma ditadura ferrenha sobre qualquer liberdade de pensamento ou crítica. Até quando fala sobre um discurso de aparência libertária, o faz com autoritarismo. O fato dessa esquerda querer que as pessoas falem de determinada maneira, e propagandear que com a mudança artificial da linguagem se resolveriam as “opressões”, se explica por representar o poder burguês constituído. Toda a esquerda pequeno-burguesa brasileira se transformou, em alguma medida, numa facção da burocracia universitária.

O marxismo universitário não passa de uma cobertura para uma estrutura burguesa. O disfarce às vezes é “quase perfeito” e chega a enganar grande parte dos desavisados. O fato dos monopólios, através da CIA ou das agências patrocinadoras da cultura, reforçarem seu apoio aos intelectuais de esquerda se deve ao prestígio que estes têm no meio acadêmico, pelo fato de terem se posicionado contra os regimes ditatoriais ao passo que os conservadores ficaram desacreditados ao apoiarem regimes fascistas.

No eixo, a tentativa de desacreditar o marxismo

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Segundo o historiador argentino Pablo Pozzi, “entre os historiadores franceses do pós-guerra, a influente escola ligada a Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel arrasou os historiadores marxistas tradicionais. A escola de Annales, como é conhecida pela sua principal publicação, virou do avesso a investigação histórica francesa, principalmente desafiando primeiro, e rejeitando depois, as teorias marxistas do desenvolvimento histórico. Embora muitos dos seus exponentes pretendam estar dentro “da tradição marxista”, a realidade é que apenas utilizam o marxismo como um ponto crítico de partida […] para concluir que as noções marxistas sobre a estrutura do passado - de relações sociais, do padrão dos factos, e da sua influencia a longo prazo - são simplistas e inválidas. [...] No campo da antropologia, a influencia da escola estruturalista ligada a Claude Lévi Strauss, Foucault e outros, cumpriu essencialmente a mesma função. […] cremos ser provável que a sua demolição da influência marxista nas ciências sociais perdure como uma contributo profundo tanto em França como na Europa Ocidental.”

Segundo ainda Pablo Pozzi, o essencial era não só desacreditar o marxismo como teoria, como também quatro aspectos vinculados entre si:

  1. Fraturar a esquerda cultural em diversos movimentos por meio do que se denomina “políticas de identidade”. Neste sentido, as reivindicações de classe, o conceito em si, e a luta de classes como motor da historia, diluem-se numa grande quantidade de movimentos diversos, sem que nenhum aceite a primazia do conceito básico do marxismo, as classes sociais: estes intelectuais de Nova Esquerda opor-se-ão “a qualquer objetivo de unidade da esquerda”.
  2. Desvia-se a atenção do capitalismo (e dos Estados Unidos) como causador dos problemas do mundo, para problemas como o consumo, a falta de democracia ou de educação (e a União Soviética). “O anti sovietismo converteu-se na base de legitimidade do trabalho intelectual”.
  3. Torna-se difícil mobilizar as elites intelectuais em oposição às políticas imperiais dos EUA, visando a fraturar sectores médios da classe operária. De fato, sublinha que “há um novo clima de antimarxismo e de anti sovietismo que dificultará a mobilização de uma oposição intelectual às políticas dos Estados Unidos”.
  4. Equiparava-se o marxismo com “anti-cientificidade”, e o compromisso político de esquerda entre os intelectuais é considerado como «pouco serio» e “subjetivo”: os intelectuais da Nova Esquerda estão “menos dispostos a envolver-se e tomar partido”.

Muito do que se coloca no documento não é novo, embora constitua uma confirmação da importância que a CIA atribuiu às novas tendências intelectuais na sua luta antimarxista. Um elemento notável é que não faça quase referência aos volumosos fundos que a CIA destinou a captar intelectuais de esquerda. Por exemplo, Frances Stonor Saunders (“A CIA e a Guerra Cultural”) indicou que a Agencia não informava o governo norte-americano de que estava financiando diversos projetos “de esquerda” que contribuíram para afastar seres humanos de objetivos igualitários ou classistas. De fato, um dos aspectos que ela revela é que a CIA preferia “marxistas reformados” aos tradicionais conservadores e direitistas. Por “reformados” entendia-se aqueles esquerdistas que se tinham decepcionado com o comunismo, ou eram críticos da URSS.

Intelectualidade movida a dinheiro de sangue

A promoção de intelectuais “reformados”, em especial os pós-marxistas, foi acompanhada por importantes recursos económicos, acesso a editoras e meios de comunicação, e inclusive a nomeações académicas. Assim, refere o documento, diversas obras de personagens como André Glucksmann e Bernard Henri Levy converteram-se em best-sellers. Por exemplo, segundo Tom Braden, que foi diretor da Área de Organizações Internacionais da CIA, a Agencia comprou milhares de exemplares das obras de Hannah Arendt, Milovan Djilas, e Isaiah Berlin para os promover. Outro exemplo, não mencionado pelo documento, é que a VIª secção da École Pratique des Hautes Etudes, que alojava Lucien Febvre e Fernand Braudel, foi estabelecida em 1947 com um financiamento recebido através da Fundação Rockefeller. E foi depois financiada através da Fundação Ford, incluindo os dinheiros e influencias necessárias para se converter em École Pratique des Hautes Etudes en Sciences Sociales, com legitimidade para outorgar títulos universitários.

O que vemos aí é que nossos socialistas pequeno burgueses sucumbem ao “modismo” criado, seja para conseguirem bolsas, financiamento para pesquisa, viagens, participação em seminários em detrimento de uma ação revolucionária e no abandono do marxismo por meio de disfarces nem sempre sutis, em que cassam os revolucionários através de verdadeiros fãs clubes em torno de nomes que nada produzem para libertar a classe trabalhadora da exploração.

As bolsas fazem parte do mecanismo da burocracia universitária funcionar, colocando o movimento estudantil totalmente sob controle do esquema burocrático, reacionário, corrompido por dinheiro. As bolsas de estudo são a porta de entrada para privilégios, como o acesso ao mestrado, doutorado, PHDs, fora do País; é o recrutamento inicial de quadros que se especializam em arrecadar grandes volumes de recursos e fazer parte da burocracia universitária. Quando uma pesquisa escapa dos cânones estabelecidos quase sempre esbarra na falta de verbas para ser realizada.

Apesar do aprofundamento da crise do regime, a situação política não mudou substancialmente. A esquerda pequeno-burguesa passa ao escalão do esquema repressivo, com um verniz eleitoral, onde essa esquerda ganha eleições por meio dos bolsistas e dos professores bolsistas. Um sinal da crise é que a direita tomou o controle diretamente em várias universidades.

Esses esquemas mostram que o “neoliberalismo” ainda está funcionando a todo vapor: tudo se relaciona com dinheiro e corrupção. É o mesmo esquema dos sindicatos, que têm se tornado organismos mais intensamente burocráticos, o que é um sinal de crise.

A situação ainda não se deteriorou ao ponto de botar tudo abaixo e provocar a mobilização da classe operária. Enquanto a situação persistir, o partido operário terá dificuldades inevitáveis para crescer. É preciso levantar uma política dirigida pelo controle das bolsas que deveria ser feito pelo movimento estudantil.


Leia ainda:
Socialismo pequeno-burguês e "teoria das opressões" – parte 1
http://www.gazetarevolucionaria.com.br/index.php/component/k2/item/56-pb1

 

 

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