Quarta, 20 Junho 2018

Guatemala, no quintal traseiro dos Estados Unidos

Written by  Published in Global Economy Domingo, 19 Novembro 2017 22:00
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banana

A Guatemala está localizada na América Central e com um território de 108.889 km², produz basicamente alimentos, mas tem uma das maiores taxas de desnutrição do mundo e 60% da sua população vive abaixo da linha de pobreza, ganhando menos de 2 dólares por dia. Mais de 50% de sua população encontra-se na zona rural e a grande maioria é de origem maia.

O País viveu uma guerra civil declarada entre 1960 e 1996, quando cerca de 200 mil pessoas foram mortas e mais 40 mil desapareceram pelas mãos do Exército.  O ápice da repressão ocorreu durante o governo do general Mejía Victores (1983-1986) que deu um golpe dentro do golpe, acusando o governo do também general Ríos Montt de ser corrupto.

A guerra civil remonta ao golpe de estado planejado pela CIA que derrubou o presidente coronel Jacobo Arbens em 1954, que foi substituído pelo general, ligado a esquadrões da morte, Carlos Castillo Armas, que depois foi assassinado, em 1957, e substituído por outro general, Enrique Peralta Azurdia. Jacobo Arbens havia desafiado o poder da United Fruit Company (norte-americana), ao promulgar a lei da reforma agrária, que possuía mais da metade das terras férteis da Guatemala, tinha o monopólio das ferrovias e era dona do único porto comercial do país.

Monopólios e golpes encabeçados pela CIA


A United Fuit Company solicitou ajuda do governo dos Estados Unidos e o secretário de estado John Foster Dulles que era acionista empresa, e seu irmão, Allen Dulles que era diretor da CIA, se puseram à frente da articulação do golpe de estado. O governo golpista revogou todas as leis que contrariavam os interesses da UFCo.

Em 1960, aconteceu um novo golpe militar. A revolta se iniciou em cima de uma campanha de corrupção na cúpula das forças armadas e também pela descoberta do treinamento de forças paramilitares no País pela CIA. Os Estados Unidos que então aplicavam a política da “guerra contra o comunismo” e tentavam combater a influência da Revolução Cubana na América Latina, continuaram apoiando o presidente Ydígoras Fuentes. Os revoltosos foram derrotados e muitos deles formaram grupos guerrilheiros que levou à guerra civil que durou 36 anos. Dentro do Exército, houve uma depuração, onde os elementos mais reacionários foram eliminando os mais nacionalistas.

 

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Entre 1954 e 1963, o governo golpista teve um caráter bonapartista e irá endurecer em 1963, “quando ocorre o terceiro evento marcante da história recente da Guatemala, o golpe contra Miguel Ydígoras Fuentes nas vésperas da convocação do processo eleitoral no país” (do livro “À sombra das ditaduras”).

Em 1963, o Coronel Enrique Peralta Azurdía, que encabeçou o novo governo, impôs a elaboração de uma nova Constituição. Em 1966, eleições presidenciais são convocadas; é eleito um civil, Júlio César Mendes Montenegro, mas os militares impuseram a independência das forças armadas e continuaram governando a partir dos bastidores.

O imperialismo controlando o País por meio do Exército
 

A Guatemala sempre esteve governada diretamente ou indiretamente pelo Exército. O terrorismo de estado apareceu nos esquadrões da morte num ambiente promíscuo com empresas norte-americanas e operações guiadas pela CIA. Em 1996 um acordo de paz foi assinado. A frente guerrilheira Unidade Revolucionária Nacional da Guatemala (URNG) entregou as armas; foram anistiados todos os militares assassinos que continuaram livres e atuando no país, mesmo os oficiais que praticavam a política da “terra queimada” que consistia em atear fogo em aldeias inteiras para punir possíveis colaborações com guerrilheiros.  A única parte do Acordo cumprida foi a entrega das armas por parte dos guerrilheiros.

O sanguinário general Mejía Victores morreu, em 1 de fevereiro de 2016, sem pagar pelos crimes, da mesma maneira que foi imposto na auto-anistia geral dos militares. Um único caso teve o julgamento finalizado, em fevereiro de 2016, quando dois ex-oficiais foram declarados culpados de crimes contra a humanidade pela escravidão sexual e doméstica e a violência sexual contra 11 mulheres indígenas do Q'eqchi. 

Em 5 de julho de 2005, foi encontrado no centro da capital da Guatemala em um edifício usado pela Polícia Nacional, um acervo com milhões de páginas abandonadas que continham dados, como nomes, idade, fotos, etc. dos milhares de mortos pela Ditadura, inclusive dados de crianças que foram arrancadas dos pais e apropriadas por membros das forças armadas para serem adotadas ou simplesmente para serem usadas como serviçais em suas casas. Os 80 milhões de documentos encontrados ainda estão sendo estudados. O nada curioso disso tudo é que tanto o governo dos Estados Unidos como as autoridades da Guatemala negavam a existência de documentação sobre mortos e desaparecidos. Além das revelações aterrorizantes que os documentos têm trazido à luz, como por exemplo, as experiências com doenças sexualmente transmissíveis feitas a pedido do governo norte-americano. (Todos documentos digitalizados até agora podem ser consultados em https://ahpn.lib.utexas.edu).

Em 1985, os militares deixaram formalmente o governo, dando lugar a um sistema político bastante parecido com o brasileiro, mas com um poder legislativo unicameral. Os principais partidos políticos são a União Nacional da Esperança (UNA), a Grande Aliança Nacional (Gana), o Partido Patriótico (PP) e o Partido Republicano Institucional (PRI), todos de direita, menos os dois últimos que são de extrema direita.

Uma “paz norte-americana”
 

Recentemente, Rigoberta Menchu, prêmio Nobel da Paz de 1992 e advogada dos povos indígenas criticou a assinatura do Acordo de Paz em 1996, pois o crime organizado e seu braço armado os “maras” ainda continuam matando e mais que na época da guerra civil. A situação de extrema pobreza em que vive a maioria da população é um prato cheio para o recrutamento dos traficantes de drogas, sendo que a desnutrição atinge 49% da população num país que produz basicamente alimentos.

Segundo o relatório da Anistia Internacional (2016), os defensores dos direitos humanos e ambientais são os mais perseguidos na Guatemala. As mulheres representam mais altos fatores de risco de morte, com menos de 4% dos feminicídios punidos.

Uma média de 15 dirigentes sindicais são assassinados todo ano, ficando atrás apenas da Colômbia, principalmente nas plantações de café e banana controladas por multinacionais estrangeiras.

 

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