Quarta, 21 Novembro 2018

A esquerda está fraca? (Parte 1)

Quarta, 08 Novembro 2017 22:00
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chaplin


Uma tese bastante difundida é de que o movimento dos trabalhadores está paralisado porque a esquerda está fraca. Mas, na realidade, todos os setores políticos se encontram enfraquecidos devido à crise generalizada e à impossibilidade da burguesia colocar em pé uma política alternativa ao chamado “neoliberalismo”.

Todo o regime político está fraco, desde a esquerda burguesa, passando pelo centro até a própria extrema direita que avança, mas com muitas dificuldades. Existe uma divisão na própria burguesia imperialista que tem se acentuado com o aprofundamento da crise capitalista.

Avaliando as experiências do passado, temos os cem anos da Revolução Russa. A classe operária russa era extremamente fraca em 1917. O Partido Bolchevique apesar da clareza e combatividade era pequeno e além disso, havia o colapso da socialdemocracia que contava com partidos enormes; os mencheviques eram mais numerosos, mas os bolcheviques, em cima de uma política correta e firme ,conseguiram liderar a revolução e conduzi-la à tomada do poder. Anteriormente, em 1915, na Conferência de  Zimmerwald  e depois, em 1916, na Conferência Kienthal, havia-se iniciado a rearticulação internacional da esquerda revolucionária da socialdemocracia que era uma pequeníssima minoria dos militantes. O Partido Social-Democrata Alemão tinha mais de um milhão de filiados e, neste, apenas alguns milhares faziam parte da ala esquerda.

A esquerda revolucionária durante o stalinismo

O stalinismo tem a sua origem no enorme atraso e destruição generalizada na União Soviética, por causa da guerra, que acabou num enorme isolamento após a derrota das revoluções na Europa. O atraso, o fortalecimento da pequeno burguesia com a NEP (Nova Política Econômica), a desmobilização de milhões de soldados e oficiais do Exército Vermelho, assim como a pressão dos restos do czarismo deram lugar a uma nova camada social burocrática, que se colocou por cima das massas. Essa camada acabou colocando à frente, como o próprio líder um antigo revolucionário bolchevique, um prático com pouca visão teórica, Joseph Stalin. O stalinismo começou a controlar os aparatos do Partido e do estado entre os anos de 1922 e 1926. Nos processos de Moscou, que aconteceram na segunda metade da década de 1930, os dirigentes da Revolução de Outubro e os militantes da Oposição de Esquerda, liderada por Leon Trotsky, foram massacrados. O stalinismo acabou implodido por conta do desenvolvimento das próprias contradições internas.

A partir do controle do estado soviético, a burocracia soviética impôs uma política desastrosa para a classe operária mundial que acabou levando a derrotas muito importantes e deixando a esquerda revolucionária em situações extremamente difíceis. A aliança com a burocracia sindical inglesa levou à derrota do enorme movimento grevista de 1926. A Revolução Chinesa de 1926-1927 acabou sendo derrotada após o massacre de 5.000 comunistas na comuna de Canton, pelo Kuomintang, como produto da política estalinista que impunha a entrada do Partido Comunista Chinês no Kuomintang. Mais escandaloso ainda foi a subida de Hitler na Alemanha em 1933, onde existia um Partido Comunista com quase um milhão de membros, que não deu um único tiro. Pouco em seguida começou a intervenção na Espanha que levou à derrota da revolução por causa da política de frente popular, de conciliação de classes, com os governos dos Republicanos e Socialistas. A isso se somou em 1937 um verdadeiro golpe de estado na Catalunha, conduzido pela própria GPU (a antiga KGB) e que acabou esmagando a CNT (a anarquista Confederação Nacional dos Trabalhadores) e o POUM (o Partido Operário de Unificação Marxista), os órgãos de poder popular, as milícias operárias e camponesas, assim como as principais lideranças. Não por acaso, essa política abriu caminho à vitória do General Francisco Franco e dois anos mais tarde foi assinado o pacto Pacto Molotov-Ribbentrop entre a Alemanha nazista e a União Soviética. A confusão em relação ao caráter da União Soviética, entre a esquerda revolucionária, se generalizou apesar dos esforços de Leon Trotsky para orienta-la, principalmente no famoso livro “Em defesa do marxismo”.

Em 1935, o VII Congresso da Internacional Comunista tinha declarado que a luta, agora, era pela democracia, contra o fascismo, deixando de lado o princípio básico do marxismo, como reflexo da luta de classes, que coloca como contradição fundamental a luta entre a burguesia e o proletariado. Em cima dessa política, o stalinismo participou da frente popular francesa que incluía o Partido Socialista e o Partido Radical e que esmagou as tendências revolucionárias na França, que tinham se aberto com a greve geral de 1936.

Após a Segunda Guerra mundial, a frente única que existia entre o imperialismo e a União Soviética esmagou a revolução na França, onde a Resistência e uma parte importante da população tinha se armado. Na Itália, a classe operária tinha ocupado as principais fábricas. O Secretário Geral do Partido Comunista Italiano, Palmiro Togliatti, foi enviado diretamente de Moscou para acabar com as ocupações e desarmar a população; ele próprio entrou no governo encabeçado pelo ex general fascista Bodoglio, dentro da política que tinha sido estabelecida nas três famosas conferências que aconteceram no final da Guerra, principalmente na de Yalta. Em cima dessa política, foram esmagadas duas revoluções na Grécia (1944 e 1948) e um grande número de revoluções em vários países coloniais na África, na Ásia.

Um relato muito interessante que ilustra como era muito difícil de se militar naquela época é uma nota, de 1947, escrita pelo dirigente do POUM, Gorkin, exilado no México, com motivo da morte do revolucionário russo-belga Victor Serge. Gorkin conta que após o assassinato de Leon Trotsky, em 1940, houve uma enorme pressão do stalinismo a partir da própria embaixada da União Soviética para que Gorkin e Serge não conseguissem fazer palestras em absolutamente nenhum lugar. Ele relata que em um determinado momento, em 1943, eles conseguiram uma espécie de sala de cultura para discutir o andamento da Guerra; no meio da palestra,  aparecerem 200 militantes estalinistas armados para implodir a conferência. Portanto, os militantes revolucionários durante essas décadas enfrentaram mortes, ataques com todo tipo de violência, fortes pressões. Havia mecanismos de contenção da luta, amparados em aparatos ligados ao Estado soviético que naquele momento estava aliado principalmente com o imperialismo norte-americano. E ainda haveria vários outros exemplos das décadas seguintes.

Podemos dizer que a esquerda revolucionária sempre enfrentou enormes dificuldades, principalmente nos períodos de refluxo.

Last modified on Quinta, 09 Novembro 2017 19:21

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