Segunda, 18 Junho 2018

Che Guevara: Por trás do mito

Published in Market Data Sexta, 20 Outubro 2017 22:00
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guevara1964

 

Para entender como o Che Guevara se transformou no mito que ele é hoje, é preciso entender como Ernesto Guevara se converteu no Che Guevara.

Ernesto Guevara tinha como origem uma família de intelectuais de esquerda, na Argentina. Desde jovem, ele fez algumas viagens na América Latina que o impactaram profundamente. A primeira delas, a mais marcante, foi a visita à Bolívia em 1953, que se encontrava sob a pressão da Revolução de 1952, uma revolução operária que tinha onde liquidado o Exército, tinha formado as milícias operárias e a COB, a Central Operária Boliviana. Foi a primeira e única revolução, em grande medida, dirigida por um partido trotskista, o POR, Partido Operário Revolucionário, dirigido por Guillermo Lora, mas que acabou fracassando devido à capitulação ao nacionalismo burguês boliviano, ao MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), encabeçado por  Paz Estenssoro. O MNR acabou colocando, por meio de uma série de manobras, um freio a essa revolução que foi a primeira revolução operária na América Latina.

Em uma viagem seguinte, em 1954, Ernesto Guevara e o amigo dele Granado chegaram à Venezuela. Como médicos, eles participam do trabalho com tuberculosos e leprosos que os impactou fortemente. Logo a seguir, sozinho, Ernesto Guevara continua para a Guatemala onde vivenciou o golpe de Estado que o imperialismo norte-americano levou a cabo contra o governo nacionalista de Jacobo Arbenz. Esse golpe foi financiado pela United Fruit Company que era um monopólio da área de alimentos que controlava todo o mercado de bananas no País e que foi orquestrado pela CIA. Se destacou o papel hiper capitulador do próprio governo nacionalista e do Partido Comunista da Guatemala, que conformavam um governo de conciliação de classes, um governo de frente popular, em que se recusaram a armar a população para enfrentar o golpe.

De Ernesto Guevara a Che Guevara

Che Guevara foi para o México onde conheceu Fidel Castro e os demais revolucionários cubanos que estavam organizando uma insurreição armada em Cuba. Ele passa a fazer parte dessa insurreição, desse grupo; ele se integra inicialmente como médico, no novo exército guerrilheiro. Durante a luta, o Che se transformou em Comandante.

A Revolução triunfou em Cuba em janeiro de 1959. O Che Guevara adquire um papel muito importante na luta contra a burocracia. Ele assumiu papéis de enorme responsabilidade como, por exemplo, presidente do Banco Central e ministro das Indústrias. Ele representou Cuba nas Nações Unidas e em várias viagens internacionais como, por exemplo, a viagem que ele fez para o Uruguai onde os países latino americanos fizeram uma reunião em 1961 e a viagem para os vários países dos chamados “Não Alinhados”, mais ou menos nessa época também. Ele também conheceu a União Soviética, a Tchecoslováquia e outros paises da Europa Oriental. Ele ficou muito impactado pelo que viu ali e passou a fazer várias críticas ao chamado “socialismo real”, principalmente, por verificar que esse “socialismo real” não tinha acabado com o capitalismo. Havia vários indícios de que a lei do valor continuava existindo; ele se tornou um grande crítico à política da União Soviética principalmente em relação ao Vietnã. Ele ficou escandalizado pelo fato que a União Soviética e os demais países do Leste Europeu não dessem armas aos vietnamitas senão que eles as vendessem.

O internacionalismo do Che Guevara

Che se tornou uma grande personalidade da Revolução Cubana. Depois da morte prematura de Camilo Cienfuegos, de fato, foi o número dois da Revolução, após o próprio Fidel Castro. Ele sempre representou a ala esquerda do governo, do regime, da Revolução Cubana. Ele sempre esteve na linha de frente da luta contra a burocratização e procurando maneiras, inclusive como ministro da Indústria para superar o subdesenvolvimento, o atraso no País.

 

che congo

 

Che, apesar de uma série de limitações (nunca assimilou o marxismo profundamente) era um grande internacionalista, levantava a bandeira de criar dois, três, centenas de Vietnãs para fortalecer a luta do povo vietnamita e a luta contra o imperialismo na tendência a internacionalizar a Revolução Cubana. Em sua intervenção nas Nações Unidas em 1962, em seu famoso discurso, ele disse que não dá para confiar no imperialismo “nem um ‘poquitito’ assim”. A partir de 1962, a Revolução Cubana começa a se esgotar e passa a ficar dentro da égide do Bloco Soviético; se acelera a burocratização. Che rompe com essa política e acaba incentivando a política de promover a internacionalização da Revolução Cubana. Ele vai para o Congo e Fidel Castro, a partir de Cuba, passa a fomentar a chamada  OLAS (Organização Latino Americana de Solidariedade) da qual passam a fazer parte revolucionários muito famosos como, por exemplo, Carlos Marighela.

Com o fracasso da revolução no Congo,  Che Guevara vai para a Tchecoslováquia onde ficou aproximadamente um mês. De lá, de maneira clandestina, Che foi para Cuba onde fez treinamento militar e organizou um grupo, com o apoio de Fidel Castro; logo a seguir o grupo entra clandestinamente na Bolívia. Um aspecto muito importante é que Fidel, sempre atuou como um “Bonaparte”, um árbitro entre as várias alas da Revolução, representando uma ala centrista. A ala direita passou a se fortalecer a partir da pressão dos ex-dirigentes do Partido Comunista Cubano que impulsionavam a capitulação total à política burocrática da União Soviética.

Che e a classe operária

Na passagem pela América Latina, o que chama muito a atenção é a sequência de erros que Che Guevara cometeu, que são erros graves, principalmente na avaliação de conjuntura internacional, o papel da burocracia, e o papel da classe operária e o partido revolucionário.

Che achava que a classe operária se encontrava aburguesada e que ela não iria fazer a revolução. Uma pessoa próxima de Che Guevara, após sua morte, chegou a dizer que a classe operária iria fazer a revolução somente com 40 bolas; ou seja, a classe operária se encontrava totalmente alienada e, dessa maneira, nunca iria fazer a revolução.

Che propunha a teoria do "foco". Era necessário criar um foco revolucionário onde alguns militantes extremamente firmes, com uma moral revolucionária muito alta e muito decididos, coseguiriam despertar a tendência revolucionária a partir de um movimento guerrilheiro que se formasse num determinado local, principalmente onde existissem fortes ataques contra a população. Aqui temos uma incompreensão do caráter da Revolução Cubana. Che Guevara não percebeu que este "foco" que se formou em Sierra Maestra, de fato, expressou uma situação de enorme podridão da sociedade cubana, onde o próprio Fidel Castro e Che acabaram resumindo esse grau de podridão e contaram com um enorme apoio do movimento camponês e também da classe operária, dos operários do setor da cana de açúcar, ou seja, do proletariado rural, como o demonstraram a greve geral política de 1957, a greve de abril de 1958 e a greve geral que precedeu a tomada do poder em janeiro de 1959, que foi uma greve geral nacional contra o governo cubano encabeçado pelo ditador Fulgencio Batista.

Che e a América Latina

No caso da Bolívia, Che teve também uma incompreensão do próprio caráter do que foi a Revolução Boliviana de 1952. O fato de ter existido uma reforma agrária acabou paralisando o apoio do movimento camponês aos guerrilheiros encabeçados por Che na Bolívia. Além disso, a União Soviética, a burocracia que na época estava encabeçada pelo governo de Brejnev, boicotou por todos os meios a luta de Che; ela estava na linha da coexistência pacífica com o imperialismo. A partir daí, Che Guevara vai ser traído de uma maneira fragorosa e acabou assassinado a mando da CIA em outubro de 1967.

A experiência de Che gerou várias tentativa de colocar em pé focos guerrilheiros. Algumas delas foram importantes em vários países do mundo, principalmente na América Latina. Na Argentina, houve a tentativa de impulsionar um foco guerrilheiro em Tucumán, uma província ao norte do País, que fracassou profundamente. O próprio ERP (Exército Revolucionário de Povo), encabeçado pelos irmãos Santucho, tentou fazer uma nova experiência que também fracassou. Os Montoneros que seguiam a linha de Perón mas, em grande medida, eram influenciados pela Revolução Cubana também fracassaram por completo. O ERP em algum momento esteve fundido com o grupo de Nahuel Moreno, trotskista, e que depois acabou rompendo e acabou continuando com o apoio do chamado Secretariado Unificado da Quarta Internacional. Eles fez toda uma série de ações militarizadas com a tomada de quartéis, sequestros de aviões etc; algumas delas foram bem sucedidas, mas ele foi praticamente  aniquilado a partir de 1974, assim como aconteceu com os Montoneros.

Quando a Ditadura Militar na Argentina foi imposta no dia 24 de março de 1976, tanto o ERP como os Montoneros estavam praticamente extintos, estavam extremamente fracos. Ou seja, o movimento guerrilheiro praticamente tinha fracassado, e o que levou ao golpe de estado na Argentina de 1976 foi a necessidade de conter o movimento de massas que tinha se aberto em 1969 com o Cordobazo. O mesmo se poderia dizer sobre os Tupamaros no Uruguai e os movimentos guerrilheiros nos demais países.

As ditaduras, no geral, entraram no poder para conter o movimento de massas. Na Argentina, por exemplo, o movimento de massas continuou em ascenso; continuaram havendo greves durante a Ditadura Militar. O que derrotou a Ditadura Militar não foi o "foco", senão o movimento operário que teve um ascenso, principalmente, a raiz, na derrota dos militares no conflito com a Inglaterra nas Malvinas, e também da crise que tinha se instalado na Argentina após a tentativa de criar um laboratório importante das políticas neoliberais que tinham levado a um aperto contra a classe operária extremamente agudo.

O por que do mito do Che?

Os erros de Che Guevara, em princípio, deveriam tê-lo levado ao esquecimento. Mas, ao contrário, ele foi transformado num verdadeiro mito. Por que? Em parte, foi por conta da propaganda do governo cubano; mas, principalmente, houve um outro fator muito mais importante.

 

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Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda como um todo, mundial, ficou extremamente confusa. A maior parte dessa esquerda se integrou à chamada democracia imperialista, ao neoliberalismo, e fez parte da própria aplicação das políticas neoliberais. O próprio governo cubano a partir dos Acordos de Contadora, em 1983, com o imperialismo, acabou apregoando a saída pacífica para a crise na América Latina. Depois do triunfo da Revolução Sandinista em 1979, o próprio Fidel Castro chegou a falar que a experiência cubana não deveria ser repetida. A Revolução no El Salvador foi estrangulada com essa política no final da década de 1980.

Assim, durante toda a década de 1980, sob forte pressão da crise capitalista mundial, o papel da burocracia soviética como um todo e da própria burocracia cubana se tornou cada vez mais contrarrevolucionário. Em cima dessa capitulação enorme que, no Brasil, houve uma esquerda totalmente integrada à política neoliberal, impulsionada pelo imperialismo norte americano e que se materializou com o PT funcionando como ala esquerda dos governos de FHC, principalmente a partir da política das “câmaras setoriais”, que foram impulsionadas fundamentalmente a partir do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Hoje há uma esquerda totalmente enfraquecida e em crise, uma esquerda burguesa e pequeno burguesa integrada ao regime burguês. No caso do Brasil, o PT não tem apoio de massas, organizado, não tem militantes na base; a maioria dos que ainda restaram  são basicamente burocratas ou,  no melhor dos casos, militantes não orgânicos, militantes que atuam como simpatizantes, mas que no geral rejeitam a política calhorda de traição contra os trabalhadores.

O mesmo poderia se dizer da burocracia sindical como um todo. Nesse sentido, em cima da grande figura de Che Guevara como um revolucionário com uma alta moral, como alguém que abandonou uma série de privilégios que tinha como ministro de Estado etc., para ir para a luta em cima da revolução mundial, nós temos uma figura que calou forte no imaginário popular. Como figura de um revolucionário firme, que não se vende ao capital, ao imperialismo e que representa basicamente a perspectiva do que acontecerá no próximo período.

Para o próximo período, nós devemos esperar um grande ascenso operário em cima do aprofundamento da crise mundial onde, inevitavelmente, em cima do ascenso do movimento operário e de massas no mundo outros Ches Guevara inevitavelmente surgirão.

 

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