Quinta, 22 Fevereiro 2018

Por Sérgio Lessa

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Nos meios de comunicação nunca a crise que vivemos em nosso país é tratada como estrutural. Menos raro, mas ainda frequente, são as análises marxistas que concebem a crise internacional como sendo estrutural mas que, contudo, ao tratar do Brasil, o caráter estrutural da crise é deixado de lado. Como se houvesse duas crises, uma do capital mundial e outra do Brasil. Claro, a crise mundial e a brasileira não são idênticas. Longe disso. Contudo, a brasileira é uma expressão da crise do capital internacional e, desta, herda o caráter estrutural.


As crises passadas


Por mais sérias que tenham sido as crises passadas, ajustes do sistema bastavam para iniciar uma nova expansão econômica. Quando, por exemplo, a crise de 1929 tornou urgente uma maior intervenção do Estado na economia, amadureceram duas alternativas: o fascismo (Hitler e o nazismo) e o Estado de Bem-Estar. Ainda que o programa econômico não fosse idêntico, as duas alternativas compartilhavam algumas características essenciais. Propunham um Estado que realizasse grandes investimentos e grandes compras; o complexo industrial-militar absorveria a maior parte dos investimentos; o fordismo continuaria a ser a estratégia da organização da produção, etc.
Contudo, havia divergências inconciliáveis entre essas duas alternativas: criar-se-ia um mercado de massas ou se investiria na expansão militar? Quais os setores acumulariam mais capital? Como se admistraria os conflitos entre os trabalhadores e os patrões, qual a forma de incorporação dos sindicatos e partidos dos trabalhadores no Estado? Qual a amplitude e profundidade das políticas públicas (educação, saúde, transporte, segurança etc.) ? Naqueles anos, o nazismo, na Alemanha e o New Deal estadunidense eram, então, alternativas de fato, possíveis, no interior do próprio sistema do capital: a saída da crise poderia se dar em uma direção ou em outra.


A crise estrutural e a crise política


A crise atual difere das anteriores porque, pela primeira vez, não há saída capitalista para a crise. Por isso, na política restaram apenas dois grandes campos, tanto no exterior, quanto no Brasil. O campo, hoje dominante, que visa manter o capital e, do outro lado, o campo que visa destruir o capital.
O campo dos que querem um capitalismo com maior justiça social, dos reformistas em geral, termina, ao fim, realizando a mesma política de quem deseja manter o capital. A diferença de outrora, por exemplo, entre fascistas e democratas, desapareceu. Hoje, tanto a extrema direita quanto o centro, tanto os petistas quanto os partidos mais reacionários (como o PMDB ou o PSDB ou, mesmo, Bolsonaro) têm o mesmo programa econômico e, portanto, têm que executar a mesma política geral. Acima e antes de tudo quando se trata da repressão sobre os trabalhadores.
Hoje, os próprios democratas se encarregam do “trabalho sujo” da repressão: são capazes de coisas que nem Hitler sonhou! Quem mantém Guantánamo, o mais bárbaro centro de tortura que a humanidade jamais conheceu? Lembre-se que, lá, não há sequer “direitos humanos”! Guantánamo não obedece a nenhuma Constituição e os torturadores, fazem o que querem com os prisioneiros! Dimitrov, lembremos, em 1935-6, derrotou em um tribunal de Berlim os nazistas: algo inimaginável aos torturados de Guantánamo. Quem criou essa monstruosidade? A democracia estadunidense! Quais são os Estados que estão montando o maior sistema de vigilância e controle de seus cidadãos? As democracias mais avançadas do planeta, os países europeus! Nao são são essas mesmas democracias que montaram os centros clandestinos de tortura, os “buracos negros”? E, entre nós, foi a democracia que aorisionou em segurança máxima alguns indivíduos que, nas vésperas das Olimpíadas, entraram em sites do Estado Islâmico? Um deles não terminou morto um dia depois de ser transferido para uma prisão comum? Para não falar dos ainda perseguidos pelos eventos de 2013..
Do ponto de vista econômico: não são essas mesmas democracias que, lá fora, promovem uma inédita concentração de renda? Não é obra da democracia brasileira que 6 pessoas tenham a mesma riqueza que 50 milhões de brasileiros?
A direita, que hoje tem a tendência a crescer, leva à prática essencialmente a mesma política econômica que levariam os partidos ditos de esquerda, se estivessem no poder. Não há espaço sequer para diferenças: “todos eles” são farinha do mesmo saco: defendem um Estado com maior capacidade de reprimir e controlar os trabalhadores e operários. Todos defendem a mesma política econômica de aprofundamento neoliberal da loteria financeira.
No exterior e no Brasil! Entre um Temer e um Alckimin, entre um Lula e um Bolsonaro, entre um Aécio Neves e um Fernando Henrique Cardoso, entre um Alckimim e uma Marina – qual a diferença, real e de fato, entre eles? Não mais do que diferenças cosméticas, “mercadológicas”, criações demarqueteiros políticos.
Lula reprimirá os trabalhadores e fará a política econômica necessária aos patrões – tanto quanto um Bolsonaro ou um Alckimin. As diferenças são cosméticas: o PT podia até ser a favor do aborto no passado. Sob os governos petistas, a liberdade do aborto, antes clandestina e limitada, mas real, desapareceu quase por completo. O PT pode até defender um Estado laico e um ensino laico: não foi sob os governos petistas que os “fundamentalistas” mais avançaram seus programas doutrinadores, que eles chamam de “educacionais”? Distribuição de renda? Não foi sob os governos petistas que a concentração da renda foi impulsionada – inclusive por políticas públicas como o Bolsa Família? Democratização da cultura? Sob o governo do PT o domínio da produção cultural pelos grandes grupos econômicos só se intensificou. Democratização da saúde? O que dizer da hegemonia dos planos de saúde e da crise só sistema público de saúde… sob os governos petista?
Esse é um dos resultados da crise estrutural: não há mais alternativa intermediária entre o capitalismo e o socialismo. Os reformistas são tão burgueses quanto os burgueses mais burgueses! Os democratas são tão repressores dos trabalhadores quanto os não democratas.
A única real alternativa é avançarmos para além do capital. Por isso a revolução proletária é uma tarefa tão atual e tão decisiva. Na verdade, a única tarefa, pois a reprodução do capital os reformistas e burgueses se encarregam de manter.

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