Quarta, 25 Abril 2018
Por Mario Medina
 
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Gostaríamos de pensar que o Brasil está prestes a entrar numa onda de mobilização social, de aguçada consciência de classe, onde os trabalhadores sairão às ruas sedentos por justiça social e dispostos a se insurgir no mínimo movimento anti-popular deste governo golpista. 
Já pensaram?! Um Brasil às portas de sua revolução social, pra desbaratar de vez esse teatro do horror em que se transformou. Um Brasil prestes a surgir para o futuro, para acertar as contas com a distribuição de renda, para conhecer o progresso, educar suas massas, levar qualidade de vida às suas famílias, apresentar um futuro promissor às suas crianças, oferecer a seus jovens um justo ideal no qual consumir seu trabalho e sua energia. Mas infelizmente não são essas as perspectivas, e temos que, com os pés no chão, analisar friamente os fatos e prognosticar com realismo os dias que virão. 
Seria ótimo traçar um perfil da revolução brasileira, mas temos, por motivos óbvios, que nos ver primeiro com o processo de contra-revolução por assim dizer, este dos últimos meses e anos, de duro cenário de contra-reformas imposto pelo capital em vista da crise mundial do capitalismo que diminui suas taxas de lucro.
Em vista do que temos assistido em termos de retrocessos sociais, comparando o desenvolvimento dos fatos ocorridos em terras brasileiras com a atual definição geoestratégica mundial, podemos imaginar o seguinte cenário:
Será praticamente impossível haver uma chapa nacional-desenvolvimentista eleita em alguma das próximas eleições presidenciais. A influência americana foi reestabelecida, o golpe é reflexo direto disso, e a direita mais neoliberaloide está destinada a ficar na gerência de turno do estado pelo próximo período, num estado que vai aderir ainda mais à escalada repressiva e truculenta. 
O braço do estado vai pesar sobre a população. Sobretudo nas periferias. Processo de recolonização da economia e da política brasileira com consequências duríssimas de estado policial. Tudo pra garantir o Brasil como pólo de superexploração de força de trabalho barata e como plataforma de rentismo para a farra do capital especulativo. 
Teremos um cenário de desindustrialização se acentuando, com o país fadado a se resignar com seu posto de mero exportador de commodities, como está sendo deliberado pelo imperialismo para continuar a ser na divisão internacional do trabalho. 
O Brasil como possível futura potência mundial renuncia às suas ambições para voltar à órbita estadunidense. Com algum capital chinês também, é verdade, mas muito longe de ser uma economia com vistas a intercambiar mais de igual pra igual com as potências mundiais, sejam elas dos Brics ou mais aliadas à Otan. O negócio aqui é exportar soja, gado e minério de ferro. Para acabar com qualquer pretensão de sustentabilidade.
O Brasil fadado a se tornar uma Colômbia da vida, um México, num emaranhado de cartéis do crime organizado assumindo posições no estado; um país mergulhado em sangue, convulso em meio à violência e à miséria. 
Para superar a atual condição e o lamentável prognóstico a que tal condição nos remete, seria necessário um imediato levante de massas, com poderosas greves gerais a paralisar produção e circulação de produtos, levando o povo às ruas em um processo semelhante ao de 2013, só que num movimento genuíno da classe trabalhadora, e não como as jornadas de então foram posteriormente remodeladas, capitaneadas pela direita que tinha interesse em não mexer nas estruturas de poder estabelecidas.
Somente um tal movimento de massas teria condições objetivas de frear o andamento da política brasileira tal como o delineamos por aqui. E tal movimento, além de uma natural disposição ao enfrentamento com o poder econômico e seu regime por parte das massas, requereria uma direção capaz de centralizar politicamente suas forças. 
Ou seja, tanto objetivamente,  tendo em vista que o descontentamento político ainda não resultou em aberta revolta social, quanto politicamente falando, no que tange à influência programática de um partido revolucionário capaz de falar a essas mesmas massas e dirigi-las à tomada de iniciativas contundentes, estamos impedidos de nos preocupar com a construção do socialismo para ter de falar aonde a contra-revolução está nos levando agora. 
Mas as tensões dialéticas é que movem a história. Passaremos da contra revolução à revolução. A história não acabou. Às vezes dá-se um passo atrás para em seguida dar dois passos a frente. Construir um processo grande de emancipação passa por ter paciência e perseverança em cada pequeno passo, com firmeza e dignidade.

Por Mário Medina

tacao

 
O Tacão de Ferro, de Jack London, é um livro que impressiona. Muito bom realmente. Trata-se de um romance, uma espécie de ficção sociológica em que o autor se vale do gênero literário para expor conceitos do marxismo e defender a tese de que nenhuma ilusão pacifista ou reformista seria capaz de impedir que o capitalismo enveredasse por regimes de violência em seus períodos de crise. E Jack London faz isso com maestria, prognosticando o socialismo reformista do início do século XX como falsa alternativa aos trabalhadores e prevendo o surgimento do fascismo como módulo político funcional às elites.
O Tacão de Ferro é uma expressão criada pelo autor para designar esse endurecimento do regime político. Trata-se da história de Ernest Everhard (o nome não é a toa), operário intelectual, líder do partido socialista, e posteriormente eleito deputado, que faz amizade com um professor universitário progressista e acaba por se envolver com sua filha, que por sua vez adere aos ideais de seu amado e escreve o livro como modo de reconhecer e engrandecer o trabalho de Everhard. É um livro escrito na primeira pessoa, com notas de rodapé de um editor do futuro, que escreve setecentos anos depois dos acontecimentos relatados no manuscrito. É um livro instigante, violento sobretudo da metade até o final, assumindo ares de distopia, mas que antecipa e prevê muito do que realmente aconteceria no trágico século XX.
O Tacão de Ferro foi publicado em 1907, tido à época como pessimista, acabou por se revelar uma profecia acertada do que viria a ser o sistema capitalista das décadas posteriores. O livro tem erros; na edição da Boitempo, com tradução de Afonso Teixeira Filho, há um posfácio de Trotsky no qual o mesmo reconhece haver erros, mas é de fato um clássico da literatura e merece ser propagado, tanto por sua riqueza estilística quanto pela tese extremamente atual da agonia do capitalismo como modo de produção caduco e fadado à barbárie.
O livro é extremamente atual porque aponta para o regime de barbárie social e violência política do imperialismo e porque coloca a questão da burocracia sindical como elemento importante do status quo; uma casta à parte é formada, dando origem a uma aristocracia operária, traidora, odiada pelos trabalhadores. O que tem tudo a ver com o peleguismo chapa branca do qual temos insistentemente falado como sendo um dos elos podres do regime político a ser ultrapassado pelo conjunto dos trabalhadores.
Outra característica interessante da obra é a hipérbole como elemento de narrativa, o que fez London chegar ao extremo de descrever essa aristocracia operária como elemento completamente apartado da massa de trabalhadores, vivendo em bairros separados, com escolas específicas para seus filhos, etc. De igual modo London hiperboliza o quadro social do lumpem-proletariado, chamado no livro de "povo do abismo", uma massa de miseráveis, extremamente violenta e ignorante, também apartada do convívio comum e que tinha sua funcionalidade social: barbarizar e servir de massa de manobra aos interesses do Tacão de Ferro.

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Uma intervenção militar seria um passo arriscado, verdade, mas é uma das possibilidades inscritas na realidade brasileira, até porque há movimentações de milicos nesse sentido e até um ensaio geral na ocupação da Rocinha. Tudo depende da evolução dos acontecimentos nas próximas semanas. Raquel Dodge, a nova PGR (Procuradora Geral da República) está incumbida de "colocar ordem na casa". Uma intervenção militar desastrada jogaria o país em convulsão social. E a crise política em evidência não é tão incontornável que as forças armadas se sintam legitimadas para intervir. Os milicos não são tão obtusos assim. De nossa parte, temos que avaliar que os movimentos populares estão em crise; a classe operária, inerte; a burocracia sindical e os partidos políticos de esquerda, paralisados. Não haveria necessidade do exército entrar em cena pra controlar a situação para as elites. Só há contrarrevolução na medida em que há revolução. Um pólo move o outro. A reação não tem porquê arriscar uma manobra extrema. Seria atiçar um setor que está sob controle. De todo modo, a situação é crítica. Temer, a despeito de sua ilegitimidade, continua livre para aplicar uma agenda muito próxima da desejada pelo imperialismo, com um pacotaço de 57 privatizações de bens públicos. Só não avança por conta de sua impopularidade e por depender do congresso, que por sua vez se preocupa em se poupar para as próximas eleições. As centrais sindicais não se mobilizam pra parar o país e estancar a sangria. A CUT joga todo peso na defesa de Lula com a esperança de fazê-lo candidato ano que vem, quando, na verdade, até analistas políticos adaptados ao regime calculam que não haverá eleições. Faz todo sentido. O que nos faria pensar que os golpistas abririam mão do poder em meio ao ajuste que tocam para o Tio Sam? É ingenuidade desmedida acreditar que o processo possa ser revertido via eleição. As eleições, se ocorrerem, serão completamente manipuladas. É o único jeito de eleger um picareta com programa anti-povo para governar o país. Apesar da opinião pública já ser manipulada pelo monopólio da imprensa, e da maior empresa de telecomunicações do país fazer campanha aberta para o PSDB, o programa representado pelo impostor Aécio foi rejeitado nas urnas. Começou a ser aplicado logo em seguida por força das imposições do mercado e da capitulação petista; foi colocado em ação com o advento do golpe e da subida de Temer ao poder; e caminha para ser integralmente aplicado, seja por Rodrigo Maia, em eventual nova cassação, ou até pelos militares caso a conjuntura política exija. É um golpe permanente contra a população. Tudo para que a máfia de banqueiros e rentistas, dos milionários magnatas de dentro e fora do país recuperem a taxa de lucro que a crise lhes desfalcou. Soberania nacional agora é lenda. Vivemos em franca decadência, com desindustrialização, entrega dos patrimônios à rapinagem imperialista, descarada drenagem de recursos públicos para o pagamento da dívida, uma classe política vendida se locupletando na máquina pública e um judiciário servil aos interesses dos EUA. Uma intervenção militar aqui seria a cereja do bolo para aqueles que vivem de pilhar as riquezas nacionais e super-explorar o trabalho alheio. Mas não deixa de ser um risco com o qual devemos nos preocupar e ficar atentos. O Brasil já tá na miséria. E os donos do poder não estão preocupados com quem passa necessidade. Isso é importante notar: disputas entre frações burguesas pelo poder são apenas disputas de frações burguesas pelo poder. Ao povo trabalhador interessa suas reais condições de vida, de moradia, alimentação, etc. E só a luta política da classe trabalhadora, com organização e combatividade, pode conquistar melhorias na qualidade de vida. Isso nos remete à necessidade de pautar novamente e sempre as insígnas do Programa de Transição ao socialismo, com diminuição da jornada de trabalho e reajustes mensais de salários. A classe trabalhadora depende de vender sua força de trabalho, e tem o direito legítimo de valorizá-la, e de reivindicar uma qualidade de vida razoável para continuar a produzir. É inadmissível um quadro de desemprego como o atual; é inadmissível que os filhos da classe trabalhadora estejam submetidos à fome ou a outras formas de carência. A luta do momento é resistir às investidas de Temer e barrar qualquer privatização ou corte de gastos nos serviços públicos e programas sociais, ao mesmo passo que os riscos de eventuais retrocessos na participação política sejam veementemente repelidos. Tudo isso guarda relação com as objetivas condições de vida de nosso povo.

Por Mario Medina                         

doriapsdbO prefeito e presidenciável tucano João Doria sancionou n  dia 4 de outubro, o projeto de lei que libera a concessão de terminais de ônibus, Mercado Municipal, Bilhete Único e alguns parques da cidade. Em evento para sanção do projeto, Doria disse que o secretário de desestatização, Wilson Poit, tem sido procurado por uma série de prefeitos interessados em aplicar o modelo privatista. Doria finalizou afirmando que "É o exemplo de São Paulo servindo ao país". Logo se vê que o crápula em forma de prefeito pretende se viabilizar como o candidato dos patrões ao planalto.

A briga interna no PSDB é entre Doria e o sujeito que o apadrinhou politicamente quando do lançamento de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Fustigado pela oposição em vista de processos em que é acusado de ilícitos, Alckmin perdeu a chance de figurar como unanimidade no partido após a desgraça na qual Aécio foi atirado. Este sim é carta fora do baralho em termos de eleição presidencial.

Em São Paulo, Doria tem aplicado uma gestão duramente privatista e repressiva. Com apoio massivo na câmara de vereadores, tendo fatiado as subprefeituras entre figurões do espectro mais reacionário possível. Doria lançou a cidade nas mãos da iniciativa privada e tem feito enorme tour Brasil afora, e inclusive no exterior, alternando entre eventos com empresários, onde vende São Paulo na maior cara larga, e eventos nitidamente auto-promocionais, onde tem lançado mão do palavrório neoliberal que tanto agrada aos "investidores", leia-se parasitas. Nestes eventos, além de advogar um completo desmonte do patrimônio público, Doria se vale de discurso anti-comunista e falso-moralista; logo ele, tão habituado às tramoias do meio empresarial brasileiro. São os imorais querendo falar de moral.

A ofensiva privatista segue em curso, num laboratório do que esses picaretas pretendem aplicar em escala nacional. A bola da vez agora é o projeto de lei que está sendo lançado hoje, que inclui o autódromo de Interlagos, um dos negócios da China da iniciativa privada em São Paulo, junto ao Estádio do Pacaembu e do complexo do Anhembi, que já foram entregues em aprovação na câmara de vereadores.

(02/08/2017)

por Mário Medina

direitoshumanos3O presente texto visa discutir a emergência dos movimentos por direitos humanos no Brasil no bojo da repressão às guerrilhas contra o regime militar, nas décadas de 60 e 70. No período em questão, as forças repressivas do Estado brasileiro utilizaram a tortura nos interrogatórios, com o intuito de desbaratar guerrilhas urbanas e rurais que surgiam em oposição ao golpe civil-militar de 1964.

Ato contínuo, a esquerda brasileira se viu convidada a recorrer aos direitos humanos para defender os prisioneiros do regime. Até então pouco se falava em direitos humanos no País, tido como pauta liberal-burguesa, que as esquerdas rejeitavam por conta de uma concepção materialista dialética que naturalmente se alinhava mais às reivindicações classistas.

Nesse sentido, o encontro da esquerda com os direitos humanos pode ser encarado, por assim dizer, como o encontro de uma análise marxista mais geral com demandas do âmbito da micropolítica.

A amarga experiência da tortura e a luta armada

Foi a ocasião severa da conjuntura política que fez com que os militantes oriundos de classes mais abastadas fossem detidos pela repressão e submetidos a tratamentos normalmente dirigidos aos marginalizados da sociedade.

Não que o período anterior ao golpe de 1964 não tenha histórico de repressão contra os movimentos políticos e sociais tidos como subversivos pela ordem vigente. Em outros períodos, comunistas ou democratas já haviam sido conduzidos aos cárceres ou postos na clandestinidade.

Mas foi a partir da experiência de cárcere e tortura empregados após o golpe de 1964, com a vigência dos Atos Institucionais, sobretudo o quinto, de 1968, que recrudesceram as perseguições e hostilidades a quem ousava se insubordinar contra o governo.

Inúmeros grupos guerrilheiros surgiram na tentativa de impor resistência ao avanço dos militares, que por sua vez contavam com o financiamento e o treinamento de forças civis ou estrangeiras. O referido corte histórico configurou um período conturbado na política nacional, com cassação de parlamentares, perseguição a membros das Forças Armadas que se opunham ao regime, etc.

Destaca-se a Operação Bandeirantes (OBAN), organização civil de empresários favoráveis ao regime, e toda uma gama de órgãos criados para o estabelecimento da “ordem” política no País.

Em oposição, diversos partidos ou frações que aderiram à luta armada se lançaram em operações de expropriação revolucionária de bancos e similares, com a finalidade de financiar a compra de armas e a manutenção das organizações na clandestinidade.

Essa foi a conjuntura política que conduziu uma parcela da esquerda aos “porões da ditadura”, locais onde militantes de classe média conheceriam a tortura, método até então reservado aos presos comuns.

Por isso a emergência da pauta de direitos humanos pela esquerda. A esquerda, até então ambientada às análises de conjuntura mais abrangentes, aos balanços mais objetivos e à caracterização das forças sociais e políticas decisivas para os acontecimentos políticos, aprendeu a lidar, com o contato duro das prisões, com uma pauta até então colocada em segundo plano em função de uma concepção leninista de história, que via outras questões como secundárias ou simplesmente liberais. Fazer a experiência da violência policial destinada aos marginais foi, em síntese, o que sensibilizou a esquerda para o discurso dos direitos humanos, trabalho social antes executado por movimentos religiosos, como pastoral carcerária e afins, movimentos capitaneados, sobretudo, por adeptos da teologia da libertação.

A legitimidade da resistência

direitoshumanos2Entendemos que a violência empregada pela repressão legitima a violência que surgiu para se opor ao golpe e ao estado de exceção. Com o parlamento cassado, os sindicatos sitiados, a dura repressão à organização das massas trabalhadoras e às entidades estudantis, muitos grupos políticos optaram por se lançar na luta armada. Mas tais grupos, normalmente, respeitavam convenções internacionais de guerra e tinham uma base ética que faltava aos militares brasileiros. Crimes como tortura e ocultação de cadáveres nunca foram cometidos por grupos revolucionários.

Há muitas coisas que podemos constatar. Muito se fala sobre a execução de traidores, condenados por cortes revolucionárias, por exemplo; contradições inerentes às situações extremas, circunstâncias típicas de embates dessa magnitude e que invariavelmente despertam contestações, etc. Mas, verdade seja dita, a esquerda guerrilheira nunca se dobrou aos métodos desonestos ou antiéticos como a tortura.

Muito embora a esquerda não fosse movida por moralismos, sempre se opôs à execução de prisioneiros ou civis e jamais admitiu a tortura.

Luciano Oliveira, em seu livro “Imagens da democracia”, coteja autores como Lenin e Trotsky para trazer à tona a relação da esquerda com a ética e diversas resoluções históricas tomadas nessa esfera por governos operários. Com isso, Oliveira deseja retomar a história da militância marxista em sua relação com a violência e os interditos éticos. Interessantíssimo é rever que a revolução bolchevique aboliu a pena de morte, mas também não hesitou em apelar ao “terror vermelho” diante do “terror branco”, quando das investidas de tropas contrarrevolucionárias contra o poder soviético.

Diante do rigor da violência exercida pela reação, autores e líderes marxistas sempre defenderam a igual oposição violenta ao Estado e a suas instituições, sem titubear frente aos valores morais.

Tal disposição à resistência violenta, por sua vez, no entendimento de históricos líderes revolucionários, nunca legitimou atos como a tortura, por ser entendida como um ato degenerado da moral burguesa, um desvario, algo abominável e injustificável.

Entre os clássicos do marxismo do início do século passado, a geração que logrou fazer a Revolução Russa, muito se escreveu sobre experiências de cárcere e exílio, mas pouco ou quase nada se fala de tortura.

Os bolcheviques do início do século não passaram pelo horror da tortura. Essa não era uma questão colocada naquele momento histórico. Ao contrário das esquerdas latino-americanas, que tiveram que passar por um regime de exceção que abriu mão de quaisquer escrúpulos éticos, a geração de marxistas do século XIX e início do século XX não chegou a se deparar com o método da tortura, em desuso na Europa desde fins do século XVII.

Autores como Marx, Engels, Lenin e Trotsky chegaram a tocar em outras questões espinhosas, como execução de reféns e fuzilamentos, por exemplo, argumentando que toda violência empregada contra adversários de classe era legítima na medida em que esta ocorria para se contrapor à violência desferida contra os revolucionários e a classe trabalhadora.

O ex-guerrilheiro argentino, Sorel, em texto clássico sobre a violência, publicado em 1908, condena os métodos da inquisição medieval e do terror jacobino na Revolução Francesa e classifica a violência proletária como “limpa”. A luta revolucionária, segundo o autor, ocorreria com vistas a subjugar o inimigo irreconciliável, excluindo quaisquer abominações ou desonras.

Em livro sobre a história das organizações da esquerda revolucionária brasileira, publicado no ano de 1987, Jacob Gorender diz que a violência praticada pelos revolucionários acontecia de acordo com princípios éticos que visavam se preservar da moral corrupta das classes dominantes.

Gorender admite que os grupos armados mataram, praticaram atos de terrorismo, sequestraram e inclusive chegaram a executar traidores condenados por uma justiça revolucionária, mas argumenta que episódios de tortura jamais foram verificados nas guerrilhas.

A violência revolucionária não era uma violência gratuita, com finalidade de infligir dores ou castigos, muito menos com ranço revanchista. A violência era praticada com um objetivo político. Era uma violência limpa, por assim dizer, que se precavia de atos moralmente degenerados e que, principalmente, encontrava sua razão de ser na luta por democracia, fazendo frente a todo tipo de barbárie que ocorria em instalações dos órgãos de repressão política.

Concepção marxista de direitos humanos

direitoshumanos1Como vimos, desde as décadas de 1960 e 1970, a pauta de direitos humanos foi assumida pela esquerda brasileira não mais como questão secundária sem movimento próprio, por ser enquadrada como contradição secundária específica, mas foi admitida e incorporada no conjunto de uma plataforma de direitos básicos do cidadão. O direito à integridade física foi defendido como direito à vida, no mesmo patamar político dos direitos à saúde, à moradia, à educação, etc. O que configura um grande avanço no campo do direito social, já que todo tipo de crime contra a humanidade era corriqueiramente praticado pelas forças de segurança contra os pobres, favelados e pessoas marginalizadas. A partir de então, lutou-se e se defendeu muito mais os direitos humanos no Brasil, sistematizando um movimento em sua defesa que até então não gozava de organicidade considerável.

Outra característica da inclusão dos direitos humanos na pauta da esquerda foi uma crítica ao que se julgava “liberal-burguês” ou “individualista” no que concernia à natureza da pauta, aproximando-a do combate por direitos socioeconômicos.

Bem sabemos que a pauta dos direitos humanos pode ser facilmente instrumentalizada pela direita e pelas classes burguesas, que, em algumas ocasiões, lançam mão do termo direitos humanos associado ao direito à propriedade, por exemplo, ou reclamando direito à expressão ou liberdade de imprensa como forma de se blindar de medidas governamentais por gestores progressistas.

Mas, em suma, grande parte da militância por direitos humanos, no Brasil e na América Latina, surgiu vinculada à teologia da libertação e com um discurso de fortes críticas às premissas individualistas do liberalismo clássico.

Diversos autores surgirão com uma ácida crítica aos movimentos de individualismo burguês que se circunscrevem na defesa da ordem capitalista. Tais autores criticarão os fundamentos do direito moderno, tido muitas vezes como avalizador formal de fenômenos típicos da sociedade capitalista, como circulação de mercadorias e a própria compra da força de trabalho do proletário pelo burguês.

Afinal, a crítica de Marx aos direitos humanos fazia sentido. O discurso jurídico pós-revolução francesa atomizou os homens para estes se relacionarem entre si com o intermédio do Estado, como pontua o argentino Oscar Correas; permitindo que a vida, a liberdade ou a propriedade apareçam como “direitos” naturais. A declaração dos direitos do homem, de 1789, é afiançadora do modo de produção capitalista – é a zeladora jurídica do status quo burguês.

Verdade que a promulgação de 1789 garante princípios de direitos universalmente caros à vida. Um avanço progressivo que o marxismo irá caracterizar como mais uma das transições do homem ao sistema igualitário a ser visado.

Os novos movimentos sociais, de minorias, e o próprio movimento por direitos humanos foram ganhando autonomia e vulto com o passar dos anos e dos processos de luta por visibilidade dentro de uma pauta geral. Muitos foram cooptados por matriz ideológica distinta da inclinação inicial à esquerda, e hoje se encontram em partidos ou filosofias alinhadas com o liberalismo ou mesmo com o conservadorismo.

Em geral, os movimentos foram, aos poucos, se tornando independentes de partidos ou movimentos suprapartidários, com pauta específica elaborada, que muitas vezes se situa mais no domínio do sociocultural do que no econômico ou da luta de classes. Os próprios partidos acatam em seu seio setoriais de temas específicos, como movimentos pelos direitos das mulheres, dos LGBT´s, etc., mas a tendência geral foi a independência política de tais movimentos.

 

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