Quarta, 21 Novembro 2018

Sobre nosso rompimento com a LPS e rompimento da maioria  do Comitê Central com o Programa aprovado no Iº Congresso da LPS

Durante a estruturação da ala esquerda (revolucionária) da LPS, a luta até o I Congresso (Abril de 2017) foi pela imposição do programa revolucionário. A primeira reunião Plena do CC foi o ponto em que ala burocrática foi pressionada a aplicar o Programa. Até esse momento, todos os documentos (que foram escritos pela ala revolucionária, especificamente por Alejandro Acosta) foram aprovados por unanimidade. Mas a ala burocrática aprovava tudo como mero papel que devia ser jogado no lixo. O objetivo sempre foi usar a ala revolucionária como verniz para o trabalho burocrático sindical oportunista, e especificamente para continuar controlando os caixas dos sindicatos. Com o fim do imposto sindical e sob a pressão da ala revolucionária, a ala burocrática, se viu encurralada e partiu para cima da ala revolucionária com o objetivo de enquadra-la aos próprios interesses, tentando impedir inclusive a ida destes à base e não estruturando o trabalho nacional.

Informe político da LPS (Luta Popular e Sindical):

A situação política nacional e a luta contra a “frente popular”

I Congresso – 14 a 16 de abril de 2016

 

Crise Capitalista........................................................................................ 2
Crise Política............................................................................................. 2
Da “marolinha” ao furacão.......................................................................... 3
O refluxo do movimento operário no Brasil.................................................. 4
Caracterização do refluxo do movimento operário....................................... 5
A ascensão do movimento de massas no Brasil.......................................... 7
A bancarrota das políticas “neoliberais” e a ascensão do PT ao poder.......... 9
A “Frente Popular”................................................................................... 11
A origem da “frente popular”..................................................................... 12
O esgotamento da base material da "frente popular"................................. 13
A "frente popular": instrumento de contenção das massas após a ditadura militar.....14
A “frente popular e a teoria dos “dois campos burgueses progressivos”...... 16
A política de frente única.......................................................................... 18
A classe operária..................................................................................... 19
As tarefas colocadas para os marxistas revolucionários............................. 19

 

Crise Capitalista

  1. A crise capitalista mundial tem impactado em cheio o Brasil. As perspectivas para o próximo período são de aprofundamento.
  2. O sistema capitalista mundial ficou muito enfraquecido a partir da crise de 2008. Um conflito militar de largas proporções aparece como a única “saída” para o grande capital manter a taxa média de lucros, com uma destruição de forças produtivas em ainda maior escala. Ao mesmo tempo, a desestabilização política (a guerra representa a continuidade da política por outros meios) tende a acelerar o desenvolvimento das tendências revolucionárias.
  3. O imperialismo, principalmente o imperialismo norte-americano, busca descarregar o peso da crise sobre a América Latina, por causa das derrotas sofridas nos demais continentes.
  4. A política econômica do imperialismo norte-americano para o Brasil conta com quatro eixos principais: i) Acabar com os gastos públicos sociais e direcionar os recursos para a especulação financeira; ii) As privatizações, a troco de nada, dos Correios, da Petrobras, dos bancos públicos, da Infraero e de mais 250 empresas públicas; iii) A reforma trabalhista; iv) A reforma da Previdência Social.
  5. As perspectivas para a economia são de continuidade e piora da crise. O Brasil sai na linha de frente da crise, atingido em cheio pela queda dos preços das matérias primas nos mercados especulativos mundiais e, principalmente, o aumento da espoliação imperialista. 

Crise Política

  1. A crise política tem acelerado por causa do aumento da crise econômica. O aperto do regime político tem levado à implosão do centro do regime político (direita parlamentar) e ao fortalecimento dos polos (extrema direita e esquerda revolucionária). Essa política, imposta pela necessidade de manter os lucros, provoca o fortalecimento dos polos, do fortalecimento da extrema direita pelo grande capital e a entrada em movimento da classe operária.
  2. O regime político de conjunto se encontra em crise, desde a direita até a ala esquerda (PT e grupos menores integrados ao regime).
  3. O imperialismo tem se valido de instrumentos como a Operação Lava-Jato e outros com o objetivo de endurecer o regime. Em primeiro lugar, está colocando para fora dos setores chave do governo o PT, o PMDB e outros setores do centro. Após o golpe de estado parlamentar, que aconteceu por meio do impeachment contra a presidenta Dilma, impôs um golpe de estado do Judiciário e avança na imposição de um governo de cunho bonapartista, na direção de uma ditadura de terror aberto, com o objetivo de viabilizar a escalada dos ataques contra os trabalhadores.
  4. O PMDB tem estado na mira do imperialismo desde 1988 por se tratar de um partido “muito caro”. Devido à necessidade de garantir a “governabilidade” de todos os governos que vieram após o final da Ditadura Militar, ele foi tolerado como um mal necessário. Mas os “desvios” dos caciques locais e do clientelismo municipal e regional são incompatíveis com a política dos monopólios em crise de direcionar tudo para os grandes especuladores financeiros.
  5. Como o objetivo do imperialismo é aplicar o “ajuste” para salvar os lucros, os governos que ainda mantenham algum esboço de liberdades democráticas continuarão se mostrando insuficiente para atacar os trabalhadores na intensidade que o grande capital precisa para salvar os lucros. O limite é a tentativa por não ultrapassar a fronteira que poderia levar as massas à revolução. Mas o aprofundamento da crise, obriga o imperialismo a avançar para a militarização da sociedade, para a imposição de um regime de terror aberto.
  6. A Lei Anti-terror, o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e o endurecimento do Judiciário fazem parte da recolocação em pé das estruturas da Ditadura Militar que, na realidade, nunca foram desmontadas no fundamental. Nas eleições municipais de 2016, foram colocados 70 mil soldados do Exército nas ruas de várias cidades, e nas Olimpíadas foram 65 mil.
  7. Cada vez mais, fica claro que a “democracia” burguesa não passa de um leve verniz de uma brutal ditadura contra os trabalhadores, conforme tem ficado muito claro a partir de 2001.
  8. Os vários projetos de Lei e as PECs (Propostas de Emenda Constitucional) que tramitam no Congresso, além dos já aprovados, representam apenas, e apesar da truculência, a ponta de lança, dos ataques que veem pela frente.

Da “marolinha” ao furacão

  1. O colapso capitalista de 2008 foi contido, em escala mundial, por meio da inundação do mercado com crédito, em cima de recursos públicos, a migração de capitais para os países atrasados, a escalada da especulação com matérias primas e, fundamentalmente, com o obsceno repasse de recursos públicos para os monopólios. Essas políticas começaram a apresentar rachaduras, em escala mundial, no ano de 2012. As rachaduras ficaram muito mais evidentes neste ano.
  2. Em 2015, a crise capitalista disparou em escala mundial. A Alemanha e o Japão, as duas principais potências industriais desenvolvidas, entraram em recessão. A América Latina foi atingida em cheio pela queda dos preços das matérias primas e a crescente dependência das importações. A inflação e o desemprego, que constituem dois dos principais sintomas da desestabilização do regime, aceleraram na região.
  3. O endividamento se generalizou em escala mundial e várias bolhas financeiras ameaçam estourar enquanto a economia real entrou em recessão.
  4. O movimento operário ainda se encontra numa situação semi paralisada, tanto no Brasil como em escala mundial, mas têm aumentado os sintomas da movimentação. As greves mais radicalizadas, as que superam os mecanismos de contenção da burocracia sindical, têm acontecido em setores secundários. A movimentação das categorias centrais ainda é incipiente. Os metalúrgicos realizaram algumas greves pela defesa do emprego na Mercedes e na GM em São Bernardo do Campo, mas a burocracia sindical controlou e direcionou o movimento principalmente no sentido de pedir mais recursos do governo para as montadoras. A greve dos petroleiros contra a privatização e o entreguismo, e por melhores condições de trabalho representa um fato de primeira ordem para o movimento operário, um sinal do início da retomada depois de 20 anos de paralisia.
  5. Após o colapso de 2008, a burguesia não conseguiu colocar em pé uma política alternativa ao “neoliberalismo”, que possibilitasse a contenção da crise, devido ao parasitismo galopante.
  6. Para o próximo período, está colocado um novo colapso capitalista mundial que, inevitavelmente, levará a classe operária a entrar em movimento novamente, tanto no Brasil como no mundo.
  7. A retomada do movimento operário da década de 1980 acontecerá numa perspectiva superior, devido ao enfraquecimento do capitalismo em escala mundial. A aceleração do desenvolvimento das tendências revolucionárias, da mesma maneira que aconteceu na década de 1980, colocará a necessidade da formação de partidos operários, revolucionários e de massas, a partir do próprio movimento operário. Já houve alguns sintomas preliminares neste sentido com a tentativa de formação do PT (Partido de los Trabajadores) na Bolívia.
  8. A esquerda atual, que no conjunto é burguesa e pequeno-burguesa, deverá ser varrida do mapa em escala mundial. Uma nova esquerda revolucionária deverá ser formada a partir da ascensão da classe operária.

O refluxo do movimento operário no Brasil

  1. Nos anos de 1990, o movimento operário entrou em refluxo. As políticas aplicadas durante o governo de Fernando Collor levaram ao fechamento de várias indústrias e às demissões em massa.
  2. A última grande greve de uma categoria nacional de ponta, os petroleiros, aconteceu em 1995, e foi quebrada pelo próprio Lula. O movimento metalúrgico tinha entrado em refluxo com os planos Cruzado. As últimas greves metalúrgicas importantes aconteceram em 1991, na cidade de São Paulo, na Metal Leve (zona sul de São Paulo) e na Voight (zona oeste de São Paulo).
  3. O refluxo consolidou o poder da burocracia que passou a dominar amplamente as principais organizações de massas, a CUT, a UNE e o MST. Se consolidou a frente única entre o PT-PCdoB e as organizações da esquerda pequeno-burguesas. As direções traidoras do movimento de massas têm funcionado como freio para evitar a unificação das reivindicações e das lutas. 
  4. Os governos de FHC foram apoiados pela CUT que tinha sido controlada pela ala direita da Articulação, liderada por Vicentinho, o presidente do Sindicato Metalúrgico de São Bernardo do Campo. A esquerda aderiu a essa política ou ficou acuada. O movimento operário ficou acuado por causa das demissões em massa, as privatizações, as terceirizações, os ataques aos direitos trabalhistas, a desaceleração industrial, o fechamento de empresas. O endividamento público escalou, a partir de 1992, quando os futuros três figurões da área econômica do governo FHC (Armínio Fraga, futuro presidente do Banco Central, Pedro Malan, futuro ministro de Fazenda e Murilo Portugal, futuro presidente do Tesouro), num final de semana, em Luxemburgo, que é um paraíso fiscal, conseguiram a “mágica” de quase dobrar a dívida pública brasileira. Era a nova política imposta pelo imperialismo norte-americano, liderada pelo então secretário do Tesouro, Brady. Com os novos títulos ultra podres, que passaram de US$ 60 bilhões para US$ 110 bilhões, foram “compradas” as empresas públicas “privatizadas” por preços obscenos que, na maior parte dos casos, não ultrapassaram um décimo do valor.
  5. Os dois governos de FHC entregaram o Brasil aos monopólios, seguindo a receita do chamado Consenso de Washington (1989), o que acabou provocando um enorme desgaste da direita. Após a crise de 1997, na Argentina, que também tinha sido devastada pelos governos neoliberais de Menem (1989-1999), a crise se aprofundou no Brasil. No início da década passada, aumentou sensivelmente o descontentamento social.
  6. A partir de 2002, as políticas neoliberais implantadas por FHC tinham se esgotado. O movimento grevista começou a despertar, mas foi rapidamente contido com a eleição de Lula à presidência da República, que aconteceu de comum acordo com a direita e o imperialismo. A frente única entre a esquerda frentepopulista, formada pelo PT e pelo PCdoB, e a esquerda pequeno-burguesa, que formava a base de apoio das políticas neoliberais, acabou rachando. A esquerda de conjunto e o movimento operário continuaram paralisados.
  7. A crise do regime político se abriu novamente, com o “escândalo do Mensalão”, em 2004-2005. A direita tentava voltar ao governo desgastando o governo do PT. Essas manobras fracassaram não somente em 2006, mas também em 2010 (primeira eleição de Dilma Rousseff), 2012 (eleição de Fernando Haddad para a Prefeitura da cidade de São Paulo) e em 2014 (reeleição de Dilma).
  8. Em 2014, o imperialismo colocou em cena a Operação Lava-Jato em cima de informações confidenciais sobre a Petrobras e a Odebrecht que somente podem ter uma origem, a NSA (Agência Nacional de Segurança) norte-americana.

Caracterização do refluxo do movimento operário

  1. Setores da ala direita do PT, a Articulação e da DS (Democracia Socialista) “que o movimento operário está em refluxo e não podemos fazer nada”. Refluxo é um termo fácil de ser interpretado, equivocadamente, de forma absoluta, servindo como justificativa de uma política oportunista, eleitoralista.
  2. A caracterização, em outros momentos, também serviu para combater um desvio ultra-esquerdista de que “há um ascenso permanente e inexorável”, e, nesse sentido, a caracterização de refluxo foi utilizada um pouco unilateralmente para fazer a contraposição ao esquerdismo.
  3. O movimento de massas se relaciona com lutas específicas, principalmente de minorias, tais como o Movimento Estudantil, o MST (Movimento dos Sem Terras), o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Movimento Negro, Movimento GLBT, Movimentos Populares de Bairros, Movimento de pequenos proprietários, e uma infinidade de outros movimentos de todas as cores, onde também entraria o movimento operário.
  4. O movimento operário é o fator determinante do movimento revolucionário da classe operária, a classe social que tem como missão histórica a derrubada do capital de da exploração do homem pelo homem.
  5. A caracterização da situação da classe, de ascenso ou refluxo, é importante, juntamente com a caracterização das outras classes, das instituições burguesas e das organizações classistas, da economia, etc. Sobre esta base, deve ser determinada a política revolucionária para cada conjuntura ou etapa da luta de classes. Considerando, sempre, que caracterização não é uma fotografia fixa do momento, mas sim, afirmações resultantes de uma análise dinâmica da realidade, da situação política, indicando o cenário mais provável.
  6. A LPS considera acertada a caracterização do ascenso do movimento de massas (trabalhadores, estudantes, camponeses e populares urbanos) no início da década de 1960, e que o movimento entrou em refluxo após o golpe militar de 1964, e que retomou o ascenso no final de década de 1970. Mas, o refluxo que aconteceu a partir da década de 1990 deve ser avaliado especificamente, pois não foi o mesmo tipo de refluxo da etapa anterior.
  7. O ascenso operário e do movimento de massas não foi esmagado pela força bruta, principalmente dos golpes de estado fascistoides. A base material do refluxo da “época neoliberal” teve na base a entrada do mercado mundial de centenas de milhões de operários com salários irrisórios, o que facilitou ataques em cheio contra o movimento sindical e de massas. Mas o movimento não foi derrotado por completo; permaneceu a resistência aos ataques dos planos neoliberais, embora que de maneira parcial e, principalmente, tendo colocado na defensiva as categorias centrais.
  8. Como complemento à mudança da política econômica da burguesia, que acarretou mudanças nos demais setores da sociedade, a principal causa do refluxo do movimento, nas últimas duas a três décadas, foi a atuação de freio exercida pelas direções do movimento de massas e do movimento operário.
  9. A traição das direções se transformou num fenômeno mundial, porque após a queda do muro de Berlin e do fim da União Soviética, com a imposição da receita e ideologia neoliberais, houve um giro à direita muito acentuado das direções do movimento de massas.
  10. No Brasil, a burocratização se fez sentir mais devido à importância da influência do PT e da CUT no movimento. As direções do movimento de massas (PT, CUT e todas as outras organizações) vinham sabotando o movimento e lutando contra o ascenso durante toda a década de 1980, tentando desviá-lo para o campo parlamentar, aproveitando a reação democrática do regime burguês nas eleições de 1985, 1986, 1988 e 1989, dirigindo as lutas para freá-las, não unificando-as e não organizando o movimento para prepará-lo para um enfrentamento maior. Até após a Greve Geral de 1989 a Articulação sair com a consigna “Agora é Lula lá!”, levando a classe de conjunto para a saída institucional em que sai desmoralizada com a derrota eleitoral. A partir daí, e como ala esquerda da nova “política neoliberal”, as direções burocratizadas, que passaram a controlar o grosso do movimento de massas e do movimento operário, aprofundam seu desvio à direita, capitularam vergonhosamente para o neoliberalismo, passaram a priorizar a luta pela democracia em geral, atuando principalmente no campo parlamentar, chegando a dirigir parte do aparato estatal, integrando-se definitivamente ao regime burguês, burocratizando seus quadros, atacando a ala classista e chegando até a conquistar a Presidência da República, como aconteceu no caso do Brasil, abandonando de vez o movimento à própria sorte e nas várias reeleições confirmando o seu caráter burguês.
  11. O refluxo consolidou o poder da burocracia, mas, ao mesmo tempo, a atuação das direções burocráticas do movimento operário representou uma causa fundamental do refluxo, e, dialeticamente, o aprofundou por meio da contenção e traição das lutas.
  12. O refluxo tem sido relativo. O movimento operário e de massas não foi derrotado por completo. Sempre houve lutas de resistência, mesmo que parciais. A “semiparalisia” tende à “movimentação” já que há experiência com as políticas neoliberais e as direções do movimento estão bem mais desgastadas na base, o que favorece uma virada da situação do movimento para um franco ascenso, que virá, mais dia, menos dia, virá. 

A ascensão do movimento de massas no Brasil

  1. No Brasil, o movimento de massas, que experimentou forte ascensão no início da década de 1960, tinha sido contido por meio da ditadura militar. O movimento estudantil, em 1968, foi derrotado. Durante o período mais feroz da ditadura, liderado pelo General Garrastazu Médici (1968-1974), foi imposto o truculento AI5 (Ato Institucional Número 5), promulgado no mês de dezembro de 1968.
  2. As massas foram mantidas pacificadas por meio do chamado “Milagre Brasileiro”. No período, houve abundância de emprego apesar dos salários continuarem baixos e os direitos trabalhistas terem sido atacados pela ditadura militar. O movimento operário, que tinha vivido uma forte ascensão, no início da década de 1960, entrou em sono profundo.
  3. Com a crise mundial de 1974, a situação política evoluiu rapidamente. Nesse mesmo ano, o partido da ditadura, o Arena, sofreu uma expressiva derrota eleitoral para o partido consentido pela ditadura, o PMDB. Em 1977, estourou o movimento estudantil apesar das leis repressivas. Em 1978, entrou em cena o setor de ponta da classe operária, com a greve da Scania, em São Bernardo do Campo, que foi iniciada pelos ferramenteiros, o setor mais qualificado e melhor remunerado dos operários metalúrgicos. Em 1979, aconteceram grandes greves em todo o chamado ABC paulista que, em 1980, se estenderam para a cidade de São Paulo.
  4. A crise foi contida por meio das políticas recessivas implantadas pelo então ministro da Fazenda, Delfim Neto, entre 1980 e 1983. Mas a contenção foi temporária. A situação daquele período apresenta semelhanças com a situação atual.
  5. A política recessiva foi implodida com a vitória eleitoral do PMDB no sudeste, em 1982, e as fortes mobilizações do movimento popular e de desempregados que culminaram com a invasão do Palácio dos Bandeirantes, na cidade de São Paulo, durante o governo de Franco Montoro, em 1983.
  6. No mesmo ano, aconteceu uma nova ascensão do movimento grevista, assim como da luta no campo. No dia 21 de julho, a Comissão Pró-CUT convocou uma greve geral que contou com a adesão de mais de três milhões de trabalhadores. No final do mês de agosto, foi fundada a CUT (Central Única dos Trabalhadores), após os setores classistas da CUT Pela Base terem tomado o controle de mais de 1.500 sindicatos ligados aos pelegos da ditadura militar. A CUT apareceu como a alternativa de massas ao PT que tinha sido rapidamente controlado pela burocracia sindical lulista e os intelectuais pequeno burgueses.
  7. Em 1984, aconteceu a campanha das Diretas Já! que foi contida pela frente popular formada pelo PT, PCB, PDT e PCdoB, e dirigida pelo PMDB.
  8. No ano de 1985, aconteceu o pico da luta operária e camponesa no Brasil. Foram mais de 15 mil greves, grande parte delas radicalizadas. No campo, a luta pela terra entrou em forte ascensão. Foi fundado o MST (Movimento dos Sem Terra), com centenas de milhares de trabalhadores rurais.
  9. Em 1985, CUT Pela Base conquistou a maioria da direção da CUT Regional da Grande São Paulo, com 87% dos votos. No congresso estadual, que aconteceu em meados do ano seguinte, a CUT Pela Base também venceu. No congresso nacional da CUT, que aconteceu a seguir, a CUT Pela Base quase venceu.
  10. A burguesia tentou conter o movimento operário e camponês por meio dos chamados planos Cruzado. Esta foi a base material do fortalecimento da burocracia sindical lulista, agrupada na Articulação, contra a CUT Pela Base, num processo que demorou quase uma década para ser consolidado. Em 1988, a burocracia sindical, com o apoio da esquerda pequeno burguesa, conseguiu paralisar a CUT.
  11. Durante o período, a esquerda pequeno burguesa agrupada no PCB e no PCdoB não participaram da CUT, mas da CGT. Este partido foi trazido para a CUT pela Convergência Socialista (principal grupo que formou o PSTU), já no refluxo, alegando de que se tratava de um "partido operário".
  12. A derrota do Lula nas eleições de 1989 aconteceu por meio da fraude, encabeçada pela direita pró-imperialista, com a complacência da esquerda burguesa. A vitória do PT teria aberto uma crise revolucionária naquele momento, devido às bandeiras levantadas e a que o movimento operário ainda não tinha sido contido.
  13. Coube ao então presidente Collor de Mello impor as primeiras políticas “neoliberais”, que viriam a ser consolidadas, de maneira um tanto tardia, em relação aos demais países, durante os governos de FHC.

 

A bancarrota das políticas “neoliberais” e a ascensão do PT ao poder

  1. O “neoliberalismo” trouxe à América Latina privatizações em larga escala e a subsequente demissão em massa de milhões de trabalhadores. O atrelamento das economias latino-americanas ao dólar, o fechamento em massa de empresas industriais, a destruição de conquistas históricas dos operários e os reflexos das crises financeiras dos países imperialistas foram responsáveis pela sensível deterioração das condições de vida das massas.
  2. Com isso, o movimento operário entrou em refluxo. As últimas greves metalúrgicas importantes aconteceram em 1991, na cidade de São Paulo. A última grande greve de uma categoria nacional de ponta, os petroleiros, aconteceu em 1995, e foi quebrada pela burocracia lulista.
  3. O período de refluxo consolidou o poder da burocracia petista nos sindicatos e nas principais organizações de massas, a CUT, a UNE e o MST.
  4. Durante esse período, o papel do PT até o final do governo FHC, em 2002, foi fundamental para a tentativa da burguesia de estabilizar o regime político abalado pela crise da ditadura militar, pela ascensão operária do final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, e pela crise econômica. Com o movimento operário acuado, as burocracias sindicais se consolidaram e a CUT passou a ser controlada pela ala direita da Articulação, liderada por Vicentinho, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
  5. Os dois mandatos de FHC entregaram o Brasil aos monopólios estrangeiros, seguindo a receita do chamado Consenso de Washington (1989), o que levou a um enorme desgaste da direita no Brasil. Após a crise de 1997 na Argentina, que também tinha sido devastada pelos governos neoliberais de Menem (1989-1999), a crise se aprofundou no Brasil.
  6. A partir de 2002, as políticas neoliberais implantadas por FHC tinham se esgotado. O movimento operário ensaiou um despertar, mas foi rapidamente contido pela eleição de Lula à presidência da República, que aconteceu em comum acordo com a direita e o imperialismo.
  7. A frente única formada entre a esquerda burguesa, PT e PCdoB, e a esquerda pequeno-burguesa (PSTU e PCB), que formava a base de apoio das políticas neoliberais, acabou rachando.
  8. O governo de “frente popular” de Lula não chegou ao poder em cima da mobilização dos setores operários fundamentais, mas das camadas mais desorganizadas da classe operária. Isso explica o caráter profundamente conciliador com o imperialismo, na mesma medida em que a bancarrota da política neoliberal “forçou” o imperialismo a permitir que a burguesia nacional pudesse, em certa medida, governar, uma vez que não possuía melhores condições de por em prática seus planos à revelia do nacionalismo-burguês. A ascensão das massas levou a governos nacionalistas mais radicais na Venezuela, na Bolívia e no Equador, apesar que, em termos ideológicos e até políticos, a diferença com o lulismo é só de grau.
  9. A partir de 2003 o governo frentepopulista de Lula passou a investir em um punhado de programas sociais criados para a população de baixa ou baixíssima renda. Esse foi o colchão social colocada em pé, e sustentado pela “bonança das matérias primas”, para garantir sua popularidade e os altos índices de aprovação. Além dos programas de caráter assistencialista, aumentou o crédito para a população com o objetivo de promover o consumo de bens e serviços, e manter a economia em movimento, seja em produtos tradicionais (alimentos, material de construção etc.), ou seja em novos (celulares, DVDs, passagens aéreas etc.). O objetivo fundamental era manter os acordos com o imperialismo e os lucros dos grandes banqueiros que, como o próprio Lula o tem dito, nunca ganharam tanto como nos governos dele.
  10. Um dos principais programas assistencialistas de Lula foi o Bolsa-Família, criado no governo de FHC. Ele foi convertido em uma espécie de renda mínima para todas as famílias brasileiras que comprovassem extrema necessidade. Nessa mesma linha, durante os governos Lula houve um aumento real de 24,25% nos salários mínimos, isso durante seu primeiro mandato, o que possibilitou a dinamização das economias locais menos desenvolvidas no país.
  11. Além disso, para atender aos interesses do capital financeiro o governo Lula passou a expandir o financiamento popular através do crédito consignado, que inclui o aumento do empréstimo à agricultura familiar, como meio de escamotear a reforma agrária, do microcrédito e do processo de “bancarização” de pessoas de baixa renda, o que permitiu aos bancos descontar empréstimos em parcelas mensais retiradas diretamente da folha de pagamento do assalariado ou do aposentado.
  12. Esse tripé, formado pelo Bolsa-Família, pelo aumento do salário mínimo e pela expansão do crédito popular e os referidos programas sociais, serviu especificamente como um amortecedor para a classe operária, onde o governo repassava rios de dinheiro público, em forma de isenções fiscais para que as empresas pudessem produzir, continuava pagando a dívida pública enquanto dava migalhas para a população mais pobre.
  13. Os governos do PT têm sido responsáveis pela cooptação da principais lideranças dos movimentos sindical, social, camponês estudantil e dos principais partidos políticos da esquerda.
  14. O aprofundamento da crise capitalista e o aumento da pressão do imperialismo estão implodindo os pilares de contenção social da "frente popular" brasileira. Ela poderá ganhar fôlego numa eventual aliança, uma saída negociada, com a direita, caso o imperialismo não consiga enfrentar a inevitável ascensão dos trabalhadores por meio de um regime de força. Mas, em qualquer cenário, no longo prazo, a crise não deverá reduzir-se, mas aumentar.
  15. O mundo caminha para um novo colapso de proporções colossais. A "frente popular" tende a implodir. Com o aumento da pressão da extrema direita, os partidos e organizações que compõem a frente popular tendem a rachar, da mesma maneira como acontece com o restante da esquerda pequeno burguesa que se agrupa em cima da chamada “frente de esquerda”. Está colocado, para o próximo período, o surgimento de uma nova esquerda revolucionária em cima da inevitável entrada em movimento da classe operária. 

A “Frente Popular”

  1. A LPS denomina governo de “frente popular” (não confundir com a Frente Brasil Popular que o PT organizou) aquele no qual participam partidos que se apoiam nos trabalhadores, mas que governam em benefício da burguesia. Normalmente esses governos aparecem em períodos de grave crise política e atuam como bombeiros da revolução, contra os interesses dos trabalhadores. Essa foi a política aplicada pelo PT, no Brasil já em 1989, e que ficou escancarada em 2003 com a chegada ao governo, com a política de integração aberta ao regime, principalmente a partir do governo Itamar Franco.
  2. A LPS, de acordo com os interesses da classe operária, entende que o golpe de estado está constituído por um conjunto de engrenagens em desenvolvimento. Essas engrenagens se desenvolvem em escala regional e mundial.
  3. A “frente popular”, encabeçada pela cúpula do PT, também é uma vítima do golpismo. No entanto, por causa das capitulações à direita, ao aplicar o ajuste contra os trabalhadores em prol da “governabilidade”, em benefício do grande capital, com os conchavos recorrentes com a direita e ao dificultar a organização independente dos trabalhadores, tem se convertido numa dessas principais engrenagens que abrem caminho para a implantação de um regime de força contra as massas.
  4. A “frente popular”, encabeçada pela cúpula do PT, devido à sua política de conciliação de classes e reiteradas capitulações, longe de combater o golpismo, se converteu numa das principais engrenagens do golpe e da contenção da organização independente da classe operária.
  5. A política da “frente popular” é de absoluta traição aos trabalhadores.
    1. A luta contra o golpismo não passou de uma camuflagem para direcionar o descontentamento das massas para os canais parlamentares;
    2. O PT se aliou com a direita golpista do primeiro time (PSDB, PMDB e DEM) em 1.682 municípios nas eleições municipais de 2016, tendo se transformado assim numa “esquerda golpista”;
    3. A política revolucionária foi a do voto nulo (ativo): participar das eleições apenas para denunciar o caráter golpista;
    4. A greve geral contra o golpe não passou de uma mera enganação para camuflar a traição. Nenhuma categoria foi mobilizada para a greve e as greves das principais categorias nacionais foram todas traídas. Há o medo da burocracia perder o controle. A política revolucionária é a da construção da greve geral pela base, a partir das reivindicações das principais categorias nacionais;
    5. Os conchavos com a direita tem sido a principal política da “frente popular”, que representa o principal mecanismo de contenção das lutas nesta etapa da situação política.

A origem da “frente popular”

  1. Os bolcheviques, encabeçados por Lenin, formularam a política revolucionária contra a “frente popular” do governo do “socialista” Kerensky, que era definido como um “governo dos capitalistas”, chamando a “explicar pacientemente, todos os dias, o caráter burguês e contrarrevolucionário deste governo”.
  2. A forma mais apurada da "frente popular" aconteceu na "Frente Popular" francesa de meados da década de 1930 e que serviu como base para o ultra oportunista VII Congresso da III Internacional Comunista, encabeçado por Georguis Dimitrov, e que implicou na saída do socialfascismo (ou "terceiro período", em que a política oficial da III Internacional Comunista dizia que a socialdemocracia e o fascismo eram a mesma coisa) para o abandono total das bandeiras operárias em aras da priorização da luta contra o fascismo.
  3. A maior parte dos “trotskistas” ligados à “frente popular” apresenta como justificativa teórica do próprio oportunismo a política recomendada por Leon Trotsky em relação à socialdemocracia alemã. Na década de 1920, Leon Trotsky chamou o PCA (Partido Comunista Alemão) a buscar uma frente única com o PSD (socialdemocrata) para enfrentar o nazismo que estava em ascensão. Mas a frente única não implicava na política de conciliação de classes. Um dos pilares do trotskismo, a teoria da Revolução Permanente, implica exatamente na política oposta à da “frente popular” e seus penduricalhos.
    1. Sobre a luta contra o franquismo Trotsky escreveu: “Segundo os conceitos dos socialistas e dos estalinistas, isto é, dos mencheviques da primeira e da segunda fornada, a revolução espanhola não ia resolver mais do que tarefas democráticas; por esta razão, era necessário construir uma frente única com a burguesia “democrática”. Em cima deste ponto de vista, toda tentativa do proletariado de sair dos parâmetros da democracia burguesa era não somente prematura, mas inclusive funesta. Por outra parte, o que se encontrava à ordem do dia não era a revolução, mas a luta contra Franco. O fascismo representa a reação, não feudal, mas burguesa, e contra esta reação não é possível lutar com sucesso fora dos métodos da revolução proletária. Esta tese é algo que o menchevismo, que faz parte da ideologia burguesa, não quer nem pode fazer sua.”
    2. “O ponto de vista bolchevique, expressado hoje unicamente pela jovem seção da IVª Internacional, tem como origem a teoria da Revolução Permanente, ou seja, inclusive as tarefas puramente democráticas, tais como a liquidação da propriedade semifeudal da terra, não podem ser resolvidas sem a conquista do poder pelo proletariado; isto, pela sua vez, coloca à ordem do dia a revolução socialista. Além disso, os operários espanhóis, desde os primeiros passos da revolução, atribuíram-se, na prática, não somente tarefas democráticas, mas inclusive tarefas puramente socialistas. Exigi-lhes que não saíssem dos limites da democracia burguesa representa, de fato, não somente não fazer a revolução democrática, mas inclusive renunciar a ela.”
  4. Vladimir Ilich Lenin sempre defendeu a mais completa independência em relação ao governo democrático de Kerensky, inclusive durante a ameaça iminente do ataque militar encabeçado pelo general czarista Kornilov. A capitulação e a conciliação de classes, promovidas por Kamenev, Zinoviev, Stalin e outros dirigentes bolcheviques, em 1917, também foram duramente criticadas por Lenin.

O esgotamento da base material da "frente popular"

  1. O pilar de sustentação da “frente popular” é justamente o controle da burocracia sindical petista sobre a CUT e os movimentos sociais, em primeiro lugar, o MST. A CUT representa a maior organização operária do Brasil e da América Latina, que reúne os sindicatos dos setores mais avançados da classe operária brasileira e os mais poderosos, capazes de derrubar governos por inteiro. Sem o acordo da CUT nenhum governo burguês mantém a “governabilidade” no Brasil.
  2. Com a forte queda dos preços das matérias primas nos últimos anos, o chamado “modelo de crescimento Lula” afundou. As políticas de controle social implantadas durante os governos Lula tiveram como base o direcionamento do país para a produção e exportação especulativa de meia dúzia de matérias primas. Essa política, que, na prática, foi uma imposição do imperialismo, acelerou a virada do Brasil em direção ao passado, à época da Colônia.
  3. A compra de sindicalistas em larga escala e o controle dos movimentos sociais conseguiu conter as lutas, mas tornou os governos do PT muito caros para os grandes capitalistas em crise.
  4. Com a queda na arrecadação e o aperto dos monopólios por uma espoliação maior dos recursos brasileiros, os recursos destinados a manter a “governabilidade petista” mermaram. As empreiteiras, as indústrias e os tubarões do setor da educação viram as verbas públicas mermarem, mas, principalmente, os grandes bancos têm os lucros ameaçados.
  5. Os milhares de burocratas sindicais, universitários, dos movimentos sociais e dos partidos políticos da esquerda, que hoje mamam na teta do estado, se encontram ameaçados de perderem sua bonança. A política do “corte nos gastos públicos”, impulsionada pela direita, às ordens do imperialismo, tem como objetivo direcionar ainda mais recursos para os especuladores financeiros.
  6. A “frente popular” brasileira, assim como está acontecendo nos demais países latino-americanos, está se enfraquecendo. O temor à organização independente dos trabalhadores a tem empurrado no sentido de acelerar os acordos com a direita golpista.
  7. Além da "frente popular" organizar atrás de si a maior parte das organizações de massas dos trabalhadores, da juventude, dos negros, das mulheres e da população explorada do país, há ainda os grupos e partidos de esquerda que contam com uma base de massas muito menor, mas se mantêm a reboque da política da “frente popular”, em primeiro lugar o PCdoB.
  8. O PSTU, que representa a principal força da CSP/Conlutas, mesmo após o racha do MAIS, assim como o PSOL têm como objetivo se “apropriar” do espolio do PT, por meio de uma política eleitoral, frentepopulista.
  9. A política dos penduricalhos do PT, do PSTU e do PSOL que apoiam a "frente popular" representa a capitulação ao regime burguês e uma traição à classe operaria. Esses agrupamentos levantam “teorias” de que as capitulações da “frente popular” e o próprio plano de ajuste econômico não seriam, supostamente, uma engrenagem golpista, mas que, pelo contrário, as traições da “frente popular” acontecem por causa da paralisia dos trabalhadores.
  10. A aplicação do plano de “ajustes fiscais” pelo governo Dilma, assim como as “saídas negociadas” com a direita, representa uma engrenagem golpista e o abandono até das bandeiras democráticas mais básicas que o Brasil, um país dominado pelo imperialismo, precisa manter em alto para garantir a soberania nacional. E hoje mais do que nunca. Na prática, hoje colocar-se a reboque da frente popular implica não em combater o golpismo impulsionado pelo imperialismo, mas em favorecer o golpismo. Nada muito diferente da política das frentes populares em, praticamente, todos os golpes de estado.
  11. A política estalinista ultra oportunista do VII Congresso da III Internacional Comunista, estalinista, de 1935, foi a “escola” que sistematizou a política traidora da “frente popular”. Nesse Congresso, foi imposto a todos os Partidos Comunistas, a partir do relatório elaborado por Gueorgui Dimitrov (intitulado: “A Ofensiva do fascismo e as tarefas da Internacional Comunista na luta pela unidade da classe operária contra o fascismo”), como tarefa fundamental alargar ao máximo a luta contra o fascismo e a guerra ante a ascensão de Hitler ao poder, em janeiro de 1933. Todas as bandeiras da luta histórica da classe operária deviam ser deixadas de lado para lutar contra o fascismo. Desta maneira, a política do chamado Terceiro Período, que considerava a socialdemocracia também como fascista, foi abandonada. O modelo era a “frente popular” francesa. Essa política permeou todo o período seguinte e está na base dos vários acordos contrarrevolucionários que os burocratas da antiga União Soviética realizaram com o imperialismo (antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial) e que teve como corolário a política da Coexistência Pacífica de Nikita Kruschev, do XX e do XXII Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética).
  12. Toda organização política, seja ela de esquerda ou de direita, ligada aos trabalhadores ou ao imperialismo, revolucionária ou contrarrevolucionária, coloca no eixo da sua política, em alguma medida, a luta pelo poder. A submissão à política de conciliação de classes da “frente popular” representa abdicar da luta pelo poder pela classe operária.

A "frente popular": instrumento de contenção das massas após a ditadura militar

  1. No Brasil, o movimento de massas que passou por forte ascensão no início da década de 1960, tinha sido contido por meio da ditadura militar. Durante esse período, as massas foram mantidas pacificadas por meio do chamado “Milagre Econômico Brasileiro” (governo do General Médici), quando houve abundância de emprego, apesar dos baixos salários e dos direitos trabalhistas terem sido atacados pela ditadura militar.
  2. Com a crise mundial do petróleo de 1974, que esteve na base da nova escalada da inflação e do desemprego e do colapso das ditaduras militares, a situação política evoluiu rapidamente. Nesse mesmo ano, o partido da ditadura, o Arena (Aliança Renovadora Nacional), sofreu expressivas derrotas eleitorais para o partido consentido pela ditadura, o MDB. Em 1977, apesar das leis repressivas, o movimento estudantil voltou a entrar em cena e foi o pioneiro na luta direta contra a ditadura. Um ano mais tarde, em 1978, o setor de ponta da classe operária, os metalúrgicos, entrou em movimento com a greve deflagrada pelos operários da ferramentaria da Scania, em São Bernardo do Campo. Em 1979, aconteceram grandes greves em todo o chamado ABC paulista que, em 1980, se estenderam para a cidade de São Paulo.
  3. A crise e, nesse primeiro momento, o movimento de massas foram contidos por meio das políticas recessivas implementadas pelo então Ministro da Fazenda Delfim Neto, entre 1980 e 1983. Mas a contenção foi apenas temporária.
  4. A política recessiva da ditadura foi jogada à lona com a vitória eleitoral do PMDB na região sudeste do país, em 1982, e as fortes mobilizações do movimento popular e de desempregados que culminaram com a ocupação do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, durante o governo de Franco Montoro, em 1983.
  5. Nesse mesmo ano, aconteceu uma nova ascensão do movimento grevista, bem como fortes mobilizações no campo. No dia 21 de julho de 1983, a Comissão Pró-CUT convocou uma greve geral que contou com a adesão de mais de três milhões de trabalhadores. No final do mês de agosto do mesmo ano, foi fundada a CUT (Central Única dos Trabalhadores), após setores classistas da CUT Pela Base terem tomado o controle de mais de 1.500 sindicatos ligados aos pelegos da ditadura militar. Naquele momento, a CUT apareceu como alternativa de massas ao PT que tinha sido rapidamente controlado pela burocracia sindical lulista e intelectuais pequeno-burgueses.
  6. Em 1984, aconteceu a campanha das Diretas Já! que foi contida pela primeira formulação da "frente popular", que representava um bloco entre as organizações de trabalhadores e representantes da burguesia, formada pelo PT, PDT e PCdoB e dirigida pelo PMDB.
  7. No ano de 1985, aconteceu o pico da luta operária e camponesa no Brasil. Foram mais de 15 mil greves, sendo a esmagadora maioria radicalizadas. No campo, a luta pela terra entrou em forte ascensão e nesse ano foi fundado o MST (Movimento Sem Terra), com centenas de milhares de trabalhadores rurais.
  8. A burguesia tentou conter o movimento operário e camponês por meio dos chamados planos Cruzado. Esta foi a base do fortalecimento da burocracia sindical liderada por Lula, agrupada na Articulação, a corrente majoritária e que desde então dirige o PT, facilitada pela burocratização da própria CUT Pela Base. Os enfrentamentos entre a Articulação e a CUT Pela Base se encerraram com a formação da Frente Popular. A DS, majoritária, e os outros setores centristas e revisionistas logo capitularam para a Articulação e foram à direita rapidamente. Desde então compuseram todos os governos de Frente Popular. A partir de 1988, a burocracia sindical, com o apoio da esquerda pequeno-burguesa, na época agrupada, principalmente no PCdoB e no PCB, conseguiu paralisar a CUT e sufocar as greves operárias. A Convergência Socialista (principal grupo que formou o PSTU), fundamentalmente, a partir da adoção das "Teses de 90" passou, com “mala e cuia”, a apoiar a burocracia do PT.
  9. Em 1989, a candidatura presidencial de Lula passou a agregar alguns setores minoritários da burguesia, principalmente o setor mais reacionário da burguesia nacional, o latifúndio. O escolhido para compor a chapa junto a Lula foi o latifundiário José Paulo Bisol que era conhecido na época por estar alinhado com Mário Covas, um dos fundadores do PSDB. A pedido de Lula, Bisol não se filiou nesse partido e sim ao PSB (Partido Socialista Brasileiro), visando a candidatura a vice-presidente.
  10. Lula e a cúpula petista, juntamente com os aliados burgueses, buscaram canalizar todas as expectativas das organizações operárias para o terreno eleitoral, o que continua sendo uma constante até hoje. A política lulista, assumida nas eleições de 1989, era a de que as greves atrapalhavam a candidatura de Lula, o que serviu de base para terminar de estrangular o movimento grevista de conjunto.
  11. A derrota de Lula nas eleições de 1989 aconteceu por meio da fraude, encabeçada pela direita pró-imperialista que contou com a ajuda da esquerda burguesa.
  12. Após a vitória, o então presidente Fernando Collor de Melo começou a impor as primeiras políticas “neoliberais” no Brasil, que viriam a ser consolidadas, um tanto quanto de forma tardia, em relação aos demais países latino-americanos, pelos governos de FHC. A aplicação dessas políticas contou com uma frente única da burguesia, apoiada de maneira semivelada pela frente popular e pela esquerda pequeno burguesa.

 

A “frente popular e a teoria dos “dois campos burgueses progressivos”

  1. A “frente popular”, seguindo a melhor tradição do revisionismo e do oportunismo na história mundial, propagandearam, após o impeachment da presidenta Dilma, que haviam dois campos no Brasil. “O campo dos golpistas e o campo dos que são contra o golpe”. Após as eleições municipais de 2016, a cúpula do PT, o PCdoB, o PSOL e outros agrupamentos oportunistas até pararam de falar em golpe.
  2. A luta contra o golpe não é a luta da “democracia” contra a “ditadura” em abstrato, como afirmou a direção do PT e continuam afirmando penduricalhos da “frente popular”, às vezes de forma passiva, às vezes de forma ativa. A luta contra o golpe faz parte da luta de classes, onde os interesses dos trabalhadores (inclusive as bandeiras democráticas) devem ser colocadas sobre essa perspectiva. Para os grupos que se posicionam como ala esquerda da “frente popular”, as bandeiras da classe operária deveriam ser abandonadas até que o golpe fosse derrotado. A LPS rejeita essa política e entende que não há nenhuma contradição entre lutar contra o golpe e levantar as reivindicações dos trabalhadores, uma vez que ataques de grande proporções (reforma trabalhista e previdenciária, privatizações, liquidação dos serviços públicos etc.) estão no centro da política golpista.
  3. A LPS considera, de acordo com o marxismo, que a luta de classes acontece entre a burguesia e o proletariado, as principais classes sociais da sociedade capitalista. Em cima dessa luta entre a burguesia e o proletariado é que se estabelecem os campos. Não entre a democracia burguesa (que no Brasil é ultra limitada) e os golpistas.
  4. Os setores pequeno-burgueses, e os limitados setores burgueses, contrários ao golpe, são vacilantes e se tornaram engrenagens do golpe por causa das suas capitulações. Por esse motivo, a LPS considera que basear a luta contra o golpismo em abrir mão das bandeiras operárias e democráticas, para atender os interesses da política da “frente popular” representa uma traição à classe operária e uma capitulação à “frente popular” encabeçada pelo PT.
  5. Contra a política do “partido anti-golpe”, com classes antagônicas diluídas em um bloco comum, a LPS levanta a bandeira do partido operário revolucionário.
  6. A velha “Teoria dos Dois Campos burgueses progressivos” considera a existência de um “campo progressista”, democrático, contra o campo da direita golpista. Separa a luta contra o golpismo da luta contra o conjunto do regime burguês.
  7. A Teoria dos Dois Campos representa uma política própria da etapa do imperialismo que teve como maior representante, inicialmente, os Mencheviques, no Governo Provisório de 1917, na Rússia. Também foi aplicada reiteradas vezes por José Stalin na linha política do jornal do Partido Bolchevique, o Pravda (após março de 1917), e, posteriormente, com a política do “Socialismo Num Só País” e, fundamentalmente, com as “frentes populares” na Espanha e França após a subida de Hitler ao poder, na Alemanha, em 1933, que liquidou o fortíssimo PCA (Partido Comunista Alemão), que desabou igual a um castelo de cartas.
  8. Nas fileiras do trotskismo, Michel Pablo ficou “famoso” quando, em 1952, defendeu abertamente essa política. Mas foi em 1935, no VII Congresso da Internacional Comunista estalinista, com a “frente única antifascista”, que a política da “frente popular” adquiriu caráter oficial e permanente, tendo como base a frente popular da França. As traições se avolumaram e elas próprias estiveram na base do XX Congresso do PCUS (1955) e como um dos fatores que levaram à implosão da União Soviética.
  9. A negação de que o chamado “ajuste fiscal” contra os trabalhadores está no eixo do golpismo, com o objetivo de garantir os lucros dos trabalhadores a qualquer custo, conduz, inevitavelmente, à derrota da luta contra o golpismo. A LPS considera que a política do “ajuste fiscal” representa a tentativa do imperialismo de aumentar o peso da crise sobre os trabalhadores. O desenvolvimento golpista avança, inevitavelmente, na direção do endurecimento do regime. Conforme as contradições entre a burguesia e o proletariado escalarem, por causa do aprofundamento da crise capitalista, a burguesia e o imperialismo colocarão a alternativa de extrema direita à ordem do dia.
  10. A LPS luta, de maneira independente de todas as alas da burguesia, contra o golpismo, em primeiro lugar, sem “rabo preso” com a “frente popular” encabeçada pelo PT. A política de independência de classe prepara os trabalhadores para enfrentamentos maiores, seja contra um recrudescimento do golpismo ou em lutas contra a escalada dos ataques contra seus direitos e condições de vida.
  11. A capitulação à “frente popular” tem como base material o aprofundamento das contradições entre os campos da burguesia que adquiriram um alto nível de acirramento tendo aumentado a pressão sobre os revolucionários e a esquerda em geral.
  12. A capitulação à “frente popular”, e mesmo a quase impossível saída da “frente popular”, não depende do desejo de “gênios” individuais, mesmo que o sejam, mas da pressão das condições materiais. Se trata de um caminho sem volta. Essa capitulação envolve a aliança com o “bloco democrático” burguês contra os golpistas e a abstenção de críticas ao “bloco democrático”. A “frente popular” “esquece” que a questão central é a luta pelo poder e que, para isso, é preciso organizar os trabalhadores, independentemente de todos os setores da burguesia.

 

A política de frente única

  1. A LPS se posiciona a favor de acordos pontuais na luta contra o golpismo e o capital, mas em cima de acordos práticos, limitados a fazer avançar a luta dos trabalhadores e sem abrir mão, em absolutamente nada que se relacione com a independência de classe. Esses acordos devem ser concretos e nunca subordinados à “frente popular”. A essência de classe do regime burguês continua a mesma no governo da “frente popular” e, por esse motivo, ela deve ser denunciada perante as massas e combatida como sendo uma engrenagem do golpe.
  2. A LPS considera que mentir aos trabalhadores sobre o caráter da “frente popular”, assim como sobre qualquer questão, representa uma traição à luta da classe operária.
  3. A aliança com os partidos da “frente popular” não deve ter como objetivo BLINDA-LA, mas IMPLODI-LA a partir da mobilização das massas, independente de todos os setores da burguesia. Essa é a essência política da frente única, conforme explicada por Lenin e por Trotsky e que nós reivindicamos. É preciso uma política de explicação “paciente” aos trabalhadores, conforme Lenin orientou. A frente única não é um fim em si mesma. Ela serve para desenvolver a luta em um dado período político. Abster-se de criticar as capitulações da “frente popular”, subverte essa política, ao invés de efetivamente lutar contra o golpe, encobrindo o governo de colaboração de classes.
  4. A política da frente única tem como objetivo concreto, conforme nos ensinaram os mestres do marxismo: a) não romper com as bases dos partidos reformistas ignorando as direções que elas reconhecem e assim possibilitar a unificação da classe operária contra o inimigo comum; b) promover a pressão das bases sobre as direções para obriga-las a aceitar a frente única e c) esgotar a experiência das bases com as direções reformistas, desmascarando suas vacilações e traições perante as tarefas da frente única e os interesses dos trabalhadores, e disputar a direção, como alternativa revolucionária.
  5. Trotsky no conhecido texto de 1931, "A revolução espanhola e as tarefas dos comunistas", disse:

“Apenas a frente única revolucionária irá inspirar a confiança do proletariado para as massas oprimidas da cidade e do campo. A realização da frente é concebível somente sob a bandeira do comunismo. Os conselhos proletários precisam de um partido dirigente. Sem uma liderança forte, seria uma forma vazia de organização e, inevitavelmente, cairia sob o dependência da burguesia."

A classe operária

  1. A classe operária brasileira e mundial está sendo colocada perante uma encruzilhada, ou entra em movimento ou morre de fome. Seria o que Rosa Luxemburgo chamou de “socialismo ou barbárie”.
  2. O “sindicalismo” tradicional deverá ser ultrapassado, no próximo período, diante da evolução da situação política para uma situação pré-revolucionária. A terceirização e o aperto dos ministérios do Trabalho e da Fazenda está aumentando o atrelamento dos sindicatos, enquanto a base representada se reduz aceleradamente.
  3. O “movimentismo”, junto com o “sindicalismo” (embora este esteja mais próximo de um “pseudo sindicalismo”, tal a paralisia da burocracia), representam duas versões da infiltração do “espontaneísmo”, da política da burocracia sindical e política, portanto da ideologia burguesa, contra a política operária revolucionária, contra o programa marxista revolucionário.
  4. Os marxistas revolucionários precisam atuar nas organizações existentes de trabalhadores, mas também é necessário impulsionar o trabalho com os terceirizados e em outros setores de trabalhadores.

As tarefas colocadas para os marxistas revolucionários

  1. A esquerda burguesa e pequeno burguesa, brasileira e mundial, integrada ao regime burguês, enfrenta gigantesca burocratização. Os partidos operários e revolucionários acabaram se desestruturando nas últimas décadas, principalmente por causa dos ataques promovidos contra a classe operária pelo “neoliberalismo”. Hoje as ligações com a classe operária são muito escassas, quando há alguma.
  2. A maior parte da esquerda atual se encontra isolada ou integrada ao regime político burguês, tanto por meio das frentes populares, como é o caso do governo do PT no Brasil, ou outras políticas oportunistas, como a da frente de esquerda eleitoral que busca eleger deputados a qualquer custo.
  3. A luta contra o sistema capitalista passa, em primeiro lugar, pela clara identificação dos agentes, das classes, sociais, que disputam o poder político e, fundamentalmente, da classe social que tem como tarefa histórica promover a mudança do capitalismo, paraíso das poucas famílias que dominam o mundo, pela sociedade socialista.
  4. A classe social que tem como tarefa histórica a derrubada do capitalismo é a classe operária. Ela se encontra ainda paralisada. Mas ela deverá acordar no novo período em cima do aprofundamento da crise capitalista que colocará abaixo os colchões de controle social.
  5. No Brasil, está colocada a ascensão das massas que, no final da década de 1970, em cima da crise mundial de 1974, colocou abaixo a ditadura militar; que, em 1983, após a retomada de mais de 1.500 sindicatos pelas oposições classistas, dos pelegos da ditadura militar, fundou a CUT; que em 1985 promoveu mais de 15 mil greves, muitas delas muito radicalizadas. Essa mesma classe operária está começando a acordar do longo sono liberal, e em escala mundial.
  6. A LPS levanta as bandeiras operárias e as bandeiras democráticas que a esquerda oportunista, da "frente popular" encabeçada pelo PT, jogou no lixo. É a luta pelas questões que podem tirar o Brasil, e os demais países, da crise, as medidas que passam pela luta contra o grande capital (o chamado 1% que governa o mundo) e a sobrevivência dos trabalhadores, que, cada vez mais, ficarão encurralados pelos capitalistas.
  7. Sem uma avaliação correta e profunda da realidade e, sobre esta base, o estabelecimento de uma política correta, a luta revolucionária fica inviabilizada ou, pelo menos, errática. Esta luta passa pelo rompimento com a “frente popular” e a política pequeno burguesa da “frente de esquerda” eleitoralista (da qual fazem parte o Psol, o PSTU, o PCB e satélites) que, de maneira recorrente e em questões fundamentais, têm se posicionado no mesmo campo da direita.
  8. A LPS se consolida, no I Congresso, como um grupo de agitação e propaganda marxista revolucionário; um embrião do partido operário revolucionário mundial.
  9. No próximo período, quando a classe operária deverá entrar em movimento novamente, a burocracia deverá ser ultrapassada e estará colocada a formação de partidos operários, revolucionários e de massas, em escala mundial.

Gazeta Revolucionária [pdf]

 gr16 capa

 gr15capa