Domingo, 20 Maio 2018

           Sobre a atuação coletiva

  1. Para Marx – “as seitas (...) são, por sua natureza, abstencionistas: estranhas a toda atuação efetiva, política, grevista e sindical; em uma palavra, a todo movimento coletivo” (Karl Marx, “As pretensas cisões da Internacional” ). Este texto foi escrito como parte da luta contra o bakuninismo na I Internacional (1864-1874), às vésperas do Congresso de Haia, quando os marxistas decidiram a situação das intrigas bakuninistas com a denúncia e expulsão de Bakunin e alguns outros anarquistas . Bakunin começou na política burguesa e populista e evoluiu para uma doutrina própria, segundo Marx “uma mistura de proudhonismo e comunismo”. No interior da I Internacional procurou, por meio de intrigas, tomar o controle da organização contra a oposição de Marx. Marx faz referência aqui às seitas socialistas utópicas e, particularmente, ao proudhonismo e, aos seus continuadores, os bakuninistas. Os proudhonistas, iniciadores do anarquismo, posicionavam-se contra a intervenção eleitoral, contra os sindicatos, as greves e a própria revolução social. Tudo isto era substituído por um esquema utópico: o mutualismo, um sistema de crédito popular, uma panacéia que resolveria todos os problemas da classe trabalhadora e promoveria a igualdade social.
  2. As seitas do tipo do proudhonistas são um caso extremo, “puro” de sectarismo. A evolução do movimento operário – id est, da organização política de massas do proletariado inspirada pelo marxismo - obrigou as seitas a adotarem uma posição eclética, uma mistura (centrista) de sectarismo (anarquismo) e comunismo (marxismo). Bakunin, por exemplo, é conhecido como anarquista comunista ou coletivista.
  3. Estas tendências, no entanto, com variantes diversas estão sempre presentes em todos os grupos anarquistas, semi-anarquistas, inclusive dentro de organizações políticas que se reivindicam marxistas e outras, de forma mais acentuada ou atenuada conforme as peculiaridades locais, políticas, históricas etc.
  4. Marx iguala a idéia de “efetivo” e “coletivo”. Essa igualdade deve ser compreendida por oposição a “propagandístico”, “doutrinário”. Ou seja, Marx opõe atividade efetiva, que tem um “efeito”, um “resultado” à atividade puramente espiritual e verbal (cf. a oposição sistemática de Lênin sobre a “frase” ou a “fraseologia revolucionária”). Todo movimento efetivo, é preciso ter isso sempre em vista, é um movimento de classe, ou seja, de amplas massas. É a classe operária quem tem a possibilidade de mudar o mundo, não os grupos, partido isolados e outras organizações (políticas ou não). As seitas querem mudar o mundo com palavras, mudando a opinião das pessoas através do mero “convencimento”, da mera pregação, da propaganda abstrata. “A arma da crítica não pode superar a crítica das armas. A força material somente pode ser vencida pela força material” (Karl Marx, “Crítica à filosofia do direito de Hegel”). A ação efetiva é, evidentemente, a ação revolucionária da classe operária, a luta de classe levada às últimas consequências.
  5. Esta atitude propagandista, passiva, está relacionada com o individualismo. Segundo Lenin, “o anarquismo é o individualismo burguês virado do avesso” (“Anarquismo e socialismo”). O propagandista doutrinário, isolado e, portanto, abstrato, não vê logicamente o sentido do trabalho coletivo, da mobilização de classe, da organização etc., justamente porque a sua atividade não está voltada para obter um resultado sobre as massas, sobre a realidade social. A propaganda doutrinária (semi escolástica) se preocupa com a “pureza” dos ideais. A teoria revolucionária não é especulativa, mas a generalização da experiência real, objetiva, científica e seus princípios não são morais, absolutos, abstratos, mas um resultado desta experiência material. A propaganda doutrinária é dogmática, ou seja, procura se impor sobre a realidade e não admite questionamentos que afetem a sua suposta pureza ideal.
  6. O oportunismo e o centrismo opõem-se à teoria revolucionária em nome da percepção imediata e do servilismo diante da observação empírica estreita, não teórica, da realidade. Isso significa que, como o sectarismo, procuram impor às massas e a classe operária, ideias abstratas que não fazem decorrem do seu caráter de classe e da experiência da sua luta em um sentido real, histórico, científico.
  7. Nos partidos revolucionários, esta tendência individualista aparece frequentemente como diletantismo, ou seja, a atividade pela atividade sem preocupação com os resultados, o que Marx chamou de “amadorismo” ou “experimentos de amadores” (“As pretensas cisões na Internacional “) e Lenin qualificou de trabalho “artesanal”. A falta de atuação “efetiva” manifesta-se em encarar o trabalho partidário como atividade sem conseqüências reais: fazer as coisas por fazer, para criar uma aparência revolucionária, sem preocupação alguma com a colocação em prática do programa revolucionário (“as idéias também podem se transformar em uma força material quando se apoderam das massas”, Karl Marx, “Crítica à filosofia do direito de Hegel”). Daí também a falta de combatividade das seitas (por exemplo, a falta de empenho para realizar o programa na realidade e obter resultados para o programa, superando os obstáculos que a burguesia normalmente coloca no caminho do proletariado), a sua falta de confiança em si mesmas. Nos agrupamentos sectários toda a atividade de agitação, propaganda, organização etc., reduz-se a uma extrema mediocridade e à criação de mitos, típicos de todos os amadores, que não conhecem as alavancas e os mecanismos concretos que fazem o trabalho efetivo. O centro da sua atividade reduz-se à elaboração de receitas utópicas que deveriam guiar o destino das massas e dos povos.
  8. O movimento coletivo a que Marx se refere acima não é, absolutamente, um problema meramente matemático. O anarquismo é aficionado da cooperação, ou seja, do trabalho individual conjunto. Para que exista um movimento coletivo é preciso que a consciência coletiva – que não é soma de consciências individuais -, revolucionária, de classe, surja como fator predominante. Nenhum indivíduo pode ter consciência de classe à margem da organização da classe e da força social efetiva da classe. A autoconfiança revolucionária somente surge quando o indivíduo se integra efetivamente na massa da classe, em uma ação de classe, e uma ação de massa, em uma organização de classe. Para a classe operária tomar consciência daquilo que ela quer e pode fazer, é necessária e indispensável a ação coletiva da classe.
  9. A criação de um movimento revolucionário e de um partido revolucionário representa a criação de uma realidade específica que se situa acima da realidade do indivíduo. O individualismo anarquista tem como base o individualismo burguês, é uma concepção da pequena burguesia e baseia-se, acima de tudo, no profundo ceticismo e incompreensão do papel e das tendências próprias da classe operária, bem como na profunda hostilidade diante dela.
  1. Individualismo, isolacionismo, anticentralização, rupturismo
  1. Outras manifestações da mesma tendência são o isolacionismo e a propensão a agir de modo individual ou em pequenas camarilhas. O terrorismo individual, a propaganda pela ação, a minoria ativa, a concepção da ação direta e o foquismo são expressões desta tendência. O propagandista isolado de qualquer organização real, que vai às assembleias e reuniões para oferecer à audiência uma posição bombástica ou uma crítica abstrata feita de acordo com padrões idealistas e dogmáticos etc. é outra manifestação. O organizador é, em modo geral, a antítese deste tipo.
  2. A teoria anarquista da “revolução social” consiste em uma concepção messiânica, apocalíptica e passiva que nada tem a ver com a revolução real. A revolução eclodirá como uma catástrofe e, aí, os “revolucionários” assumirão a direção deste movimento que surgiu independentemente deles. Esta é mais uma manifestação do caráter “não efetivo” das seitas anarquistas. Tendo em vista esta concepção, qualquer ação sistemática carece de sentido. Desta forma, a atividade anarquista consiste em intrigas para obter vantagens imediatas para si mesma (Bakunin na I Internacional) sem qualquer conexão com a revolução e objetivando apenas o triunfo abstrato e doutrinário das suas “idéias” contra as idéias dos demais e na atuação de tipo aventureiro para transformar pequenos e grandes incidentes da luta de classes em um “combate final”. A passividade por longos períodos impulsiona estas concepções.
  3. Outra manifestação desta concepção – que ocorre nos partidos operários com certa freqüência – é a idéia de que o partido revolucionário seria uma “direção de reserva” que se colocaria à cabeça da revolução diante do fracasso repentino das direções traidoras da revolução. Neste caso, o partido não teria a tarefa de despertar e organizar as massas operárias para a revolução em um combate sistemático contra a política burguesa no interior da classe operária. Esta é mais uma teoria voltada para a passividade política diante da burguesia.
  4. A construção de um partido revolucionário é tarefa de todos os momentos e todas as situações, não para um mítico dia do juízo final. O partido revolucionário constrói-se obrigatoriamente no refluxo e no ascenso, nos períodos de grandes acontecimentos e nas calmarias etc. A atividade verdadeiramente revolucionária consiste em organizar os trabalhadores para a revolução através das mais variadas experiências políticas com distintas situações. O trabalho revolucionário é constante, sistemático, efetivo e cumulativo. A atividade dos anarquistas é pseudo prática, para conseguir já e imediatamente o confronto final e, nesta qualidade, seduz os desesperados e sem consistência. Na realidade, é uma atividade abstrata e sem propósito, sem “efetividade” e aventureira. A atividade revolucionária é prática, porque se propõe um objetivo realista: lutar por um programa político, organizar uma vanguarda, acelerar a experiência e aprendizado político das massas, em resumo, na frase de Lenin, “não ir imediatamente ao assalto final, mas organizar sistematicamente o assédio à fortaleza inimiga” (“Por onde começar”).
  5. O individualismo anarquista manifesta-se também em uma incompreensão absoluta do centralismo e na oposição ideológica à subordinação do indivíduo e da minoria às decisões da maioria. O pequeno-burguês considera a autonomia individual (bem como a opinião individual e a propriedade individual) como a mais importante das liberdades e dos valores políticos. Neste sentido, nada mais são que idealizadores e extremistas da democracia burguesa. Para que exista um movimento coletivo, isto é, uma ação efetiva, é preciso que haja mecanismos que possibilitem decisões coletivas, daí a necessidade absoluta de subordinação do indivíduo e das minorias à maioria e de um sistema para chegar-se a uma posição teórica e prática sobre os problemas das massas, uma posição de partido, de um movimento prático e de ideias. A defesa da liberdade individual revela-se, diante do movimento real das massas, como uma ficção e uma idealização da atividade desorganizadora do movimento unitário.
  6. Para uma ação efetiva é preciso concentrar a força social da classe em uma vontade unificada através da sua centralização política. A subordinação da minoria à maioria é o meio para evitar que diferenças episódicas de opinião, divergências de ideologia etc. sejam motivo de esfacelamento do movimento unitário, seja da vanguarda (partido), seja de toda a classe.
  7. O sectário anarquista está disposto, em qualquer situação, a sacrificar este mecanismo de funcionamento coletivo – e, por conseguinte, toda possibilidade de ação efetiva da classe - em função da defesa da sua autonomia individual, da ficção das suas opiniões, necessidades materiais e psicológicas, das suas idéias etc. mesmo que apregoe aos quatro ventos exatamente o oposto. Para o individualista, a ação coletiva já é em si mesma uma ditadura e como tal deve ser combatida. Para combatê-la, combate o partido, a própria ideia e os fundamentos do partido e combate a unidade revolucionária do movimento de massas, ou seja, combate de um modo geral a luta de classe do proletariado.
  8. Todo o poder social da classe operária, do seu número, da sua concentração, do seu papel essencial na produção não é nada se não consegue se centralizar politicamente, se não for organizado através de uma vontade unificada, ou seja, de uma direção política. Esta vontade unificada é o partido político e o partido político é acima de tudo a unidade e a centralização da classe social por intermédio da centralização da vanguarda revolucionária na luta pelo programa, ou seja, pelos interesses gerais da classe em oposição a todo individualismo, todo particularismo, todo nacionalismo e a todo sectarismo. A defesa anarquista da supremacia dos direitos individuais diante da centralização política da classe, da liberdade dogmática de opinião diante da teoria (não diante da censura, o que é uma coisa absolutamente diferente, mas da verdade objetiva), da ação individual diante da unidade de ação da classe são características não apenas burguesas, como, concretamente, contrarrevolucionárias.
  9. Desta concepção surge a propensão dos sectários para evitar a discussão teórica (que se opõe à opinião), ser absolutamente desleal com os compromissos de partido e para a intriga, a calúnia e até a difamação (uma propensão encontrada igualmente nos centristas e oportunistas, com variações de forma). A defesa da autonomia do indivíduo opõe-se a qualquer fidelidade de partido ou solidariedade política com os militantes e o próprio movimento de luta ou de massas. O sectário tem a tendência a ser individualista, divisionista e desorganizador, porque o seu compromisso primeiro é com a defesa das suas prerrogativas individuais e dos seus ideais abstratos e não com a revolução como processo político e social prático e com o partido como materialização insubstituível desta perspectiva. Qualquer tentativa de defesa de uma atuação coletiva e efetiva que se choque com a sua defesa do individualismo e dos ideais próprios é respondida com a mais completa hostilidade e, frequentemente, com os métodos mais baixos de intrigas e calúnias porque parece ao sectário como uma conspiração maliciosa contra os seus “direitos” individuais. O tom de ofensa e indignação moral é expressões de que o sectário pensa que é uma imoralidade tentar submetê-lo a uma coletividade (V. I. Lênin, “Um passo adiante, dois atrás”). A gritaria constante contra a “ditadura”, a “truculência”, a “perfídia” das direções partidárias, bem como as queixas contra a “opressão”, a “desigualdade” a que são submetidos são típicas da luta do individualista contra o movimento político coletivo.
  10. O estalinismo deu amplitude e foro de legitimidade à crítica pequeno-burguesa contra a centralização da classe operária defendida pelo marxismo. A crítica contra a ditadura das direções é muito anterior ao estalinismo. Foi dirigida por Bakunin contra Marx, que carecia totalmente de qualquer poder burocrático e também contra Lenin no momento da formação do POSDR (Partido Operário Social Democrata da Rússia). A crítica de Trotsky e da IV Internacional contra a burocracia estalinista, cujo fundamento é social é baseado na luta de classes, foi deformada para significar a luta contra todo tipo de autoridade, de direção, ou seja, foi transformada de uma crítica marxista em uma crítica liberal burguesa. O caráter ideológico desta concepção pode ser visto claramente na discussão no interior da III Internacional contra o “esquerdismo”, ou seja, contra as tendências “semi-anarquistas” ou “parecidas com o anarquismo” (V. I. Lenin, “Esquerdismo, a doença infantil do comunismo”).
  11. A substituição da política pela moral e, consequentemente, as intrigas e desafetos de tipo moral formam ao mesmo tempo o método e o programa de luta do individualista contra os revolucionários porque aos seus olhos a luta “comum” pela revolução – que é para o sectário mera formalidade abstrata e propagandista – não tem nada a ver com a supremacia do coletivo, que a ele aparece como uma ditadura de um indivíduo sobre outros e, portanto, um crime contra o que há de mais sagrado e uma ruptura de compromisso. Para o anarquista ou semelhantes, a moral tende a tomar o lugar da política. A compreensão materialista da luta social tende a ser substituída por uma concepção subjetiva e moralista que vê em todas as manifestações de luta de classe a manifestação maliciosa de indivíduos mal intencionados. Os anarquistas, semi-anarquistas e liberais pequeno-burgueses têm como um dos objetivos supremos estabelecer um código moral que ponha um limite na aspereza dos conflitos sociais, enquanto que eles mesmos não vêem limites para a ação em defesa dos seus próprios interesses.
  12. O individualista e diletante atua sempre sobre a base do acordo temporário ou parcial, do que ele individualmente acha interessante, do que não interfere com as suas preocupações individuais. Daí que possa desenvolver uma atividade intensa em períodos e cair em uma completa paralisia em outros, sem que isso signifique que esteja, na sua concepção, em oposição à luta revolucionária em geral.
  13. Em função disso, o sectário anarquista ou semi-anarquista é um elemento desorganizador do movimento operário e das organizações operárias. Por desorganização entendemos a divisão, a fragmentação destes movimentos e organizações. A metodologia doutrinária, dogmática e propagandística tende a acentuar as diferenças secundárias em função do interesse de conjunto e das possiblidades de ação comum. Como o anarquista considera de modo dogmático o parlamento e a participação nas eleições como uma imoralidade, tenta obstruir a atuação política da classe operária. Outro exemplo importante: os sectários e anarquistas procuram levar adiante como questão central e imediata a luta contra a religião no interior do movimento operário. Esta atividade coloca-se em oposição à necessidade de unificar a classe operária em torno das suas reivindicações econômicas e políticas que são fundamentais. Por outro lado, a luta pelas reivindicações essenciais tende, pela prática revolucionária, a criar melhores condições para levar adiante a luta contra a religião e contra as instituições religiosas em particular, que se utilizam da religião para envenenar a consciência dos operários. Esses são os ensinamentos dos mestres do marxismo sobre a questão da religião.
  14. O sectário anarquista e semi-anarquista é sempre um doutrinário, uma espécie de socialista utópico, com seus projetos, receitas e esquemas sociais. Para o individualista, a liberdade de elaborar, com critério puramente subjetivo tais esquemas, passa a ser a essência de todas as liberdades. No entanto, seu esquema é o mais autoritário possível, porque se trata de impor a concepção abstrata e arbitrária de uns sobre os outros. Mesmo a sociedade mais perfeita concebida na cabeça de um homem não passa de um esquema abstrato que somente pode se chocar frontalmente com as propensões alheias. Na vida social prática, este esquema não tem guarida, pois qualquer esquema estará sempre condicionado pelos interesses das classes sociais e o choque entre elas. O mesmo esquema em pequenos círculos tende a se transformar em uma ditadura total do “profeta” sobre os “discípulos”.
  15. Como os dogmas abstratos são sempre colocados em oposição à vida real e prática, os sectários são sempre, por natureza, inclinados à ruptura como um método corriqueiro de organização. Para muitos, a mera existência de divergências já seria explicação e justificativa para romper o movimento prático da classe operária, um sindicato, um partido. Esta tendência à ruptura é a expressão da tendência geral do anarquismo para dissolver a realidade social nos indivíduos.

III. A prostração ideológica

  1. A hostilidade à política, ao programa e à teoria, exceto como formalidade, são resultados obrigatórios desta concepção. Segundo Bakunin, é da natureza do operário e do camponês ir instintivamente à revolução social (Lenin no “Que fazer?”: “todo movimento espontâneo vai espontaneamente para as posições da burguesia”). Daí que toda a atividade política, como as eleições, a propaganda e agitação em uma imprensa operária pareçam um trabalho inútil e desagradável, sem brilho em comparação com os atos heróicos do nunca realizado confronto final. Daí também a mediocridade teórica (que é uma causa, ao mesmo tempo que resultado, destas concepções) que impera em todos os círculos sectários e anarquistas que se baseiam na moral, no voluntarismo, em pensamentos convencionais, isto é, nas teorias em voga nos meios burgueses e pequeno-burgueses, em teorias desconexas, ecléticas e simplistas e recorrem o tempo todo a uma panacéia em substituição a uma sólida compreensão teórica e programática da realidade.
  2. A consequência disso é não apenas o rebaixamento do nível teórico do proletariado e do seu partido, ou seja, da consciência de classe, mas uma acentuada tendência à prostração ideológica diante da burguesia. Na ausência de uma compreensão científica da realidade, os sectários tendem a abraçar qualquer tendência política ou teórica da moda, ou seja, da burguesia para cobrir o seu vazio ideológico. Estas tendências da moda nada mais são que variantes da ideologia burguesa.
  3. A expressão mais clara e importante desta prostração ideológica é a substituição de claras caracterizações científicas por abstrações e formulações vagas de conteúdo burguês: capitalismo, socialismo, exploração, revolução e luta de classes dão lugar a generalidades como injustiça social, sociedade de consumo, justiça social, democracia social, luta social, elite etc. No terreno prático, esta tendência se manifesta particularmente em evitar as definições que estão diretamente ligadas à luta entre partidos: oportunismo, revolucionário, centrismo, marxismo, anarquismo etc. que são substituídos por outras generalidades como “combativos”, “de luta” etc.
  4. O marxismo é a expressão consciente, teórica, da realidade da luta de classes. As seitas, o anarquismo etc., são, do ponto de vista da ideias, baseados no dogmatismo. Embora os anarquistas tenham abusado de acusar o marxismo de dogmático, a realidade é exatamente a oposta. O marxismo não inventa projetos de sociedade, analisa a sociedade atual e tira conclusões quanto ao seu desenvolvimento e quanto às tarefas práticas. O marxismo não inventa métodos de luta, procura na própria sociedade existente os meios para combatê-la. O marxismo rejeita as fórmulas prontas de antemão, mas procura basear-se na análise concreta da situação real. Os anarquistas vivem de fórmulas prontas e intemporais, de clichês e chavões que não sofrem nenhuma análise crítica e normalmente não são capazes de tolerar nenhuma análise crítica. Sua “teoria”, seus métodos de “ação” são estereotipados, abstraídos do tempo e do espaço real.
  5. Os anarquistas em geral desprezam a educação teórica disciplinada, a assimilação da experiência histórica da luta da classe operária e do socialismo. No interior dos partidos operários, a influência anarquista manifesta-se pela tendência de substituir o estudo do marxismo por mediocridades esquerdistas “da moda”. O baixo nível teórico de um partido revolucionário cria um terreno fértil para o anarquismo.
  1. Voluntarismo
  1. Para os marxistas a questão colocada é sempre intervir, dentro dos limites colocados, no processo real que existe na sociedade, na luta de classes, independentemente de qualquer consideração subjetiva e que se desenvolve. O partido operário não é um resultado do desejo e da vontade de determinados indivíduos, mas um processo que tem raízes no desenvolvimento da própria sociedade capitalista. As greves não são um método de luta inventado, mas resultam diretamente da exploração econômica da classe trabalhadora. Aos revolucionários cabe estudar, analisar, em uma palavra, tornar conscientes estas necessidades e dar-lhes um caráter mais objetivo e concentrado.
  2. Os doutrinários, sectários, anarquistas querem impor a sua vontade e seus dogmas à realidade. Não apenas idealizam a sociedade “perfeita”, mas também métodos “perfeitos” e “imaculados” de luta, elaborados e colocados em prática segundo apenas e tão somente a sua vontade. O parlamentarismo, a democracia burguesia, embora sejam um fenômeno político e uma relação história, deve ser ignorado por um ato de vontade. Em diversos momentos, os anarquistas decidiram, partindo exclusivamente da sua subjetividade, se os operários deveriam ou não formar partidos, tomar parte na política, realizar greves, criar sindicatos etc.
  3. O Estado, a ditadura do proletariado, a estatização dos meios de produção etc. surgem aos olhos dos anarquistas como uma questão de opção moral e ideológica, que alguém poderia aceitar ou rejeitar de acordo com a sua vontade e não como resultados da evolução histórica, do funcionamento da sociedade etc.
  4. A revolução proletária e as lutas parciais da classe operária são também submetidas ao critério da vontade subjetiva. Ao invés da consciência das necessidades sociais objetivas como critério da revolução socialista, temos a indignação moral e a vontade de combater a burguesia como base para a ação revolucionária. Daí que os anarquistas (como os foquistas e terroristas) acreditem ingenuamente que, quanto pior a situação das massas em abstrato, independentemente da sua evolução política, mais próximos estaremos da revolução. Do mesmo modo, o sinal para a revolução proletária será o caráter ditatorial do regime político tomado em abstrato (Che Guevara na Bolívia).
  5. A receita anarquista para a revolução é a soma da insatisfação popular com a existência de chefes heróicos que estejam em condições de dirigir a revolta elementar das massas. A organização do proletariado, a sua evolução política etc. não cumprem absolutamente nenhum papel. Daí o seu culto idólatra do “líder”, do homem insubstituível e providencial, do herói, do super-homem, do homem iluminado que se eleva acima da plebe que nunca evoluirá além da explosão elementar de indignação.
  6. As seitas anarquistas não são formadas sobre a base da idéia da evolução das massas operárias, que tomam consciência das necessidades sociais (consciência de classe) a partir da experiência realizada por um movimento coletivo, orientado por uma teoria, um programa e uma política, mas são um agrupamento de doutrinários iluminados, de pessoas supostamente excepcionais que, com o seu exemplo “admirável” seriam capazes de decidir as situações. As seitas anarquistas caracterizam-se sempre pela existência de “gurus” políticos dotados de uma sabedoria insondável que têm a chave misteriosa para abrir todas as portas em todas as situações. Os “militantes” não são verdadeiros militantes, mas seguidores.
  7. Daí que as seitas anarquistas não se apoiem sobre um método, sobre uma rotina de trabalho em grande escala, sobre funções que para serem preenchidas necessitam treinamento e aprendizado, mas sobre a intervenção providencial, milagrosa e portentosa do super-homem e seus poucos seguidores. A concepção da III Internacional dos partidos comunistas como “comunidades de trabalho” onde cada um realiza uma pequena tarefa que compõe uma atividade coletiva é completamente alheia a esta noção.
  8. Reuniões para assimilar coletivamente a experiência da luta comum, para elaborar um programa comum (“o programa é a compreensão comum dos acontecimentos e das tarefas”, conforme Leon Trotsky escreveu no “Programa de Transição”), para organizar o trabalho coletivo, imprensa para educar as massas, métodos organizativos, disciplina, centralização da ação coletiva, educação teórica, uma teoria que seja a generalização da realidade etc., tudo o que constitui o partido, instrumento da ação coletiva por excelência, são para os anarquistas um obstáculo para a ação prodigiosa do “super gênio”.
  9. A organização do operário que desperta para a luta revolucionária em um partido, em um trabalho coletivo, o esforço para unificação e centralização de uma verdadeira vanguarda operária (não um grupo de iluminados), a educação política e teórica dos quadros, o treinamento permanente dos efetivos do exército proletário na atividade prática de agitação, propaganda e organização, a imprensa operária, a luta econômica miúda e sistemática, a intervenção eleitoral, a assimilação de uma teoria, um programa, um método – que depende do estudo e da experiência prática coletiva – e deve ser patrimônio de toda a vanguarda operária, ou seja, a atividade laboriosa de partido opõe-se pelo vértice aos esquemas românticos, heróicos e absolutamente mistificadores e estéreis das seitas semi-socialistas.
  1. Anarquismo e o oportunismo
  1. O sectarismo e o anarquismo de diversos matizes é o complemento obrigatório e necessário do oportunismo. Os oportunistas querem obstruir ou destruir a organização política independente da classe operária para colocá-la a reboque da burguesia. Os anarquistas querem destruir a organização independente da classe operária em nome de doutrinas abstratas. Em todos os lugares, esta esquerda semi-anarquista, ou anarquista, completa o trabalho do oportunismo e trabalha paralelamente a ele, apenas com a diferença de encobrir a sua ação com uma fraseologia extremamente revolucionária na aparência.
  2. Todas as fórmulas anarquistas encobrem a tentativa de reduzir a classe operária a uma classe inerme diante da burguesia:
  3. A luta contra o suposto caráter autoritário da organização leva à desorganização e à anulação da classe operária como classe;
  4. A luta contra o Estado e contra a sua utilização para a luta da classe operária (estatização, eleições, parlamentarismo) etc. leva à paralisia política dos operários diante da iniciativa e da ação da burguesia;
  5. Neste sentido, o anarquismo não é uma doutrina operária, mas burguesa. É o liberalismo burguês levado às últimas consequências. A oposição à organização, à utilização do Estado, se pudesse ser levada às últimas consequências significaria o predomínio da sociedade civil ou a exploração capitalista desenfreada.
  6. A doutrina do anarquismo é a democracia burguesa levada às últimas consequências em seus aspectos antiestatais e de defesa dos direitos dos indivíduos e da sociedade civil. O liberalismo e a democracia burguesa somente puderam sobreviver graças ao atrelamento da classe operária, ou seja, da exploração da imaturidade da organização proletária. A existência do proletariado como classe independente coloca em prática o princípio da ditadura do proletariado, o que se opõe ao liberalismo: a associação sindical é antiliberal e monopolista, a estatização e o planejamento econômico, idem, a ação revolucionária expressa a liberdade coletiva da classe operária, mas pisoteia a liberdade individual do elemento típico da sociedade civil, o burguês e o pequeno-burguês (a liberdade de explorar, de acumular capital etc.).
  7. O movimento operário apoia-se no princípio revolucionário desde os seus primeiros passos. Neste sentido, a estratégia da ditadura do proletariado define já o caráter da sua ação e da sua organização. O anarquismo opõe-se ao princípio revolucionário em nome do princípio liberal, daí o anarquismo seja “o exagero charlatanesco da liberdade burguesa até a autonomia e a independência absolutas de cada indivíduo ou, por último, a indiferença do burguês diante de toda forma de Estado desde que não freie o desenvolvimento dos interesses burgueses” (Friedrich Engels, “A palavra-de-ordem de abolição do Estado e os ‘amigos da anrquia’ alemães”).
  8. O anarquismo, por isso, opõe-se à luta de classe (que conduz necessariamente à revolução e à ditadura do proletariado, que, no seu desenvolvimento já traz em si a ditadura do proletariado). Daí que para o anarquista a disciplina coletiva (a mobilização coletiva) já seja uma ditadura porque segue o mesmo princípio da disciplina revolucionária que o proletariado impõe em toda revolução e, mesmo antes da revolução, em todo o seu desenvolvimento enquanto classe. Organização, centralismo, disciplina coletiva, unidade na ação, as características essenciais de todo movimento revolucionário de classe (em uma greve, por exemplo) são vistas com hostilidade pelos anarquistas.
  9. O anarquismo em todas as suas variantes segue como uma sombra a luta pela hegemonia burguesa sobre a classe operária, daí que a sua ação seja não apenas simétrica em seus resultados à da burguesia e dos serviçais oportunistas no interior do movimento operário, mas simétrica também como política concreta. Por exemplo, quando os partidos burgueses começam a perder o seu domínio sobre as massas, ao mesmo tempo em que os oportunistas inclinam-se para a operação salvadora da burguesia das frentes populares, acentua-se sempre como se fosse o efeito automático a propaganda anarquista do apartidarismo, dirigida, está claro, contra a organização partidária independente do movimento operário. O mesmo ocorre com a crise dos mecanismos representativos do Estado burguês (eleições) etc. Em última instância, esta tendência tende a se traduzir em uma oposição mortal à ditadura do proletariado, em complementar à ação da burguesia e dos próprios oportunistas.
  10. Nos sindicatos, os grupos anarquistas puros são sempre uma sombra e um complemento dos oportunistas. Em geral, são pródigas em argumentos doutrinários para não combater efetivamente os oportunistas, adaptando-se na prática a eles em todas as situações, detrás de argumentos apenas aparentemente revolucionários. Sua marca registrada é a falta de esforço para realizar, em forma independente, a mobilização e a organização das massas, contentando-se com discursos “oposicionistas” e “críticos”.
  11. Lenin disse que o anarquismo é “a subordinação da classe operária à política burguesa sob a aparência da negação da política”.
  1. O anarco-sindicalismo
  1. O anarquismo nasceu lutando contra o direito da classe operária de criar sindicatos, de fazer greves e pregando a completa inutilidade da luta econômica. Proudhon é o autor da ideia de que os aumentos de salários são prejudiciais, porque provocariam inflação e desorganização econômica (ideia esta retomada pelos centristas e oportunistas de todos os matizes para se opor à luta fundamental da classe operária por um salário mínimo vital). Posteriormente, os anarquistas tomaram a atuação sindical para opô-la à construção de um partido revolucionário. O anarco-sindicalismo, na medida em que se opunha ao oportunismo e não se colocava abertamente contra a construção de um partido revolucionário (caso típico da evolução do sindicalismo brasileiro) cumpriu transitoriamente um papel revolucionário, o que não deve ser confundido, em hipótese alguma, como se fosse efetivamente uma corrente revolucionária.
  2. A essência do anarco-sindicalismo em geral é a defesa da auto-suficiência dos sindicatos, ou seja, que podem passar sem o partido. “Na prática significa a dissolução da vanguarda revolucionária na retaguarda das massas, ou seja, nos sindicatos” (Leon Trotsky, “Comunismo e sindicalismo”). Em perspectiva significa a defesa de uma política puramente reformista.
  3. O anarco-sindicalismo ou sindicalismo revolucionário ou ainda sindicalismo combativo foi uma tendência histórica do movimento operário com grande importância na França, na Espanha e no próprio Brasil. Suas ideias, porém, aparecem nas organizações de esquerda. A tendência a diluir o partido em grupos sindicais é uma das mais características. No ascenso operário no Brasil da década de 1980 (1983-1988), a influência do anarco-sindicalismo, pela via das oposições sindicais, foi bastante forte, numa tendência que se fortaleceu durante o período da Ditadura Militar (as oposições sindicais de 1968) em cima do colapso do “milagre econômico brasileiro”. As oposições sindicais eram apresentadas não como uma frente única de combate dos diversos partidos e organizações políticas que atuavam no movimento sindical, mas como organizações independentes cujo programa e disciplina situavam-se acima do programa e das organizações dos partidos. A maioria das organizações (centristas) que atuavam nas oposições sindicais simplesmente se diluíam nelas como partidos, transformando-se em grupos de pressão internos das oposições. Devido à influência da burocracia na LPS persistem os sintomas nesse sentido:
  4. A tendência a ocultar a bandeira e o nome do partido (que é parte do seu programa, pois como pode um programa existir como experiência concreta se não está associado a uma organização definida?);
  5. A tendência a não ter uma imprensa partidária própria nos sindicatos, ou seja, a abandonar a lutar pelo programa revolucionário em favor de um programa meramente sindical;
  6. A tendência a atuar apenas nos momentos da mobilização das massas (típico do sindicalismo, que tende a se adaptar ao humor sindical dos operários porque vive da luta econômica) em detrimento de uma atividade regular, sistemática de partido;
  7. A tendência a deixar de lado a luta política em favor da luta meramente sindical;
  8. A tendência a sobrepor a atividade local à atividade nacional de partido;
  9. A tendência a funcionar federativamente e não centralizadamente, com a ideia de cada um no próprio feudo;
  10. A tendência à instabilidade dos agrupamentos sindicais do partido.
  11. No grosso da esquerda, a assimilação dos conceitos e do programa e receitas do anarco-sindicalismo aparece como um desvio do programa revolucionário:
  12. A substituição da ideia da mobilização coletiva, de massas da classe operária, pelo conceito anarquista da “ação direta”, que expressa ao mesmo tempo uma política aventureira e uma adaptação política ao oportunismo. A “ação direta” tende a resumir a atividade a uma intervenção de impacto, em ações de uma minoria, em detrimento da luta pela evolução política e mobilização massiva das massas, ou seja, acima de tudo, da luta pelo programa;
  13. A oposição (platônica) entre a “ação direta” e a atividade eleitoral de um partido revolucionário;
  14. O fetichismo da Greve Geral. Uma fórmula pronta para a revolução proletária que retoma a ideia anarquista de que é preciso esperar pelo confronto final espontâneo das massas;
  15. A Greve Geral como panacéia que preenche a ausência de uma política revolucionária para as diferentes situações. Incapazes de mobilizar, organizar e educar as massas operárias apresentam uma solução aparentemente prática e que serve para todas as situações, eliminando todas as complexidades da luta política reduzindo-as a um ato único.
  16. A luta contra o anarquismo nos sindicatos e contra as deformações anarquistas no nosso partido depende de:
  17. Desenvolver uma ação sistemática abertamente partidária, ou seja, com o programa e em nome do partido;
  18. Realizar a agitação e a propaganda em defesa das reivindicações econômicas e políticas da classe operária através da nossa imprensa, regular e amplamente distribuída;
  19. Manter em todos os momentos uma sólida organização partidária nos sindicatos;
  20. Observar estes princípios particularmente no trabalho de frente única com outros grupos nos sindicatos.

VII. Anarquismo: tendência pequeno-burguesa no movimento operário

  1. Segundo Lenin, o anarquismo é “a defesa da pequena propriedade e da pequena fazenda na terra” e “fruto do desespero. É a psicologia do intelectual ou do ‘desclassado’ desequilibrado, mas não do proletariado” (“Anarquismo e socialismo”).
  2. O anarquismo baseia-se na incompreensão do papel histórico do capitalismo, da grande indústria capitalista, das causas da exploração do proletariado, do seu desenvolvimento. O anarquismo é o resultado do desespero do pequeno-burguês que se vê, ao mesmo tempo, esmagado pelo grande burguês, pelo grande capital e ameaçado pelo proletariado. A sua esterilidade política não é uma desordem intelectual, mas a expressão intelectual da esterilidade social (histórica) da pequena-burguesia, que se acentua com a decadência pavorosa do capitalismo na época imperialista. A pequena burguesia não tem futuro próprio como classe, está obrigada a seguir a liderança do grande capital ou do proletariado. Assim como não existe sociedade intermediária entre o capitalismo e o socialismo ou termo médio entre a ditadura da burguesia e a ditadura do proletariado, não existe um terceiro movimento histórico que não seja a dominação da burguesia ou a revolução pela ditadura proletária e o socialismo. A tentativa de estabelecer uma terceira via não pode passar da criação de quimeras políticas como a dissolução do Estado por ato de vontade da sociedade etc.
  3. Incapaz de tomar consciência, como classe, deste processo histórico, a pequena burguesia, como classe, em seu conjunto, oscila entre a passividade política, o seguidismo à burguesia, a aliança com o proletariado sob a sua direção, o fascismo etc. em movimentos convulsivos e bruscos. O anarquismo é uma expressão deste desequilíbrio típico da pequena burguesia que não tem futuro como classe.
  4. A substituição da atuação efetiva pela fraseologia de aparência revolucionária é a expressão ideológica desta incapacidade histórica que se acentua com a crise capitalista.
  5. Apesar de toda a sua falta de perspectiva, a pequena-burguesia ambiciona sempre domina o proletariado e suas organizações para os seus próprios fins, com o que as condenaria à destruição. Daí a necessidade de uma luta implacável contra todas as manifestações anarquistas no interior das organizações revolucionárias bem como as oportunistas.
  6. Segundo Trotsky, as características gerais das tendências pequeno-burguesas dentro das organizações proletárias e revolucionárias são as seguintes:
  7. “atitude desdenhosa diante da teoria e uma inclinação ao ecletismo”;
  8. “desrespeito pela tradição da sua própria organização”;
  9. “ansiedade por uma independência pessoal à custa da ansiedade pela verdade objetiva”;
  10. “nervosismo ao invés de consistência”;
  11. “disposição para saltar de uma posição a outra”;
  12. “falta de compreensão do centralismo revolucionário e hostilidade em relação a ele”;
  13. “e, finalmente, inclinação a substituir a disciplina de partido por vínculos pessoais e laços de camarilha” (Leon Trotsky, “Em defesa do marxismo”).
  14. Estas características gerais são comuns tanto às correntes pequeno-burguesas oportunistas (ou centristas de direita) como às correntes pequeno-burguesas anarquistas e semi-anarquistas (ou centristas de esquerda) dentro dos partidos revolucionários. A diferença entre umas e outras consiste no caráter da sua relação política com a burguesia, se sofrem a influência da burguesia e expressam a sua ideologia burguesa em modo ativo ou passivo. Para os parlamentares, líderes sindicais e profissionais liberais, a sua posição social, próxima e associada com a classe dominante dará a estas características uma forma política de relação ativa com a burguesia e com o Estado e criará profundas ilusões na democracia burguesa enquanto tal, como meio de defesa dos seus interesses. Para os elementos intelectuais, universitários, artistas, doutrinários, “desclassados”, estas características tendem a assumir a forma passiva de uma idealização da democracia burguesa (fim do Estado, fim da organização, autonomia total do indivíduo etc.), transformando-a em um ideal abstrato voltado na aparência contra o Estado burguês, mas na prática contra a ditadura do proletariado (uma forma de dominação do indivíduo, da ciência, da cultura etc.), contra o marxismo (uma doutrina rígida, a ditadura da lógica, da experiência anterior generalizada, do pensamento impessoal sobre as opiniões “autônomas” e a independência do indivíduo), contra o partido revolucionário (uma forma autoritária de organização), contra a política (um comércio com a democracia não idealizada), contra a atuação revolucionária efetiva (que parece medíocre diante do romantismo e da idealização verborrágica da revolução) etc.
  15. É uma característica marcante do anarquismo que este tende a ignorar, a tolerar a opressão real e concreta do Estado burguês, combatendo-a apenas em palavras, para se opor de maneira firme e decidida a qualquer manifestação da ditadura proletária por mais embrionária que seja. Caso contrário não estaria sempre tentando rejeitar e até mesmo trabalhando para a dissolução da única organização real e séria contra a monstruosa opressão da burguesia e do imperialismo que é o partido operário.

VIII. Anarquismo e democracia imperialista

  1. O anarquismo, apesar de minoritário, sempre foi uma das três correntes fundamentais do movimento operário junto com o oportunismo e com a corrente marxista e revolucionária. A relação entre estas, no entanto, variou muito em toda a história do movimento operário. Durante o período revolucionário de 1848, o proudhonismo e outras seitas similares dominaram ideologicamente o movimento operário. Com o surgimento do marxismo, o anarquismo declinou e com a II Internacional transformou-se em uma insignificante minoria para reaparecer em alguns lugares (França, Espanha) na forma de anarco-sindicalismo. O fiasco do anarquismo na Espanha decretou uma nova fase de declínio que perdurou pelos anos de guerra e a década de 1950. Nos anos 1960, com a resistência da juventude e de setores avançados do movimento operário ao stalinismo e a influência pequeno-burguesa nos movimentos de 1968, a influência anarquista ressurgiu e cresceu extraordinariamente, trazendo consigo a confusão entre a luta contra o estalinismo e a luta contra o marxismo e o movimento operário. As teses sobre as “novas vanguardas”, sobre o fim dos partidos, sobre o caráter conservador e não revolucionário do proletariado, sobre a extinção da classe operária, a confusão entre a burocracia estalinista e a ditadura do proletariado, contra o “autoritarismo”, a supremacia da revolução cultural sobre a revolução social, o culto da liberdade individual e muitas outras características deste período têm uma filiação claramente anarquista e pequeno-burguesa e, na realidade, apesar de toda a sua aparente novidade e radicalismo nada mais são que uma versão requentada das velhas teses de todo o socialismo anterior a Marx.
  2. O isolamento da revolução cubana (1959) por meio das ditaduras criadas e apoiadas pelo imperialismo em todo o mundo e o fracasso das experiências semi-anarquistas dos foquistas latino-americanos e europeus (década de 1970) fez com que as tendências mais agressivas, semi-revolucionárias deste movimento fossem colocas na defensiva e atravessassem um processo de involução e que as tendências politicamente mais conservadoras se tornassem abertamente reacionárias. Com a derrota do imperialismo no Vietnã (1974) e as revoluções na Polônia (1980), El Salvador (1979), Nicarágua (1979) e Irã (1979) abriu-se completamente a etapa revolucionária que perdura até hoje em um sentido geral. Os regimes ditatoriais instalados nas décadas de 1950, 1960 e 1970 não podiam mais se sustentar sem provocar a expansão mundial do levante popular. Assim, o imperialismo, explorando a decomposição de todas as velhas direções do movimento operário (estalinismo, nacionalismo burguês e pequeno-burguês, esquerdistas da década de 1960, semi-anarquistas, foquistas, centristas etc.) lançou uma ofensiva ideológica em torno da democracia, dos direitos humanos etc., cujo objetivo central foi explorar e aprofundar a desorganização do movimento operário, ocupando o vazio político deixado pela falência das direções burguesas e pequeno-burguesas, em primeiro lugar o estalinismo, e disciplinando os destroços deixados por esta crise detrás de uma política de defesa do regime burguês sob a cobertura da democracia.
  3. A ausência de direções revolucionárias para a classe operária (em função da crise da IV Internacional) veio fazendo crescer a influência ideológica do anarquismo ou de tendências semi-anarquistas no interior das organizações operárias cujo ponto de unidade em toda a sua diversidade é a oposição à centralização política da classe operária, ou seja, à ideia de partido operário unificado ideologicamente e politicamente centralizado (destacam-se aqui as noções de partido não revolucionário como etapa necessária da construção futura de um partido revolucionário ou mais diretamente a substituição do partido revolucionário por um movimento ou por uma frente de partidos). Esta objeção desdobra-se, evidentemente, na substituição da luta pela ditadura do proletariado por diversas variantes democratizantes (anarquistas ou oportunistas) de “estratégia revolucionária”: “democracia socialista”, “socialismo com democracia”, “autogestão”, a ideia de que “o poder não é um objeto que possa ser tomado”, a ideia de que a revolução é “um movimento de toda a classe”, de que “não é o partido, mas a classe que toma o poder”, a ideia de que a revolução não se concentra em uma ação política (a insurreição proletária) num dado momento do tempo, mas se estende por várias etapas indefinidas, de que “ a tomada do poder não é um golpe de Estado”, a objeção à revolução armada, substituída pela ideia de uma revolução “de massas” e assim até o infinito.
  4. As tendências pequeno-burguesas no movimento operário e na esquerda intelectual e as tendências burguesas imperialistas realizam hoje uma verdadeira frente única contra a classe operária que tem como centro a luta contra a organização independente do proletariado. Este é um problema estratégico para o imperialismo em função da profundidade da crise revolucionária, a maior que o mundo já viu. Em menos de três décadas, todo o regime político formado após a colossal catástrofe do pós-guerra ruiu sob a pressão revolucionária das massas. Não apenas entraram em crise as ditaduras estabelecidas pelo imperialismo nos países semi-coloniais, mas também o estalinismo contrarrevolucionário e os próprios países imperialistas: com o colapso do velho regime político italiano baseado na socialdemocracia e a democracia cristã, substituído por um regime instável, liquidação do partido comunista etc., liquidação do partido conservador na Inglaterra, forte enfraquecimento do Partido Trabalhista inglês, crise eleitoral nos Estados Unidos junto com a tendência à organização independente dos negros e a entrada em movimento dos trabalhadores imigrantes. A crise expressa em toda a sua dimensão o enfraquecimento extremo da burguesia que tem de fazer frente a uma classe operária mundial, numerosa como nunca foi antes, concentrada, com um enorme acúmulo de experiência e organização, unificada mundialmente por modernos meios de comunicação etc.
  5. Com o agravamento da crise econômica, a burguesia mundial, em questão de proporção é uma minoria insignificante socialmente em relação às massas de bilhões de trabalhadores e de povos oprimidos do mundo. O agravamento das contradições sociais nunca chegou ao ponto em que estamos hoje: fome de centenas de milhões, desemprego em escala inédita, catástrofes sociais gigantescas (África), epidemias, desastres ecológicos, guerras com um poder de destruição impensável etc. Nestas condições, a burguesia mundial, apesar de todo o seu poder de destruição é muito fraca para dominar todo o planeta de modo estável. Sua autoridade política e moral é cada vez menor para controlar ideologicamente as massas e a oposição, não apenas operária, mas de todas as classes sociais que vivem sob o seu tacão cresce a cada dia. Nessas condições, a ofensiva ideológica do imperialismo em torno à questão da democracia corresponde a uma situação de decadência extrema que, nas atuais condições, está rapidamente evoluindo para regimes de força, mas muito mais fracos que os anteriores, dado o acelerado aprofundamento da crise capitalista. Na Revolução Francesa, a democracia conseguiu entusiasmar e agrupar detrás de si a pequena-burguesia e a classe operária nascente. No período do liberalismo – a forma não revolucionária da democracia burguesa –, a burguesia mantinha a sua autoridade moral sobre a sociedade. No século XX, esta autoridade evaporou-se e a burguesia foi forçada a manobrar com as massas. Agora, a burguesia está partindo ao uso da força bruta contra os trabalhadores devido à necessidade imperativa de salvar os lucros a qualquer custo.
  6. A predominância da política de frente popular com a integração de várias organizações das massas que desempenharam um papel nas lutas anteriores (CNA, OLP, PT etc.) foi uma expressão fundamental desta tendência geral e é alimentada por toda a mitologia “revolucionária” da ideologia anarquista. Mas essa política está colapsando devido ao aprofundamento da crise capitalista. Por esse motivo, o imperialismo impõe o endurecimento do regime político em escala mundial, rumo a ditaduras de terror aberto.
  7. A ofensiva ideológica da burguesia em torno da morte do socialismo se tornou, neste sentido, uma manobra política em grande escala após a queda do Muro de Berlim, em 1989, que tinha como objetivo desorganizar a classe operária para evitar a sua centralização revolucionária. A propaganda em torno da morte do socialismo foi uma operação política dirigida acima de tudo e, em primeiro lugar, contra a centralização política da classe operária, ou seja, contra o partido operário e a ditadura do proletariado.
  8. A influência ideológica do anarquismo no interior dos meios pequeno-burgueses, principalmente nos meios universitários, funciona como uma correia de transmissão da ideologia imperialista para as fileiras do movimento operário e cumpre, assim, com uma função fundamental no obstáculo à resolução da tarefa mais estratégica do atual período histórico: “a situação política mundial caracteriza-se, antes de mais nada, pela crise de direção do proletariado” (Leon Trotsky, “Programa de Transição”). Toda a situação política repousa sobre saber como o proletariado conseguirá obter a sua centralização política, ou seja, a construção de partidos revolucionários nacionais e da internacional operária revolucionária, a IV Internacional.
  9. A compreensão, a assimilação e a defesa da estratégia revolucionária para a nossa época é a questão chave para a construção de um partido revolucionário. Para isso, é preciso compreender as variantes anti-revolucionárias ou contrarrevolucionárias que se colocam no caminho da evolução do partido como o oportunismo e o anarquismo. Para fortalecer o partido e unificá-lo efetivamente é preciso esclarecer de maneira cabal o caráter social e político das tendências anarquistas do movimento operário e expelir do partido todo e qualquer resquício desta tendência pequeno-burguesa.

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