Quarta, 21 Novembro 2018

O “neoliberalismo”: tábua de salvação da crise de 2008

Published in Market Data Domingo, 25 Novembro 2012 22:00
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 (06/07/2017)

 

Os economistas clássicos como Adam Smith e Ricardo tentaram explicar a economia capitalista. Os economistas “neoliberais” são raivosos apologistas do capitalismo ultra-parasitário; eles não tentam explicar nada, mas justificar a busca dos lucros a qualquer custo pelo grande capital.

 

A maioria dos economistas burgueses, assim como a imprensa imperialista, apresenta o neoliberalismo como uma continuidade do liberalismo dos séculos XVIII e XIX, que teve o ponto culminante na obra dos economistas ingleses, Adam Smith e David Ricardo.

 

Milton Friedman, August von Hayek, Ludwig von Mises e a maioria dos neoliberais referenciam, principalmente, a obra mais importante de Adam Smith, escrita em 1776, “A Riqueza das Nações”. Eles deixam de lado a análise da sociedade capitalista e absolutizam um dos argumentos de Smith com o objetivo de justificar a defesa das multinacionais imperialistas e a escalada dos ataques contra os trabalhadores. De acordo com a “tese”, o ser humano, supostamente, teria uma tendência natural para o comércio com o objetivo de atender as próprias necessidades. Nessa busca, eles contribuiriam para aumentar a prosperidade social e o crescimento econômico. Isso aconteceria de maneira automática e natural, sem a necessidade da intervenção do Estado burguês.

 

A pobreza intelectual dos prêmios Nobel neoliberais atinge níveis inacreditáveis – a perfeita encarnação da burrice intelectual. As teorias têm uma conotação semirreligiosa, onde o objetivo é impor a ideia de que a sociedade capitalista seria uma espécie de paraíso possível na terra. Todo o desenvolvimento da humanidade teria acontecido, sob este ponto de vista, para que os seres humanos pudessem ter a liberdade de comprar e vender.

 

Os neoliberais não consideram o desenvolvimento da história e nem que o próprio capitalismo passou por fases. O capitalismo do século XVIII e XIX representou um ascenso revolucionário para a humanidade, já o capitalismo crescentemente parasitário do século XX nada tem a ver com a liberdade que os economistas clássicos (Adam Smith e David Ricardo) preconizavam. Hoje, a economia, a sociedade e a política são controladas por um punhado de famílias de especuladores financeiros que dominam as principais multinacionais imperialistas. Elas estão dispostas a explodir o mundo com o objetivo de obter os maiores lucros e são responsáveis pela maior destruição das forças produtivas da história da humanidade.

 

O liberalismo na história

 

As teorias liberais expressavam, em termos teóricos, os avanços promovidos pela Revolução Industrial, o desenvolvimento do mercado mundial, a busca pelo lucro e a promoção das inovações tecnológicas. Era uma época em que a burguesia era uma classe revolucionária que impulsionava o crescimento das forças produtivas. Os economistas clássicos buscavam analisar e explicar a realidade. Nesse empreendimento, muitas vezes falhavam devido às restrições de classe, principalmente porque consideravam o sistema capitalista como o ponto culminante da civilização humana, após o qual não existiria mais nada.

 

O neoliberalismo, por outra parte, representa um apanhado teórico muito mal feito, de alguns dos conceitos dos economistas clássicos, mas, principalmente, dos economistas vulgares, aqueles que não buscavam explicar a realidade, mas justificar o capitalismo. De Adam Smith, renegam o verdadeiro núcleo da teoria econômica, o valor-trabalho, e destacam o individualismo que ele enxergava, na época, como a forma ideal de funcionamento da sociedade. “Cada indivíduo procura apenas seu próprio ganho. Porém, é como se fosse levado por uma mão invisível para produzir um resultado que não fazia parte de sua intenção (...). Perseguindo seus próprios interesses, frequentemente promove os interesses da própria sociedade, com mais eficiência do que se realmente tivesse a intenção de fazê-lo” (“Riqueza das Nações”).

 

O objetivo dos neoliberais é exatamente o mesmo, justificar o sistema, mas a diferencia radical está relacionada com a época histórica atual, visceralmente decadente. As teorias neoliberais serviram como máscara teórica e, principalmente, de propaganda para justificar a escalada dos ataques dos monopólios imperialistas contra as massas trabalhadoras, a partir do início dos anos de 1970, quando as políticas keynesianas de contenção da crise e dos trabalhadores colapsaram. Aliás, esses ataques têm sido promovidos pelo Estado burguês e não pela “mão invisível” do mercado, que aparece, de maneira crescente, como a grande alavanca para viabilizar a própria existência parasitária das multinacionais imperialistas e, por esse mesmo motivo, como o grande concentrador da crise capitalista mundial.

 

O laisser faire (“mão invisível” ou mercado funcionando de maneira automática, sem quase a necessidade da intervenção do Estado) fazia sentido no final do século XVIII, quando as fábricas eram pequenas e havia vestígios mercantilistas importantes, e até feudais, como, por exemplo, a determinação de quantos aprendizes um determinado capitalista poderia contratar. O movimento operário ainda era inexistente, em quanto tal, não havia legislação social e a maioria da população era muito pobre.

 

O liberalismo econômico entrou em fase terminal a partir da década de 1870, com o início da formação dos monopólios. Desapareceu no século XX, quando os monopólios passaram a dominar a sociedade capitalista mundial. É a etapa do imperialismo, a última do capitalismo parasitário, da qual os neoliberais são os ideólogos apologistas por excelência.

 

Economia clássica analisou a luta entre as classes sociais

 

Adam Smith definiu as três categorias fundamentais para explicar o capitalismo – o trabalho, o capital e a terra. Sobre elas se estruturavam as relações sociais de produção entre as três principais classes sociais – o proletariado, a burguesia e os latifundiários – cada um com os respectivos ingressos, a saber, o salário, os lucros ou juros e a renda da terra. No relacionamento entre essas classes acontecia a “luta” pela divisão da riqueza social. O liberalismo seria a melhor maneira possível para lidar com esses conflitos. Dessa maneira, a teoria econômica também refletia os fundamentos do Estado burguês liberal próprio do século XIX.

 

Os neoliberais, que não enxergam um palmo à frente do próprio nariz, obviamente, não conseguem ver nenhum tipo de luta entre o capital e o trabalho. A panaceia se resumiria ao Estado burguês entregar tudo para as multinacionais imperialistas e conter as massas. Tratam-se de bobagem disfarçada de teorias, camuflada por prêmios Nobel, farta propaganda e recursos financeiros a perder de vista.

 

A implantação das políticas neoliberais foi imposta pelas potências imperialistas se valendo do Estado burguês, o que, portanto, nada tem a ver com a democracia liberal do século XIX. A partir da década de 1970, o Estado burguês foi se estruturando de maneira cada vez mais repressiva. A democracia liberal não passa de um verniz para encobrir a essência crescentemente autoritária e fascista. A partir da década passada, e principalmente a partir da Lei Patriótica, no primeiro governo Bush Jr., proliferaram no mundo todo tipo de ataques em larga escala contra as liberdades democráticas e os direitos dos trabalhadores. Na tentativa de conter o ascenso da luta dos trabalhadores, a partir do colapso capitalista de 2008, e com maior intensidade a partir de 2014 devido ao esgotamento das políticas de contenção, todo tipo de leis e medidas reacionárias que atacam frontalmente as liberdades democráticas e os direitos dos trabalhadores têm sido implementadas em escala mundial. Os próprios “planos de austeridade”, que representam a principal política para manter os obscenos lucros de um punhado de parasitas financeiros, em cima do contínuo empobrecimento da maioria da população, representam uma clara implementação das políticas neoliberais – só faltaria eliminar os trilionários repasses de recursos públicos para as multinacionais, o que, obviamente, é impossível, pois colapsariam imediatamente.

 

Os primórdios da teoria valor-trabalho

 

Adam Smith foi o precursor da teoria valor-trabalho. David Ricardo foi além e introduziu a análise da acumulação de capital que estabelecia que o valor-trabalho era medido pelo trabalho presente utilizado para a fabricação das mercadorias, adicionado do trabalho passado.

 

O foco principal do livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, não foi justificar o individualismo a qualquer custo, como pretendem fazer crer os neoliberais, mas analisar as classes sociais e o trabalho como gerador de valor. Foi ele quem identificou o valor de uso e o valor de troca, sendo este o componente fundamental do capitalismo. A economia, para Smith, está direcionada à produção de riquezas que têm na origem a transformação da natureza pelo trabalho. De acordo com o autor, “O trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários e os confortos materiais que consome anualmente. O mencionado fundo consiste sempre na produção imediata do referido trabalho ou naquilo que com essa produção é comprado de outras nações”.

 

Portanto, o trabalho representava a verdadeira fonte das riquezas e a medida do valor de troca das mercadorias.

 

Ricardo, avançando na análise, determinou que o trabalho era definido pela quantidade e não por tudo o que compunha uma mercadoria, de acordo com o conceito do trabalho incorporado de Smith. A medida de valor seria o tempo de trabalho contido nas mercadorias e era este o componente que permitia as trocas no mercado. O trabalho seria uma mercadoria que poderia ser negociada oscilando em torno ao preço do trabalho natural, aquele necessário para garantir a sustentação, e a reprodução dos trabalhadores.

 

Como pode ser facilmente verificado, os neoliberais, tanto a Escola de Chicago, chefiada por Milton Friedman, e, de maneira muito mais gritante, a Escola Austríaca, não têm nada a ver com os conceitos fundamentais dos economistas clássicos. Segundo Friedman, o valor de uma mercadoria é determinado na circulação, pela interdependência entre a oferta e a demanda, ou por aquilo que pode ser chamado de interação do custo e da utilidade, o que faz referência tanto as preferências subjetivas, quanto as condições tecnológicas objetivas. Para a Escola Austríaca, o valor somente pode ser atribuído pelos desejos subjetivos de um indivíduo e por suas crenças quanto às propriedades causativas de uma determinada mercadoria. Somente então os economistas poderão classificar as mercadorias como tais.

 

O que os conceitos teóricos neoliberais têm a ver com os economistas clássicos? Absolutamente nada, pois eles têm como objetivo justificar as operações de sustentação das obscenas taxas de lucro do capitalismo parasitário em cima das emissões de papel moeda podre pelo Estado burguês, além de todo tipo de trapaças relacionadas com a especulação financeira devido à crescente dificuldade de extrair lucros da economia real.

 

Economia clássica: na base do livro “O Capital” de Karl Marx

 

Karl Marx, na sua obra prima, O Capital, desenvolveu as teorias dos economistas clássicos, a partir da teoria do valor, que encarna a síntese do capitalismo, e explicou, de maneira detalhada, o funcionamento das leis fundamentais que determinam a essência da sociedade capitalista, na perspectiva do nascimento, evolução e morte. Este empreendimento pode ser feito despojando-se das limitações dos conceitos do mundo e da sociedade burgueses, portanto, uma tarefa histórica para um representante da classe social que encarna a nova sociedade que está nas entranhas do próprio capitalismo. A teoria da mais-valia, estruturada a partir da teoria do valor-trabalho, está no núcleo das leis do capitalismo e evidência o caráter explorador deste sistema, assim como o funcionamento do motor do desenvolvimento das suas contradições. Além dela, as categorias força de trabalho, preços, dinheiro, ganância, capital variável, capital constante etc., formam a estrutura do modo capitalista de produção. Elas continuarão a atuar enquanto este sistema continuar a existir e, por esse motivo, a análise que Marx fez delas manterá a vigência enquanto este sistema continuar existindo. O mesmo se aplica para as conclusões que Marx tirou sobre a evolução futura, sobre as crises, sobre a tendência à formação dos monopólios, que ele explicou teoricamente, sobre a tendência à queda da ganância média e, principalmente, sobre o surgimento da sociedade socialista como consequência natural da evolução do capitalismo.

 

O desenvolvimento da teoria marxista tem como objetivo fundamentar a ação revolucionária da classe operária. Ela está apoiada em três grandes pilares – a economia clássica inglesa, a filosofia clássica alemã e o socialismo utópico. Ela é um todo integrado, um guia para a ação revolucionária que nada tem a ver com as elucubrações filosóficas de professores universitários. Portanto, se encontra intrinsicamente ligada à luta de classes e não tem nada a ver com as falsificações luckasianas ou da Escola de Frankfurt, por exemplo. Da mesma maneira que as teorias neoliberais representam a base teórica do capitalismo parasitário e o aumento da truculência dos monopólios, na busca por altos lucros a qualquer custo, essas correntes autodenominadas “socialistas” compartilham um aspecto comum fundamental: o amor à democracia burguesa e às “liberdades” da pequeno burguesia, mesmo com as tremendas e crescentes limitações da época do imperialismo. O papel objetivo é desarmar a classe operária, e, principalmente, à vanguarda revolucionária, do arcabouço teórico.

 

Conforme Vladimir Ilich Lenin escreveu em 1913, “A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo uma espécie de ‘seita perniciosa’. E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social ‘imparcial’. De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes fossem imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital”.

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